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Endurecimento migratório nos EUA levanta dúvidas entre torcedores que pensam em ir a Copa de 2026

Com orçamento bilionário para operações migratórias e expansão do ICE, Estados Unidos preparam o Mundial de 2026 em meio a um cenário de tensão

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Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz 

A Copa do Mundo FIFA de 2026 já pulsa no imaginário brasileiro. Segundo pesquisa da Ipsos, 71% dos torcedores do país pretendem assistir ao torneio. Ao mesmo tempo, o endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos, um dos países-sede, levanta dúvidas entre viajantes sobre como será a entrada no país durante o evento.

Com um orçamento bilionário destinado ao reforço da fiscalização migratória nos próximos anos, o U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) tem ampliado operações em diferentes regiões do país. Para especialistas, o fortalecimento dessas estruturas pode tornar o processo de entrada mais rigoroso para estrangeiros. 

O médico endocrinologista e viajante acreano Gil Lucena afirma que percebeu mudanças recentes no processo de imigração em viagens aos Estados Unidos. 

“Agora é necessário passar por um agente da imigração que pode fazer alguns questionamentos”, relata. 

Segundo ele, na viagem mais recente a Miami e Nova York, em novembro de 2025, o tempo de espera na imigração foi maior do que em visitas anteriores. Lucena também menciona que a obtenção de visto tem se tornado mais difícil para alguns estrangeiros e que negativas podem dificultar novas tentativas. 

Apesar disso, ele afirma que as políticas migratórias, por si só, não o impedem de visitar o país. “Não vejo políticas imigratórias como empecilho para viajar aos Estados Unidos. Mas as tensões internacionais podem influenciar essa decisão”, conta. 

Para o médico, o período da Copa deve combinar grande mobilização de torcedores com controles mais rígidos nas cidades-sede. “Imagino um mês de muita euforia local, mas também com controles migratórios mais demorados e segurança reforçada”, afirma. 

71% dos torcedores brasileiros pretendem assistir ao torneio Imagem: Maria Eduarda Ruiz 

Os números ajudam a dimensionar o contraste. Ao final de 2025, mais de 70 mil pessoas estavam sob custódia do U.S. Immigration and Customs Enforcement, um dos maiores patamares já registrados. Ao mesmo tempo, a FIFA recebeu mais de 500 milhões de

solicitações de ingressos para a Copa do Mundo FIFA de 2026 na fase inicial de sorteio, evidenciando a mobilização global em torno do torneio. 

“Geografia do Medo” e o Inimigo Interno 

Para compreender parte das preocupações relacionadas ao tema, o professor de Direito Internacional Daniel Zen, da Universidade Federal do Acre, aponta diferenças estruturais entre os sistemas de segurança pública do Brasil e dos Estados Unidos. Segundo ele, enquanto no Brasil as polícias seguem um padrão nacional, com divisões entre policiamento preventivo e investigativo, o modelo americano é mais descentralizado. 

“Cada Estado tem autonomia para organizar suas forças policiais e não necessariamente precisa seguir o mesmo parâmetro de outros Estados. Diferentemente do Brasil, lá há uma distribuição de competências administrativas distinta”, explica. 

Segundo Zen, esse modelo também pode abrir espaço para o uso político da segurança em determinados contextos. “Em alguns cenários constrói-se a ideia de um inimigo interno ou externo. Esse tipo de narrativa aparece com frequência em experiências de governos com tendências mais autoritárias”, afirma. 

Na prática, segundo o professor, esse “inimigo” tende a ganhar rosto: imigrantes, especialmente latinos e negros, independentemente de sua situação legal. 

O método dragnet e o risco da generalização 

A professora de imigração, educação e política internacional da Harvard University, Gabrielle Oliveira, afirma que operações recentes do ICE têm adotado estratégias conhecidas como dragnet. 

“Basicamente quer dizer que você leva todo mundo, que você não está só atrás das pessoas que são criminosos com condenações. O que a gente está vendo são carros com vidro arrombado, pessoas sendo presas na porta de casa… é usado muita violência”, relata. 

Segundo ela, a abordagem amplia o risco de detenções temporárias até mesmo de pessoas com situação regular. “Mesmo se você tiver situação regular, até você provar, você já pode ter sido preso e detido. Eles só vão olhar e fazer perguntas depois que a pessoa é detida.” 

Gabrielle aponta ainda que a intensificação das operações tem sido mais visível em alguns estados considerados politicamente progressistas. 

“O governo quer mostrar serviço nas cidades e colocar mais medo como retaliação e punição”. O ambiente de incerteza, portanto, não distingue claramente o turista do residente, nem o regular do irregular. 

Economia e medo nos bastidores 

O clima de tensão migratória também pode ter reflexos indiretos em setores que tradicionalmente empregam trabalhadores imigrantes, como hotelaria, limpeza e construção civil. 

A jornalista e mestre em Relações Interculturais Fabiana Santos, que vive em Maryland, relata que parte desses trabalhadores têm demonstrado receio de manter a rotina de trabalho. 

“Há trabalhadores com medo de manter a rotina no emprego e uma parcela deles acabou largando o emprego.” 

Segundo ela, muitos desses profissionais atuam como prestadores de serviço, como faxineiras, garçons, jardineiros e operários da construção civil. “Quando essa população começa a sair do mercado de trabalho, alguns serviços acabam sendo afetados”, observa. 

Fabiana também questiona a percepção de que imigrantes em situação irregular não contribuem economicamente. 

“Muitos utilizam o ITIN para pagar impostos mesmo sem ter número de seguridade social. Uma parte significativa dessa população paga tributos regularmente”, explica. O impacto, portanto, não é apenas social ou político, mas sim estrutural. 

O “silêncio” das redações esportivas

Apesar da dimensão do tema, discussões sobre imigração e direitos civis ainda aparecem pouco na cobertura esportiva tradicional. A jornalista esportiva Cristina Dissat observa que grande parte das redações permanece focada em assuntos ligados ao campo. 

“Entre os próprios jornalistas que cobrem esporte e futebol, essa abordagem ainda não tem feito parte das conversas do dia a dia. O foco é: quem foi convocado ou como conseguir credenciamento”, conta 

Ela destaca que questionamentos mais políticos costumam partir de repórteres de outras editorias, que raramente protagonizam coletivas pré-Copa. 

Dissat também relata mudança de comportamento entre torcedores. “Pelo que a gente tem escutado, várias pessoas desistiram. Pensam: ‘ah, não vou me aborrecer à toa, assisto pela televisão mesmo, a gente faz um churrasco’, relata. 

A Copa do Mundo de 2026 será, antes de tudo, um evento de política externa, em que a bola pode ser apenas um detalhe sob a vigilância constante do governo norte-americano.

Redação

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