Travessias

Samanta Bullock e o desafio sobre a moda acessível

A ex-atleta paralímpica Samanta Bullock defende que a moda inclusiva precisa ir além da representatividade e enfrentar barreiras estruturais

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Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz

Aos 14 anos, Samanta Bullock já trabalhava como modelo quando um acidente com arma de fogo interrompeu sua carreira nas passarelas. A lesão a deixou paraplégica e redesenhou seu caminho. Se a moda ficou em suspenso, o esporte entrou em cena. No tênis em cadeira de rodas, representou o Brasil e conquistou medalha de prata nos Jogos Parapan-Americanos de 2007. 

O que poderia ter sido um ponto final tornou-se transição. Anos depois, entre treinos e competições, Samantha voltaria ao universo que conhecia desde a adolescência, desta vez, com outro propósito. Não apenas como modelo, mas como articuladora de mudanças em um setor historicamente excludente. 

Durante décadas, a indústria da moda sustentou padrões rígidos de corpo, gênero e comportamento. A ausência de pessoas com deficiência nas campanhas e nas passarelas não era apenas simbólica; revelava um problema estrutural. As roupas simplesmente não eram pensadas para esses corpos. Nos últimos anos, a chamada “moda inclusiva” passou a ganhar visibilidade, impulsionada por debates sociais e por consumidores mais atentos. Ainda assim, permanece a dúvida: trata-se de mudança estrutural ou estratégia de mercado? 

Foi nesse cenário que Samantha passou a enxergar a moda como ferramenta prática de autonomia. 

Da representatividade à modelagem 

Enquanto ainda competia, ela se tornou embaixadora do projeto Fashion Inclusivo, em Brasília. A experiência marcou uma virada. “Eu entendi que não bastava estar na passarela. A roupa precisava funcionar para aquele corpo”, diz. “A representatividade é importante, mas ela precisa vir acompanhada de solução.” 

Ao se aposentar do esporte, em 2012, decidiu concentrar esforços na moda adaptada. Percebeu que o desafio ia além da imagem. Era necessário redesenhar modelagens, repensar tecidos, adaptar aberturas, rever etiquetas, ajustar caimentos para corpos sentados ou usuários de prótese. 

Enquanto ainda competia, ela se tornou embaixadora do projeto Fashion Inclusivo. Imagem: reprodução 

O jeans, peça universal nos guarda-roupas, tornou-se exemplo recorrente em suas análises. Para uma pessoa amputada acima do joelho, a necessidade é uma; para outra, abaixo, é outra. Algumas usam prótese. Outras não. Algumas são plus size. Outras não. “A deficiência não é uma coisa única”, afirma. “Cada corpo tem uma necessidade diferente. Quando a indústria trabalha só com padrão, ela deixa muita gente de fora.” 

A complexidade revela um dos principais entraves da indústria: a escala. Grandes marcas operam com padronização e volume. A moda adaptada exige variações, testes e investimento. 

No Brasil, a discussão se cruza com a desigualdade econômica. Muitas pessoas com deficiência vivem em situação de vulnerabilidade e dependem de benefícios sociais. Peças adaptadas, por envolverem desenvolvimento específico, tendem a custar mais caro. O resultado é um ciclo difícil de romper: quem mais precisa da adaptação é quem menos pode pagar por ela. 

Para Samantha, a responsabilidade é compartilhada. “Se as grandes marcas entendem que isso é uma demanda real, elas conseguem incorporar a inclusão de forma permanente. Não pode ser só uma coleção pontual”, diz. Pequenas empresas, segundo ela, podem começar com ajustes na comunicação e na escolha de modelos diversos.

Entre prêmios e autonomia 

Nos últimos anos, Samantha participou de eventos ligados à London Fashion Week, colaborou com marcas internacionais e desenvolveu projetos com universidades no Brasil e no exterior, conectando moda, fisioterapia e comunicação. Foi reconhecida cinco vezes como uma das 100 pessoas com deficiência mais influentes do Reino Unido e integrou um projeto que entrou para o Guinness World Records. 

Ela relembra a abertura dos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, a medalha de prata pelo Brasil e os desfiles internacionais. Ainda assim, afirma que o mais marcante não está nos grandes eventos, mas no impacto direto que teve na vida das pessoas. “Você dá autonomia e vê o olho brilhando”, diz. 

Entre passarelas e quadras, Samantha Bullock sustenta que a inclusão só se consolida quando deixa de ser discurso e passa a fazer parte da estrutura. 

*Com o objetivo de ampliar o debate sobre a reportagem, a equipe tentou contato com pessoas e estabelecimentos da cidade que participaram das produções sobre acessibilidade de vestuário. Porém, até a publicação, não obtivemos retorno. O jornal segue aberto a contribuições, que podem ser feitas pelo perfil no Instagram, A Catraia.

Redação

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