OLÍMPIADAS DE INVERNO 2026

Acreano Manex Silva garante o melhor resultado da história do Brasil no esqui cross-country

Atleta acreano alcança resultado inédito nos Jogos Olímpicos de Inverno e mira o top 30 em Milão-Cortina 2026

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Por Eleonor Rodrigues e Ranelly Yasmim Pinheiro

O calor e a umidade fazem parte da rotina no Acre, onde rios e florestas densas compõem a paisagem amazônica. A milhares de quilômetros, o cenário é outro: temperaturas abaixo de zero, florestas cobertas de neve e cursos de água congelados. A mudança de ambiente também muda o ritmo, o que antes era tranquilo ganha velocidade, a adrenalina e a prática de esportes de inverno, como o esqui, transformam o frio intenso em experiência e contato com a natureza

Nascido em Rio Branco, no Acre, Manex Salsamendi Silva, de 23 anos, participa pela segunda vez das Olimpíadas de Inverno, na modalidade esqui cross-country. Sua estreia ocorreu na edição de Pequim 2022, e agora ele compete em Milão-Cortina 2026.

Na edição dos jogos de 2026, atleta estreou na prova do Sprint Clássico e conquistou uma posição histórica ao se tornar o primeiro brasileiro a alcançar a 48ª colocação nos Jogos, com o tempo de 3min25s48. Já no dia 13 de fevereiro, ele disputa a prova dos 10 km livre, a partir das 6h30, no horário do Acre.

Eliminatórias do Sprint Clássico. Foto: Gabriel Heusi/COB

Manex Silva mudou-se para o país Basco, localizado entre o norte da Espanha e sudoeste da França, quando tinha apenas dois anos. Aos oito foi para a região mais ao norte que é cercada por montanhas e que neva bastante durante o inverno. Por lá começou a praticar esqui cross-country no clube da região com os amigos da vila.

Crescido entre a cultura brasileira e basca, o acreano conta que não foi difícil escolher representar o Brasil ao invés da Espanha. Em casa, Manex falava português com a mãe e aprendia da cultura brasileira, e com o pai, da cultura basca e falando o euskera.

“Lá em casa eu sempre me senti brasileiro e basco, e não tanto espanhol, então não foi uma escolha muito difícil poder representar o Brasil nesse esporte. Além disso, foi mais fácil também porque naquela época que eu comecei a competir a Federação da Espanha não ajudava tanto os atletas novos e eu encontrei uma oportunidade com a Federação Brasileira. E, na verdade, estou muito feliz com aquela decisão que eu tomei faz anos”.

Manex ainda criança. Foto: Instagram/manexsalsamendi

Com treinos intensos, uma rotina regrada na alimentação, estudos, atividade física e trabalho mental, o atleta revela que seu objetivo a longo prazo é poder competir com os melhores esquiadores do mundo. No entanto, com uma mente focada e um tanto realista, conta que ainda não está nesse nível.

Para as Olimpíadas de 2026, sua meta é estar no meio da tabela ou pelo menos entre os 30 ou 40 primeiros colocados. Na sua primeira competição de sprint, o atleta fico no top 50 primeiros.

“Poder representar o Brasil nos jogos olímpicos é bem legal e uma honra pra mim porque mesmo o Brasil não tendo sido um país muito forte nos esportes de inverno, esses últimos anos a confederação pegou muita força e respeito, porque cada vez tem esportistas melhores”, conta.

Se o Brasil está de olho nos 14 atletas que disputam as Olimpíadas, o Acre está de olho no menino dos seus olhos. Ao ser questionado sobre o que faz ele se identificar como acreano, Manex não hesita:

“Eu tenho boas lembranças lá do Acre, mesmo tendo saído muito cedo dali pra morar na Espanha. Eu voltei várias vezes lá e eu ainda tenho familiares: tios, tias e primos. E eu acho que minha mãe sempre me transmitiu essa cultura brasileira e lá do Acre. Eu sempre me senti representado pelo Acre e pelo Brasil também”.

“Poder representar o Brasil nos jogos olímpicos é bem legal e uma honra pra mim”. Foto: Instagram/manexsalsamendi

Ele conta que quer demonstrar para o Brasil e para o mundo que o país pode ser forte no cross-country. Além disso, busca inspirar brasileiros que tem a oportunidade de competir em esportes de inverno para também representarem o Brasil. Como o esporte na neve não é tão comum no Brasil, os atletas da neve carregam uma responsabilidade especial.

“Sim, eu acho que temos a responsabilidade de poder mostrar pro Brasil esses esportes não tão conhecidos. Poder ter uma boa representação e mostrar pra eles que o Brasil mesmo não tendo neve pode chegar a ser um país bom nos jogos e mostrar pro resto do mundo também que mesmo sendo um país sem muita tradição de neve a gente pode chegar até o topo”.

O Brasil é um país tropical, e por tanto, não investe tanto em esportes de inverno. O acreano é amparado pelo Bolsa Atleta do Governo do Brasil, que investe cerca de R$1,6 milhões ao longo de sua carreira. No entanto, esse valor não é o suficiente para arcar com as despesas de preparar um atleta de alto nível.

“Estamos fazendo um bom trabalho como time. Os países grandes têm muitos patrocinadores, então podem investir muito dinheiro em material, em preparação. O Brasil ainda pode melhorar muito nesse aspecto,” explica o acreano.

O atleta conquistou uma posição histórica ao se tornar o primeiro brasileiro a alcançar a 48ª colocação nos Jogos. Foto: Gabriel Heusi/COB

Conquistas

Manex Silva é dono dos melhores resultados masculinos da história do Brasil no esqui  cross-country.  Ele  conquistou  a  melhor  pontuação  FIS  –  sistema de ranqueamento da Federação Internacional de Esqui e Snowboard – da história do Brasil entre os homens, com 81.36 pontos, na Copa do Mundo de Oberhof, em 2026. E, nos Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude de Lausanne 2020, conquistou o 39º lugar no sprint.

Em Beijing 2022 fez história ao se tornar o primeiro brasileiro a disputar quatro provas em uma mesma edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, além de ser o primeiro do país a atingir o índice A de classificação olímpica – menos de 150 pontos FIS. Na mesma edição, foi escolhido porta-bandeira do Brasil na Cerimônia de Encerramento e terminou o sprint na 71ª colocação, sendo o melhor sul-americano da prova, e ficando em 58º nos 50 km.

O Esqui Cross-country é um dos esportes mais difíceis e tradicionais das Olimpíadas de Inverno. Foto: Gabriel Heusi/COB

A história do Esqui Cross-country

O Esqui Cross-country é um esporte de resistência, e considerado um dos mais difíceis e tradicionais das Olimpíadas de Inverno. Cross-country, em inglês significa “atravessar o país”, e por séculos, nos países nórdicos as pessoas usavam pedaços de madeira para esquiar e cruzar grandes distâncias.

No século XIX, esta prática se tornou um esporte e os esquis se modernizaram. Os atletas percorrem distâncias variadas com esquis impulsionados por bastões, em duas diferentes técnicas: a Clássica e a Skating. Na primeira, os atletas percorrem trilhos previamente preparados, com os skis paralelos entre si.

Já a técnica Skating é mais veloz e o atleta “empurra” o ski para “fora” em um ângulo de 45 graus, ou em “V”, imitando a patinação no gelo. Outra modalidade é skiathlon, em que os atletas apresentam ambas as técnicas. Nesta Olimpíada ocorrerão 12 eventos de esqui cross-country, com homens e mulheres percorrendo as mesmas distâncias pela primeira vez na história.

Redação

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