A leishmaniose tegumentar americana (LTA) é uma doença tropical negligenciada, endêmica no Brasil, com maior concentração de casos na região amazônica. No Acre, apenas na última década, mais de 11 mil casos foram notificados, evidenciando a persistência e a intensidade da transmissão local, especialmente em áreas rurais. Transmitida pelo mosquito-palha, a doença pode se manifestar nas formas cutânea ou mucosa e, quando não diagnosticada e tratada precocemente, pode causar complicações significativas aos pacientes.
Leishmaniose é uma doença infecciosa causada por parasitas transmitidos pela picada do mosquito-palha, que pode afetar a pele, mucosas ou órgãos internos. Foto: reprodução
Diante desse cenário, em 2022, durante atividades de campo voltadas à investigação da ecoepidemiologia da doença em áreas rurais, a equipe do Laboratório de Patologia e Biologia Parasitária (LabPBP/CCBN/Ufac) deu início às atividades educativas junto aos moradores dessas comunidades. As ações iniciaram como parte do projeto de doutorado em Medicina Tropical do biólogo Leandro Siqueira, desenvolvido na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e marcaram o surgimento do projeto de ensino e extensão EducaLeish.
O projeto tem como objetivo capacitar profissionais da saúde sobre a leishmaniose, além de promover ações de educação em saúde voltadas à comunidade, com foco nos aspectos básicos da doença, como transmissão, prevenção, sinais e sintomas. A iniciativa é coordenada pelo professor Francisco Glauco de Araújo Santos e pelo biólogo Leandro Siqueira e conta com a participação de estudantes e docentes dos cursos de Medicina, Medicina Veterinária, Biologia e Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac).
Entre as principais iniciativas desenvolvidas pelo EducaLeish estão as visitas anuais a escolas de comunidades rurais da Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema. Nessas mobilizações, são realizadas exposições sobre o ciclo de transmissão da doença, com estratégias que permitem a interação dos alunos e da comunidade com microscópios, lupas, vetores, materiais biológicos didáticos e jogos educativos.
Além das ações em áreas rurais, o projeto também realiza ações de educação em saúde em escolas públicas de Rio Branco, levando informações sobre a leishmaniose de forma acessível para crianças e adolescentes. A proposta é trabalhar a prevenção, os cuidados necessários e a identificação precoce dos sintomas por meio de uma abordagem prática, lúdica e interativa.
A iniciativa tem sido bem recebida pelas instituições de ensino atendidas. Para Laézio Lira, diretor da Escola Tancredo Neves de Almeida, a presença de profissionais e estudantes da área da saúde torna o aprendizado mais efetivo.
Estudantes apresentam atividades práticas sobre a leishmaniose a alunos de escola pública de Rio Branco. Foto: Divulgação/EducaLeish
“A grande importância desse trabalho que a Ufac está trazendo para a escola sobre a leishmaniose é que vai trabalhar a prevenção, os cuidados que devem ser adotados e os sintomas da doença. Uma coisa é o professor estar em sala passando o conteúdo de forma teórica, outra é o pessoal da Medicina e da Medicina Veterinária da UFAC trazendo essa prática. Os alunos ficam muito motivados e encantados com a dinâmica”, afirma.
Nas comunidades rurais, o impacto também é percebido pelos estudantes. Um aluno do ensino fundamental da Escola Hermínio Pessoa, localizada na Reserva Cazumbá-Iracema, comentou sobre a experiência: “Foi a primeira vez que vi um microscópio. Antes a gente só via na televisão. Foi muito legal as atividades e nossa turma gostou bastante”.
Segundo a direção das escolas, as práticas extensionistas contribuem para aproximar os estudantes da ciência e reforçam o papel da escola como espaço de promoção da saúde e do conhecimento científico.
Pesquisadores e estudantes levam o EducaLeish para comunidade rural do interior do Acre. Foto: Divulgação/EducaLeish
A participação dos universitários é outro ponto central do projeto. Para a estudante de Biomedicina Thais Cardeal, de 18 anos, a experiência tem contribuído para seu amadurecimento acadêmico e pessoal.
“A proposta de unir pesquisa, laboratório e ações em escolas me motivou bastante, porque envolve aprendizado e contribuição social”, destaca.
Além das frentes de atuações consolidadas, o EducaLeish prevê uma nova etapa para os próximos meses, comentou o biólogo Leandro Siqueira.
“A educação em saúde é a principal estratégia para a prevenção de doenças. Levar essas atividades para as escolas rurais, onde os alunos e professores não possuem acesso como na zona urbana, é um dos privilégios deste projeto. Para os próximos meses, estamos organizando uma Mostra de Ciências na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, a primeira a ser realizada em comunidades rurais, com objetivo de promover ações de divulgação e popularização da ciência em escolas de comunidades rurais de difícil acesso”, comenta.
A proposta da mostra é ampliar o diálogo com moradores e estudantes da região, fortalecer a divulgação científica e incentivar o interesse pela ciência. A iniciativa se soma às visitas anuais realizadas pelo projeto e marca um novo momento de aproximação entre ensino, pesquisa e extensão, para propiciar a troca de experiências entre a comunidade acadêmica e profissionais de diversas áreas e comunidades tradicionais.