O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 revelou um dado chocante: 64,3% dos feminicídios acontecem dentro da própria casa da vítima. Já entre as mortes violentas intencionais, mais de 90% das vítimas são homens, e quase 58% desses assassinatos ocorrem em via pública. Essa diferença expõe uma realidade cruel: as mulheres morrem principalmente no lar, e os homens, nas ruas.
Para a delegada Juliana de Angelis, da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), a casa, longe de ser um espaço seguro, é para muitas mulheres o local de maior risco. “A sociedade patriarcal legitima relações de dominação masculina e encara o espaço doméstico como território privado do homem, onde ele exerce controle e poder sobre a mulher”, afirma.
Juliana de Angelis. Foto: Dhárcules Pinheiro/Sejusp
Muitas mulheres vivem dependência emocional, econômica ou parental em relação ao agressor, o que cria barreiras para romper o ciclo de violência. Esse ciclo segue três fases: tensão crescente, explosão violenta e uma fase de “lua de mel” ou reconciliação, um padrão que se repete e naturaliza a violência no cotidiano.
O medo, a vergonha e a desconfiança no sistema de justiça são motivos comuns para que muitas vítimas não denunciem. Isso mantém os agressores impunes, incentivando a continuidade da violência.
Um caso emblemático em Natal (RN) ilustra esse cenário, o registro em câmeras de uma mulher agredida com mais de 60 socos. Tudo indica o perfil típico de violência de gênero no espaço doméstico: o agressor era namorado da vítima, a agressão ocorreu no elevador do condomínio, havia histórico de relacionamento conturbado e as agressões foram motivadas por ciúmes e posse.
O Acre no padrão nacional
No Acre, a situação é preocupante. Segundo o Atlas da Violência, o estado apresenta uma das maiores taxas proporcionais de feminicídio no Brasil. A Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) em Rio Branco informou que mais de 70% das ocorrências registradas acontecem dentro do lar da vítima.
Os dados locais confirmam que as vítimas são, em sua maioria, mulheres jovens, pardas e negras, envolvidas em relacionamentos afetivos com os agressores. Muitas delas já relataram ameaças anteriores, reforçando o padrão de escalada da violência doméstica.
A Polícia Civil do Acre disponibiliza relatórios mensais com estatísticas que detalham esses casos, ressaltando a urgência de políticas públicas específicas para o combate à violência contra a mulher.
Faixada Deam. Foto: Neto Lucena/Secom
Raça e gênero
Interseccionalidade é um conceito que analisa como diferentes grupos sociais, como raça, gênero, classe, orientação sexual, entre outros, se cruzam e interagem, criando experiências únicas de discriminação ou privilégio.
A advogada criminalista e militante Lúcia Ribeiro destaca que as mulheres negras são as mais afetadas pela violência doméstica e pelo feminicídio no Brasil. Dados do Dossiê Feminicídio e do Ministério da Saúde mostram que mulheres negras têm duas vezes mais chance de serem assassinadas que mulheres brancas.
Entre 2003 e 2013, enquanto o número de homicídios de mulheres brancas caiu quase 10%, os homicídios de mulheres negras aumentaram mais de 54%. Além disso, a maioria das vítimas de violência obstétrica e mortalidade materna também são negras, indicando que o racismo estrutural atravessa diversas formas de violência e exclusão.
Especialistas apontam que o racismo, aliado ao sexismo, cria camadas de discriminação que dificultam o acesso das mulheres negras a direitos, serviços públicos e justiça. “O racismo é um fenômeno ideológico que justifica a hierarquização social e a exclusão das mulheres negras da cidadania plena”, afirma Ana Carolina Querino, do ONU Mulheres.
A socióloga Luiza Bairros lembra que o racismo e o sexismo estão no DNA da sociedade brasileira e que, sem a análise da interseccionalidade, políticas universais dificilmente avançam no combate à violência e à desigualdade.
Invisibilidade política
Apesar de as estatísticas mostrarem a predominância da população negra entre as vítimas, Lúcia Ribeiro alerta para a invisibilidade política dessa realidade. Para transformar o cenário, é fundamental aumentar a presença de pessoas negras em espaços de gestão pública e privada e criar planos de enfrentamento que considerem as múltiplas vulnerabilidades.
Lúcia Ribeiro. Foto: cedida
Nilza Iraci, do Instituto Geledés, destaca que “o racismo institucional e a desigualdade de gênero produzem a falta de acesso ou acesso de menor qualidade aos serviços e direitos para a população negra, perpetuando desigualdades estruturais”.
A violência letal contra homens e mulheres revela que a segurança pública precisa ser pensada de forma segmentada, considerando as diferentes dinâmicas que expõem cada grupo aos riscos.
No caso das mulheres, a compreensão do racismo estrutural, da dominação patriarcal e da interseccionalidade é fundamental para elaborar políticas públicas eficazes que realmente protejam as vítimas e punam os agressores.
Canais de ajuda
O primeiro passo em direção ao pedido de ajuda é desafiador, mas também necessário. Romper com o ciclo da violência é um ato de coragem que pode trazer de volta a segurança para dentro de casa. Você não está sozinha.
As vítimas podem procurar ajuda na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) pelo telefone (68) 3221-4799.
Também podem entrar em contato com a Central de atendimento à Mulher pelo Disque 180 ou com a Polícia Militar do Acre (PM – AC) através do 190.
Outras opções de atendimento incluem o Centro de Atendimento à Vítima (CAV), no telefone (68) 9999-34701, a Secretaria de Estado da Mulher (Semulher), pelo número (68) 99605-0657 e a Casa Rosa Mulher no (68) 3221-0826.