Por Carlos Alexandre
Em uma publicação da Folha de São Paulo, o jornalista Ruy Castro definiu o Brasil como o “País de Não Leitores”, amparado por dados levantados pela pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, do Instituto Pró-Livro. O estudo realizado em dezembro do ano passado revelou que, em 2024, 53% dos entrevistados admitiram não ter lido sequer uma frase de um livro. Em qualquer mídia, de qualquer gênero, nem mesmo os didáticos ou religiosos conquistaram os olhos dos brasileiros.

Outro dado alarmante aponta que cerca de 75% dos entrevistados passam mais tempo diante de uma tela do que folheando páginas impressas. Esse cenário escancara o crescente desinteresse pela leitura. No entanto, indo contra essa maré de apatia literária, diversas iniciativas buscam estimular o hábito da leitura por meio de clubes de leitura, estabelecendo vínculos e incentivando o pensamento crítico.
Um refúgio literário na universidade
Um dos exemplos desse movimento acontece na Universidade Federal do Acre (Ufac), onde o Clube do Livro Amaro surgiu como um projeto de extensão do Centro de Educação, Letras e Artes (Cela). O objetivo é incentivar alunos e a comunidade a se envolverem com obras de ficção, fomentando o hábito da leitura e criando um espaço de diálogo presencial dentro da universidade. Desde sua fundação, em outubro de 2023, o clube já reuniu cerca de 60 participantes, sendo que, em média, de 15 a 25 pessoas comparecem aos encontros mensais. Até agora, 12 livros foram discutidos, todos escolhidos por votação entre os membros. A leitura atual é O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie.
Segundo Carlisson Morais, professor de Literatura da Ufac, espaços como esse e demais clubes são fundamentais para estimular leituras fora das telas: “Julgo de grande importância promovermos esses espaços de socialização offline. Criamos esse ambiente de conversa justamente para reforçar a prática no nosso dia a dia e dialogar sobre um hobby que gostamos tanto”. Além disso, o clube mantém as portas abertas para novos participantes: “Não há necessidade de inscrição prévia. Basta comparecer a um dos encontros”, convida Carlisson.
O nome do clube faz referência ao personagem José Amaro, do romance Fogo Morto, lançado em 1943 por José Lins do Rego. A obra retrata a decadência dos engenhos de cana-de-açúcar, destacando o protagonista como um artesão resistente à modernização e à submissão aos senhores de engenho e propondo uma metáfora para a luta pela preservação da cultura e dos valores individuais.
Redescobrindo o prazer da leitura
Outro exemplo de iniciativa que busca reacender o interesse pela literatura é o clube do Livro Novos Capítulos, idealizado pelo jornalista Aldeir Oliveira. Segundo ele, o grupo surgiu da necessidade de resgatar o hábito da leitura tanto para si quanto para amigos próximos. “Na adolescência, eu lia bastante, mas, ao entrar no mundo acadêmico, a leitura virou uma obrigação em vez de um prazer. A partir daí, tentei retomar esse hábito, e estar acompanhado de amigos com o mesmo objetivo tornou essa experiência muito mais enriquecedora”, conta Aldeir.
O Novos Capítulos promove encontros mensais em cafés de Rio Branco, proporcionando discussões literárias descontraídas. Os membros compartilham suas impressões sobre os livros escolhidos, destacando pontos positivos, críticas e reflexões. A seleção das obras é feita por votação, variando entre clássicos da literatura, como Frankenstein, de Mary Shelley, e títulos contemporâneos, como Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva.
Atualmente, o clube conta com 10 membros e está aberto a novos interessados. Quem quiser conhecer mais sobre o grupo pode entrar em contato pelo Instagram: @clubenovoscapitulos.
O impacto social dos clubes de leitura
Uma das pessoas que compõem o grupo é a desenvolvedora de software Caroliny Pinheiro. Ávida leitora desde sempre, ela rememora como o interesse surgiu: “Como muitas outras crianças brasileiras, eu fui uma fã fervorosa dos gibis da ‘Turma da Mônica’ e lembro com carinho de quando corria para ler o gibi do Cebolinha, era o meu momento. Também cresci com pais que costumavam ler bastante e nas escolas eu sempre procurava frequentar as bibliotecas”.
Durante o fim da adolescência, Caroliny deixou a leitura de lado, frente às preocupações com o futuro e ao alto custo dos livros. Atualmente, conseguiu resgatar a leitura, usando um kindle, aparelho eletrônico para livros digitais, aproveitando qualquer oportunidade para ler, seja antes de dormir ou até mesmo durante treinos na academia. Outro recurso que a ajudou a manter a leitura frequente foi a sua participação em um clube de leitura. “Por anos a leitura foi um momento de solitude, mas no clube encontramos um espaço de socialização. Para adultos, é uma ótima forma de retomar o hábito da leitura, descobrir novos gêneros e fazer novas amizades que compartilham do mesmo hobby”, finaliza.
A jornalista Charlene Carvalho, também compartilha da mesma opinião, quanto ao fator social de clubes de leitura. “Da visão de uma pessoa acima dos 50 anos, acho válida a promoção desses ambientes que nos enriquecem social e intelectualmente. É uma maneira de nos afastarmos das telas, reservar um tempo de qualidade para si mesma e abrir a mente para reflexões”, comenta.
Participante de um clube informal reservado para amigas próximas, Charlene também destaca que os encontros não se limitam apenas às discussões literárias: muitas vezes, as conversas se expandem para temas cotidianos, ampliando horizontes e promovendo conexões genuínas entre os participantes.