Dia Internacional Contra a Discriminação Racial: fazedores de cultura negros no Acre relembram protagonismo e resistências
A Organização das Nações Unidas (ONU), instituiu o dia 21 de março como o Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial. Em um estado marcado por contrastes, a herança da cultura negra, muitas vezes invisibilizada, ressurge nas exposições culturais que quebram estigmas, desafiando o passado colonial e escrevendo uma nova narrativa sobre o que significa ser uma pessoa negra que faz cultura no Acre.
No 21 de março relembramos a trajetória de artistas e produtores culturais negros na arte acreana
Por Ana Paula Melo e Natália Lindoso
A Organização das Nações Unidas (ONU), instituiu o dia 21 de março como o Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial. Em um estado marcado por contrastes, a herança da cultura negra, muitas vezes invisibilizada, ressurge nas exposições culturais que quebram estigmas, desafiando o passado colonial e escrevendo uma nova narrativa sobre o que significa ser uma pessoa negra que faz cultura no Acre.
O Brasil é um país negro. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 57% da população brasileira se autodeclara preta ou parda. Essa maioria, no entanto, ainda enfrenta dificuldades para ocupar espaços e ter reconhecimento em diferentes áreas, inclusive na cultura.
A cultura negra está presente na poesia, no teatro, na música e em tantas outras manifestações culturais. No Acre, artistas negros seguem resistindo e transformando a arte em ferramenta de combate ao racismo, de educação e afirmação identitária.
Um reflexo desse movimento são políticas públicas como o edital “Mestres da Cultura Popular do Estado do Acre” realizado pela Fundação Elias Mansour (FEM) de 2024, que reconhece e valoriza saberes ancestrais. Das 24 vagas distribuídas em 12 macrocategorias, duas são destinadas a mestres que atuam em rituais e práticas religiosas tradicionais, incluindo as de matrizes africanas.
A pesquisa Percepções sobre racismo no Brasil, da Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), mostra que mais da metade dos brasileiros já presenciou um ato de racismo. Ainda de acordo com a pesquisa, 60% dos brasileiros consideram o Brasil um país racista.
No Acre, artistas e fazedores de cultura negros compartilham suas experiências no mercado artístico, destacando os desafios e as conquistas ao longo de suas trajetórias. Em suas falas, eles abordam a importância de afirmar suas identidades e a luta por maior visibilidade e representatividade no cenário cultural.
Relatos
Um dos nomes atuantes dessa resistência é o ator, produtor cultural e diretor, Ivan de Castela, de 54 anos, que começou sua trajetória aos 11 anos de idade. Com décadas de experiência, ele relembra que as artes cênicas no Acre sempre tiveram um forte diálogo político.
“O movimento cultural teatral sempre esteve mais à frente dessas discussões e reunindo nos seus espetáculos e atuações termos, frases, movimentos, espetáculos inteiros que dialogassem com essa temática. Já participei de vários filmes que dizem respeito à luta anti racial”, disse.
Ivan de Castela/ Reprodução redes sociais
O ator acredita que as dificuldades sempre estiveram presentes. Para ele, existe um senso comum que artistas de teatro são “exibidos”, e que podem enfrentar qualquer coisa. Ele relembra uma situação de racismo que gerou uma discussão e enfrentamento.
“Em um momento, após uma apresentação na Expoacre, estávamos dentro de um carro que iria transportar cada artista do espetáculo para a sua casa, e uma pessoa disse: ‘não, tira o neguinho aí do carro, que aí cabe o resto’. Como se a minha presença naquele carro, por ser negro, estivesse retirando o lugar do outro branco”, relatou.
Para a poeta marginal, Natidepoesia, a pessoa negra, de modo geral, em todos os âmbitos da sociedade, sofre com a falta de acesso e compreensão. Para ela, essa foi a maior dificuldade como atuante na cultura, de ter acesso às informações, projetos, editais e financiamento que pessoas brancas que fazem arte também têm.
“O desafio mais marcante foi esse, de aprender que a minha arte também era minha fonte de renda e saber se valorizar nesse sentido. Se ver como uma artista negra. Uma pessoa negra que tem o seu valor. Então, quando eu recebi o meu primeiro cachê, quando aprovamos o nosso primeiro projeto, isso foi uma quebra de barreira muito importante para que a gente pudesse continuar fazendo. Então, acho que as dificuldades, elas existem para a cultura no modo geral, mas se era uma pessoa negra, essa dificuldade triplica, quadruplica e assim por diante”, explica.
Natidepoesia/ imagem cedida
O capoeirista e presidente da Liga Acreana de Capoeira, Mestre Caboquinho, tem mais de 30 anos de dedicação à capoeira e já viajou ao Brasil e vários países para difundir a forma acreana de desenvolver as expressões. Para ele, não houve situações no cenário cultural por ser uma pessoa negra, mas sim por trabalhar com a expressão.
“Na verdade por ser negro eu nunca passei por nenhuma situação, mas já passei por estar trabalhando com a cultura de origem afro-brasileira, que eles chama de ‘coisa de negro’, e tem muito preconceito por ser uma ação cultural criada por negros aqui no Brasil”, disse.
Mestre caboquinho/ imagem cedida
Possibilidades
O ator e produtor cultural, Ivan de Castela, enxerga avanços com leis e editais que passaram a exigir cotas para negros, como a Lei Aldir Blanc, a Lei Paulo Gustavo, e o Plano Nacional de Cultura (PNAB).
“Isso é importantíssimo, porque abre, sem dúvida alguma, a possibilidade de termos mais projetos, com pessoas pretas, com negros, nos projetos culturais. Independente do tema. O tema pode ser aberto, mas ter a presença desses artistas negros. E isso já tem ajudado demais”, destacou.
Outro nome de destaque nesse movimento é Natielly Castro, a Natidepoesia. Poeta marginal, arte-educadora, slammer, produtora cultural e grafiteira, Nati é fundadora do Slam das Minas Acre e idealizadora da oficina Poesia que Escurece, que, desde 2018, já formou mais de mil jovens no estado.
Ela utiliza o hip hop e a poesia falada como ferramentas para valorizar a identidade negra. Entre suas conquistas, destacam-se o título de campeã nacional do Slam Singulares 2023 e o reconhecimento internacional como finalista do Slam Latines.Para a artista, é essencial investir em artistas negros que já produzem e fazem acontecer.
“Poderia ser feito era um investimento mesmo nesses artistas negros que já produzem, que já fazem acontecer e que, de alguma maneira, servem como uma ponte entre essas pessoas que querem ingressar nesse meio artístico, mas não têm esse acesso e não conseguem se ver, não conseguem se ver representados. Então, eu acho que o investimento em ações, em atividades que são produzidas e executadas por pessoas negras daria mais oportunidade”, disse Natielly.
Sobre as perspectivas na carreira, o capoeirista Mestre Caboquinho destacou a importância da qualificação e da perseverança. “Primeiro, os mesmos devem se qualificar. Conquistar seu espaço com seu trabalho e conhecimento. Acredito que todos temos espaços.Basta cada um dá seu melhor,uma porta fecha mais em seguida outras abrem”, pontuou Caboquinho.
A luta por mais visibilidade e espaço para artistas negros no Acre passa pelo reconhecimento das raízes afro-brasileiras, investimento público e iniciativas que promovam o acesso à informação.