Do bolo de cupuaçu às novas criações das docerias, ingredientes da Amazônia atravessam gerações e ganham novas formas sem deixar para trás a memória de quem cresceu com esses sabores
Por Danniely Avlis e Ranelly Pinheiro
Há sabores que não precisam de apresentação. Basta a primeira mordida para trazer de volta uma lembrança: a cozinha de casa, o bolo preparado para uma visita, a sobremesa das festas ou aquele doce feito pelas mãos de alguém da família. No Acre, muitas dessas memórias têm gosto de cupuaçu, castanha, banana e outros ingredientes que fazem parte da biodiversidade amazônica e da história de quem vive na região.
Com o passar dos anos, porém, esses sabores deixaram de ocupar apenas as cozinhas de casa e passaram a aparecer também em vitrines de docerias, bolos elaborados, brownies, mousses, bombons e outras criações. A confeitaria acreana se transforma, acompanha tendências e experimenta novas apresentações, mas mantém nos ingredientes regionais uma espécie de fio que conecta passado e presente.
Para a Chef de doces e instrutora de gastronomia do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), Kelly Vicente Brito, essa relação pode ser resumida em uma frase: o doce é “uma ponte viva entre o passado e o futuro”.

A escolha dos sabores
Antes das vitrines, dos aplicativos de entrega e das receitas que viralizam nas redes sociais, os doces já faziam parte das lembranças e dos costumes das famílias. São sabores que atravessam gerações e que, mesmo quando ganham novas versões, continuam carregando histórias e referências de quem os prepara.
Para Maria Raimunda Honorato de Souza, de 54 anos, essa relação com os doces também começou de forma simples, a partir da curiosidade e da vontade de aprender. Proprietária da Doce Maria, ela conta que seu primeiro produto foi justamente um bombom de cupuaçu, feito a partir de uma receita que precisou ser adaptada.

“Meu primeiro doce que eu fiz foi um bombom de cupuaçu. Me deram uma receita errada, mas eu sempre fui muito curiosa e fui tentando adaptar. Eu orava a Deus e pedia para o Senhor me capacitar. Fui tentando, adaptando a receita e, para a glória de Deus, deu certo”, conta.
Outro caso é o de Elizardo Lima, da Mimus Doceria AC. Quando pensa em um doce que representa os sabores do Acre, ele também recorre à combinação de cupuaçu e chocolate.
“A maioria das pessoas que comem falam: meu Deus, parece aqueles bolos da infância.”
A combinação, segundo ele, remete especialmente aos bolos de cupuaçu preparados antigamente. Mais do que estar presente em diferentes receitas, o ingrediente aparece como um elo entre maneiras distintas de fazer confeitaria: pode virar bombom, bolo ou ganhar novas combinações, mas continua reconhecível para quem conhece seu sabor.
Da cozinha de casa para a vitrine
A transformação da confeitaria também acompanha a própria história de empreendedores que encontraram nos doces uma forma de recomeçar.
A Mimus Doceria AC surgiu durante a pandemia, período em que os eventos da principal atividade profissional de Elizardo foram interrompidos. Sem os trabalhos, veio a necessidade de encontrar uma nova fonte de renda. A solução apareceu de maneira quase improvisada: doces feitos em casa e vendidos por meio da rede de contatos que ele já possuía.
“No primeiro dia a gente fazia aquelas barcas de chocolate. No primeiro dia, como eu tinha muita gente, já tinha 30 encomendas”, conta.
O que começou como uma alternativa para pagar as contas cresceu. Na Páscoa seguinte, o negócio chegou a faturar cerca de R$12 mil, valor que ajudou na abertura de uma loja. A doceria continuou crescendo e, atualmente, segundo Elizardo, reúne cerca de 15 funcionários, além dos profissionais responsáveis pelas entregas.

A trajetória mostra também como a confeitaria contemporânea está ligada à rapidez com que novas tendências surgem. Para Elizardo, que atualmente mora em Goiânia, novidades costumam ganhar força primeiro nas redes e no mercado de grandes centros e depois chegam a outros lugares.
Essa dinâmica cria um desafio para quem quer unir inovação e identidade regional: acompanhar o que está em alta sem transformar o doce acreano em apenas mais uma tendência.
O que faz um doce ser acreano?
A resposta não está necessariamente em uma receita específica. Para Elizardo, o caminho passa pela escolha dos ingredientes.
“É alguma sobremesa mais com banana, mas com castanha, […] um pouco de açaí”, explica, ao citar elementos que, quando incorporados às receitas, ajudam a aproximar a sobremesa de uma identidade acreana.
Entre as opções, ele destaca ainda os doces que utilizam banana, como bolos e outras sobremesas.
Kelly, por sua vez, aponta o bolo de castanha como o doce que escolheria para apresentar o Acre a alguém que nunca visitou o estado. A escolha evidencia a importância da castanha-do-brasil para além da produção extrativista: quando transformada em ingrediente de confeitaria, ela também se torna uma maneira de apresentar parte da cultura amazônica por meio do paladar.

A diferença entre os estados da Amazônia também aparece nessa relação com os ingredientes. Na avaliação da chef, enquanto o Pará possui forte associação de seus doces com o açaí e o Amazonas com o tucumã, no Acre ganham destaque preparações artesanais ligadas ao cupuaçu e à castanha.
Quando a floresta chega à sobremesa
Cupuaçu, castanha, buriti, graviola e outros ingredientes da biodiversidade amazônica podem assumir diferentes formas dentro da confeitaria. Viram geleias, cremes, bombons, recheios e coberturas. A receita pode mudar, mas o ingrediente mantém uma conexão com o território de onde veio.
Essa utilização também contribui para valorizar produtos regionais e fortalecer uma identidade gastronômica própria. Em vez de apenas reproduzir receitas que poderiam estar em qualquer lugar do país, a confeitaria regional encontra nos ingredientes amazônicos uma possibilidade de contar uma história.
Mas transformar um ingrediente regional em doce também exige técnica. Kelly conta que o mousse de cupuaçu foi um dos preparos que mais exigiram aprendizado por causa da acidez da fruta.
“Por ser muito ácido, demorei a acertar o ponto, o sabor correto”.
A dificuldade revela que preservar um ingrediente não significa necessariamente mantê-lo na mesma receita. É possível experimentar, adaptar e criar novas possibilidades, desde que o sabor original continue reconhecível.
A tradição não precisa ficar parada no tempo
A reinvenção talvez seja justamente uma das formas de manter uma tradição viva. Um bolo de cupuaçu pode ganhar uma nova apresentação. A castanha pode aparecer combinada ao chocolate. A banana pode deixar de ser apenas acompanhamento e ocupar o centro de uma sobremesa. Ingredientes conhecidos podem ser utilizados em receitas que acompanham tendências atuais da confeitaria.
Na Mimus, por exemplo, o brownie é apontado por Elizardo como um dos produtos de destaque da doceria. Já o “Choconinho” aparece como o bolo mais vendido entre os produtos citados por ele. Ainda que nem todos os produtos tenham origem regional, existe a possibilidade de incorporar elementos amazônicos às receitas e, assim, aproximar a confeitaria contemporânea da identidade local.
O próprio Elizardo reconhece que esse é um caminho que ainda pretende explorar mais. Representar o Acre por meio da confeitaria, para ele, também passa pela criação de produtos que carreguem essa identidade.
História em forma de ingrediente
Um doce regional não começa quando chega na vitrine. Antes disso, existe uma escolha cuidadosa dos ingredientes, o modo de preparo e a preocupação em preservar a qualidade do que será entregue ao cliente. Na produção artesanal, cada etapa interfere no sabor e, para quem trabalha há anos com esses produtos, escolher uma boa matéria-prima também é uma forma de valorizar o próprio doce.
Na Doce Maria, essa atenção acontece desde a escolha do chocolate até o preparo dos produtos. Para Maria Raimunda, trabalhar com ingredientes de qualidade é parte essencial do processo.

“Eu procuro comprar sempre o melhor produto, o melhor chocolate. Tudo que eu vou comprar, eu procuro comprar o melhor, porque eu gosto de comer bem, de comer coisa boa. E o que a gente gosta de comer, a gente não vai passar para o cliente da gente coisa ruim”, explica.
Não se trata apenas de uma questão de sabor, a escolha dos ingredientes também revela uma preocupação com a experiência de quem consome. O ingrediente deixa de ser apenas parte da receita e passa a contar uma história sobre o modo de fazer. Entre o produto escolhido, o preparo e a preferência dos clientes, cada doce tem um pouco de quem produz.
Um Acre que também se prova
Em um estado marcado pela presença da floresta e pela diversidade de produtos regionais, levar a Amazônia para a confeitaria é também uma forma de apresentar o Acre para quem está de fora.
Para quem chega pela primeira vez, um bolo de castanha ou uma sobremesa de cupuaçu pode ser apenas uma experiência gastronômica. Para quem nasceu ou cresceu aqui, o sabor pode representar muito mais: uma lembrança, uma família, uma época da vida.
Talvez seja por isso que os doces acreanos não precisem escolher entre tradição e inovação. Eles podem ser os dois. Porque reinventar uma receita não significa esquecer de onde ela veio. Às vezes, é justamente uma maneira de fazer com que ela continue existindo.
E, entre uma colherada e outra, a história do Acre também pode continuar sendo contada não apenas em livros, fotografias ou relatos, mas pelo sabor dos doces.





