Onde termina a ciclovia?

Ciclistas enfrentam dificuldades e riscos nos trajetos

Por Diogo José e Vitória Messias

A bicicleta atravessou gerações em Rio Branco e voltou a ganhar espaço nas ruas. Para quem pedala, porém, o caminho ainda é marcado por buracos, obstáculos, falta de continuidade e uma pergunta que o próprio poder público ainda não consegue responder: afinal, quantos quilômetros de ciclovias existem e quantos estão realmente em condições de uso?

Quem pedala por Rio Branco conhece a sensação de encontrar uma ciclovia no caminho e, alguns minutos depois, precisar sair dela. Às vezes, o trecho simplesmente acaba. Em outras, aparecem buracos, rachaduras ou desníveis. Também há carros e motocicletas estacionados onde deveriam passar bicicletas. Ainda assim, elas continuam circulando.

Vão para o trabalho, para a escola, para a academia, para o mercado. Aparecem nos parques, nas competições e nas ruas dos bairros. Para alguns, é uma escolha. Para outros, o meio de transporte que cabe no bolso.

A bicicleta não desapareceu de Rio Branco. Pelo contrário. Mais de um século depois de chegar à capital, ela continua encontrando espaço em uma cidade cada vez mais ocupada por carros e motocicletas.

O problema é que, enquanto as pessoas continuam pedalando, a estrutura destinada a elas parece não acompanhar o mesmo ritmo.

Para alguns, não é opção. É transporte

Elson Silva usa a bicicleta todos os dias. Para ele, a escolha também passa pelo bolso. “Eu prefiro a bicicleta porque é mais fácil para mim. Não gasto com passagem nem com combustível e consigo chegar aos lugares que preciso. O ruim mesmo é quando o trânsito está muito movimentado ou quando chove”.

A conta é simples: não é preciso abastecer, pagar passagem ou procurar estacionamento.  Mas existe outra conta. Quem pedala precisa enfrentar o calor, a chuva e, principalmente, o trânsito.

Leandro Chaves começou a utilizar a bicicleta para trabalhar em 2007. Desde então, incorporou o veículo a vários momentos da rotina. Vai à academia, faz compras, visita amigos e pratica atividade física sobre duas rodas.

Para ele, Rio Branco tem uma característica positiva: há muitos trechos destinados às bicicletas. O problema aparece quando esses trechos deixam de existir. “É importante reconhecer que Rio Branco possui uma malha cicloviária muito grande, a ponto de ser bastante provável passar por pelo menos uma ciclovia durante qualquer trajeto relativamente longo. Mas nem sempre a ciclovia está presente em todo o percurso”.

Quando o caminho termina, começa outra disputa. “Às vezes, o melhor a fazer nesses trechos é descer da bike e virar pedestre”. Não é apenas a falta de continuidade que incomoda quem pedala. Segundo Leandro, existem problemas de conservação em diferentes pontos da cidade. “Se por um lado Rio Branco tem muita ciclovia, por outro há um problema de qualidade desses trechos, por falta de manutenção frequente”.

Buracos, rachaduras, erosões e desníveis aparecem no trajeto. Em alguns locais, o próprio espaço reservado às bicicletas é ocupado por carros e motocicletas. O ciclista precisa desviar. “Você vai ter que desviar desse carro ou da moto, o que pode até colocar em risco a nossa segurança”.

No interior, a bicicleta ainda é bem presente na rotina e a relação com as duas rodas pode ser ainda mais intensa. Em cidades menores, onde as distâncias são mais curtas e muitos serviços ficam próximos das áreas de moradia, a bicicleta continua sendo uma maneira básica de circular.

Em Feijó, Rosa do Carmo, autônoma, usa a bicicleta para resolver tarefas do dia a dia. “Eu uso muito para ir de um lugar para outro. Aqui é mais tranquilo, o pessoal usa mais bicicleta que outra coisa, quase não tem muito carro, as coisas são mais perto e a bicicleta ajuda bastante. Às vezes é para ir ao mercado, visitar alguém ou resolver alguma coisa. Já faz parte da nossa rotina”.

A bicicleta aparece nas ruas, nos caminhos de barro, nas áreas próximas às casas e nos trajetos para escola, trabalho e comércio. Na capital, porém, esse caminho ficou mais disputado.

O esporte também colocou mais bicicletas nas ruas

Para muita gente, a bicicleta é lazer, exercício e esporte. No Parque do Ipê, em Rio Branco, elas aparecem entre caminhadas e corridas no fim da tarde. O local também recebe iniciativas de aluguel de bicicletas para quem quer curtir a atividade.

Rafael Lima, proprietário de uma empresa de aluguel de bicicletas, percebeu esse interesse. “Tem muita gente que chega aqui sem ter bicicleta e quer experimentar. Às vezes começa como um passeio e, depois, a pessoa acaba pegando gosto e passa a pedalar com mais frequência”.

O passeio pode virar hábito. E o hábito pode virar esporte. Em 2025, Rio Branco recebeu a Copa Norte e Nordeste de Ciclismo, que reuniu mais de 400 atletas de diferentes estados. Em 2026, uma seletiva estadual para a Copa Norte e Nordeste de Ciclismo de Estrada reuniu 49 atletas.

Para Rita Costa, ciclista amadora, pedalar também muda a maneira como a cidade é percebida. “Quando a gente está de bicicleta, começa a perceber a cidade de um jeito diferente. É exercício e também é uma forma de sair da rotina. Mas ainda falta mais segurança e estrutura para quem escolhe pedalar”.

Apesar disso, existe uma grande diferença entre escolher pedalar e depender da bicicleta. Para quem está treinando, um buraco pode significar um desvio. Para quem está indo trabalhar, pode significar um risco.

Afinal, quantas ciclovias Rio Branco tem?

É quando se olha para os números oficiais que a história fica mais complicada. Uma pessoa ligada à Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (RBTrans) informou (de forma anônima, por receio de represálias) à reportagem do A Catraia que Rio Branco possui atualmente “em torno de 64 quilômetros, entre ciclovia e ciclofaixa”. Mas esse não é o único número apresentado pelo poder público.

Em fevereiro de 2026, a própria administração municipal divulgou, em seus veículos oficiais, 74,5 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas, considerando informações consolidadas até dezembro de 2025. São 10,5 quilômetros de diferença.

A reportagem questionou a RBTrans sobre o motivo da diferença e pediu informações que permitissem identificar quais trechos deixaram de ser contabilizados e qual número representa atualmente a rede existente. Os dados solicitados não foram apresentados.

E existe ainda outro número. Um diagnóstico técnico do município aponta 178,3 quilômetros de espaços destinados exclusivamente a bicicletas e outros meios de transporte não motorizados.

Os documentos podem considerar tipos diferentes de estruturas ou utilizar critérios diferentes, e isso também mostra que há um problema.Para quem busca entender como está a estrutura para bicicletas em Rio Branco, não existe uma resposta simples. A diferença entre os números – entre 64 e 178 quilômetros – poderia ser explicada se houvesse uma informação a mais: quais desses trechos estão funcionando bem? 

A RBTrans informou que ainda está fazendo um levantamento para descobrir quais partes estão em boas condições, quais apresentam problemas no pavimento e quais precisam de sinalização ou recuperação. 

Apesar disso, os documentos divulgados pela RBTrans também mostram que houve obras públicas destinadas à área. O último Relatório Anual de Gestão registra 11.860 metros (menos de 12 quilômetros) de intervenções na estrutura para bicicletas em 2024.

Entre obstáculos 

Quando o caminho apresenta obstáculos, a pergunta deixa de ser apenas quantos quilômetros existem. Passa a ser: esses quilômetros estão realmente cumprindo sua função? Acidentes ajudam a mostrar que circular de bicicleta em Rio Branco envolve riscos que não podem ser ignorados. 

  • Em 8 de outubro de 2024, uma criança morreu depois de cair da bicicleta na AC-40, em frente ao Parque Chico Mendes. Segundo o relato divulgado na época, ela atingiu um pneu colocado junto à ciclovia. Após a queda, foi atropelada por uma carreta.
  • Em 14 de julho de 2025, um ciclista de 17 anos foi atingido por um caminhão-caçamba na rotatória entre os bairros Tancredo Neves e Alto Alegre. Ele ficou ferido. 

Uma história antiga

A bicicleta que existe hoje levou décadas para chegar ao formato conhecido. A criação do alemão Karl Drais, em 1817, era um veículo de duas rodas que ainda não tinha pedais. Para fazê-la andar, era preciso empurrar os pés contra o chão. Depois vieram os pedais, as correntes, os pneus e novos modelos. E ela passou a fazer parte do cotidiano das ruas.

No Acre, registros históricos mostram que as bicicletas já estavam presentes nas primeiras décadas do século XX. Em 1914, o Grêmio Sportivo promoveu corridas de bicicleta na capital, com provas de até dois quilômetros. As ruas ainda não eram pavimentadas e os deslocamentos aconteciam principalmente a pé, em veículos puxados por animais ou sobre duas rodas. 

Rio Branco era outra cidade. As ruas ainda não eram pavimentadas e os deslocamentos aconteciam principalmente a pé, em veículos puxados por animais ou sobre duas rodas. Os primeiros automóveis começaram a aparecer. Com o tempo, carros, motos e ônibus ganharam cada vez mais espaço. A bicicleta, não era prioridade.

Em 2007, uma reportagem da Agência de Notícias do Acre estimava mais de 55 mil bicicletas circulando diariamente por Rio Branco. Trabalhadores e estudantes estavam entre os usuários, além de pessoas que utilizavam o veículo para lazer e esporte. Quase 20 anos depois, a bicicleta continua presente. Só que agora em uma cidade maior e com um trânsito muito mais movimentado.

A história da bicicleta é feita de adaptações. Ela nasceu sem pedais, ganhou novas peças, atravessou cidades, virou transporte, lazer e esporte. No Acre, está com o trabalhador que economiza a passagem, com quem vai ao mercado, com a criança que aprende a pedalar, com quem treina no Parque do Ipê, com o atleta que percorre quilômetros pelas estradas e com quem simplesmente quer chegar a algum lugar. 

A bicicleta não parou de circular, mas Rio Branco ainda precisa decidir se vai acompanhá-la. Hoje, os números oficiais sobre a estrutura disponível são inconsistentes e o órgão responsável pelo trânsito ainda analisa se os trechos estão em boas condições.

Enquanto isso, quem pedala continua fazendo sua parte. Empurra o pedal, desvia do buraco, passa pelo carro estacionado, sai da ciclovia quando ela termina, mas segue. Porque, no fim, a bicicleta sempre encontra uma maneira de continuar. A pergunta é se a cidade vai garantir mais atenção e cuidado para os ciclistas.

Redação

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