Das bandeiradas nas ruas aos compartilhamentos nas redes sociais, por ideais ou por dinheiro, o cabo eleitoral continua sendo peça importante na militância para os candidatos
Por Matheus Miranda
No passado, a política se fazia quase que ao redor da mesa. Entre um churrasco, uma conversa, uma bebida e quase sempre em troca daquele singelo favor, os eleitores se aproximavam dos seus candidatos, enquanto os cabos eleitorais cumpriam a tarefa de reunir eleitorado e dar corpo às manifestações partidárias. Os currais eleitorais tornaram-se parte do imaginário político acreano ao lado da famosa balsa de Manacapuru do advogado e jornalista Aloísio Macedo.
Era uma política de encontros e de relações pessoais, mais acalorada. O cabo eleitoral já era um conhecido, um vizinho, o amigo que ocupava um lugar estratégico. Não bastava ao candidato ter nome, discurso ou dinheiro para ser eleito: era preciso gente que enchesse e conhecesse a cidade, soubesse onde encontrar os eleitores e tivesse disposição para transformar uma candidatura em um corpo controlável. O cabo era, e continua sendo, uma espécie de extensão inegociável do candidato fora dos palanques.
O tempo passou, a propaganda eleitoral ganhou novas regras e um algoritmo peculiar que misteriosamente define o que será entregue ou não; a tecnologia mudou a maneira de fazer campanha. Os antigos santinhos dividem espaço com vídeos de até 30 segundos, as conversas de rua disputam atenção com os grupos de WhatsApp e os bandeiraços surgem a partir da militância digital, muitas das vezes. Mas, apesar de toda a modernização, a presença física continua sendo a maior prova do eleitorado. Afinal, por trás de uma publicação que viraliza ou de uma caminhada que toma as ruas, ainda existe alguém encarregado de mobilizar pessoas.
No Acre, onde a política também se alimenta de histórias e contos, apelidos e personagens que sobrevivem à passagem dos anos, os cabos eleitorais seguem compondo o cenário das eleições. Alguns trabalham por acreditarem em ideiais partidários; outros, enxergam no balanço de bandeiras uma oportunidade de complementar a renda do mês. É a diferença entre os que vestem a camisa do candidato com euforia e fervor e os que cumprem a jornada contando as horas para o fim da escala 6×1.
Em comum, todos ajudam a dar forma àquilo que, visto de longe, parece ser apenas uma multidão agitando bandeiras ao som de batidas genéricas de um estilo musical que fora das eleições tentam a todo custo criminalizar.
E é justamente aí que reside a curiosidade dessa figura: o cabo eleitoral costuma aparecer muito durante a campanha e desaparecer quase por completo quando as urnas são fechadas. Por alguns meses, torna-se parte indispensável da paisagem política; depois, volta à rotina, enquanto os eleitos assumem seus mandatos e suas promessas desaparecem, na maior parte dos casos.
A cada quatro anos, portanto, eles reaparecem “do nada”, como diz o senso comum. Mas nunca estiveram exatamente ausentes. Nas terras onde comumente se diz não gostar de política, eles permanecem à espera de uma nova eleição e de uma nova bandeira. A campanha volta e com ela as profissões temporárias das ruas.
No Acre, pelo menos, a história dos cabos eleitorais mostra que certos personagens podem até mudar de roupa, de lado e de discurso, mas dificilmente deixam de fazer parte do grandioso espetáculo eleitoral.






