Do carro do pai aos grandes murais: 26 anos de grafite

Aos 39 anos, Matias Artes construiu uma trajetória com emoção, reflexão e técnica, levando seu trabalho a diferentes estados brasileiros e países

Beatriz Ohana e Rosely Cabral

Antes dos grandes murais, dos eventos e das viagens para outros estados e países, havia um menino que gostava de desenhar. Edeuto Matias de Souza Regino, conhecido como Matias Artes, começou a demonstrar interesse pelo desenho ainda na infância, copiando figurinhas de chiclete e reproduzindo aquilo que chamava sua atenção.

Foi uma professora, ainda no período em que vivia em Brasília, quem percebeu que aquele gosto poderia ser mais do que uma brincadeira. Ela chamou a atenção da família para a habilidade do menino e, principalmente de sua mãe, que passou a incentivá-lo e investir diretamente no desenvolvimento daquele talento.

Anos depois, já no Acre, Matias encontrou no desenho e no grafite uma possibilidade de profissão e passou a estudar por conta própria. É assim que define grande parte de sua formação: autodidata, construída entre a prática, a observação e a busca constante por aperfeiçoamento.

Arte na lataria 

Uma das primeiras experiências que misturou desenho e ousadia aconteceu ainda na infância, em uma superfície pouco convencional: a lateral do carro do pai. A reação inicial não foi positiva. Depois, porém, veio um novo pedido: que ele pintasse também o outro lado do veículo.

Anos mais tarde, já no Acre, outra pintura em um carro ajudaria a abrir espaço para seu trabalho.

Matias chegou ao estado em 2000, quando, segundo conta, havia poucas oportunidades para quem trabalhava profissionalmente com desenho e grafite. Foi nesse período que conheceu Eri, então proprietário de uma loja de videogames.

Eri pediu que Matias pintasse seu Gol. O artista ainda não tinha equipamentos nem tintas para realizar o trabalho. O próprio cliente comprou os materiais necessários. O carro foi pintado dos dois lados e passou a circular pela cidade.

“Era uma novidade no estado do Acre. Foi quando abriu literalmente grandes portas e grandes oportunidades para mim”, conta.

A partir dali, o que começou na infância passou a ocupar cada vez mais espaço na vida profissional do artista. Em 26 anos de atuação, Matias realizou trabalhos em diferentes estados brasileiros e também passou por países como Bolívia, Peru, Equador, Chile, Portugal, Espanha e França.

Algumas viagens aconteceram a convite para encontros de grafite. Em outras situações, os trabalhos surgiram durante viagens pessoais, quando novas oportunidades apareceram.

Grafiteiro 

Hoje, o grafite é sua principal vertente de estudo e produção. As letras comerciais, os tradicionais letreiros feitos por pintores letristas, também fazem parte de seu trabalho, mas em menor escala.

Quando solicitado, Matias realiza esse tipo de serviço, mas prefere concentrar sua produção em desenhos, personagens, ilustrações e grandes composições. Muros, fachadas de lojas, eventos e inaugurações de estabelecimentos estão entre os trabalhos mais frequentes.

A produção também alcançou empresas e instituições. Entre os trabalhos citados pelo artista no Acre estão projetos para Libi, Fricarnes, SESI, SENAI, Governo do Estado e Prefeitura de Rio Branco, além de marcas como Monster e Hamburgueria Jerônimo e projetos em locais como a Garagem 68, em Balneário Camboriú.

Pintura realizada por Matias em um arco de entrada do município de Cruzeiro do Sul em 2021. Foto: Reprodução Instagram Matias

Trabalhos marcantes

Entre tantos trabalhos, alguns ultrapassaram a dimensão comercial e se transformaram em experiências pessoais marcantes. Um deles foi realizado no Pronto-Socorro de Rio Branco durante a pandemia de Covid-19.

Processo da pintura no Pronto Socorro. Foto: Reprodução/Instagram 

O mural foi criado como homenagem aos profissionais da saúde que trabalhavam na linha de frente. A parede tinha aproximadamente 30 metros de altura e entre 10 e 15 metros de largura.

Para realizar a pintura, Matias contou com dois assistentes e precisou lidar com a falta de equipamentos adequados para uma estrutura daquela dimensão.

Mural produzido por Matias no Pronto-Socorro de Rio Branco durante a pandemia de Covid-19, em homenagem aos profissionais da saúde. Foto: Reprodução/Instagram 

Mas o que permaneceu forte na memória não foi apenas o tamanho do mural. Durante os dias de trabalho, a equipe costumava tomar café da manhã próxima à pintura e conversar com um homem que acompanhava a produção. Algum tempo depois, ele morreu em decorrência da Covid-19.

A convivência fez com que o trabalho ganhasse outro significado. A experiência reforçou uma ideia que já fazia parte da forma como Matias enxerga sua produção: uma pintura não deve apenas preencher uma parede.

“Eu não faço, não apresento qualquer coisa somente para ficar bonito aos olhos, mas que tenha propósito, que tenha sentimento, que tenha reflexão.”

Essa preocupação também aparece em outro trabalho, feito como homenagem a um soldado do Corpo de Bombeiros que morreu em combate.

Durante a produção, Matias teve contato com familiares e colegas do militar. A reação das pessoas diante da pintura se tornou um dos momentos mais marcantes de sua carreira.

Mural produzido por Matias em homenagem a um soldado do Corpo de Bombeiros morto em combate. Foto: Reprodução/Instagram 

“Os familiares olhando e contemplando a arte e, ao mesmo tempo, valorizando e eternizando o soldado que veio a óbito em combate”, relata.

Fora das encomendas, o artista também mantém uma produção autoral. Entre os elementos que aparecem em suas obras estão os pássaros, presentes em sua produção desde a infância.

Em uma dessas pinturas, as aves aparecem com correntes presas aos pés e uma gaiola ao fundo. Algumas das correntes estão rompidas.

A imagem representa o que Matias chama de “falsa liberdade”: situações em que as pessoas acreditam estar livres, mas continuam presas a relações, trabalhos, questões sociais ou sistemas de dependência.

Uma das fachadas em que desenvolveu essa proposta já foi apagada. A ideia, no entanto, permanece. O artista pretende reproduzir a obra novamente, dessa vez a partir de outra perspectiva.

A variedade de trabalhos desenvolvida por Matias também se aproxima de elementos presentes na tipografia vernacular urbana, tema que envolve fachadas, anúncios, placas, cartazes e outras formas de comunicação produzidas fora dos padrões formais do design.

A liberdade de composição, a variação das formas das letras, o uso de sombras, contornos e contrastes fazem parte de uma linguagem construída muitas vezes pela própria experiência de quem pinta nas ruas.

No caso de Matias, essa experiência continua em construção. Mesmo depois de concluir uma pintura, ele costuma procurar aquilo que poderia ser melhorado.

Técnica nas tintas

Nas pinturas, explora diferentes planos, perspectivas, sombras, luz e composição, construindo imagens que vão além da simples aplicação de tinta sobre uma superfície.

Uma das pinturas comerciais realizadas por Matias em um estabelecimento. Foto: Reprodução/Instagram 

A diferença entre o grafite e a pintura de letras também aparece na técnica utilizada. Enquanto o letrista costuma trabalhar com pincéis e rolinhos, instrumentos que mantêm contato direto com a parede e permitem maior definição do traço, o grafiteiro utiliza principalmente spray e pistola aerográfica.

Nesse processo, a tinta é lançada à distância, criando um efeito de pulverização que permite diferentes possibilidades visuais, mas também exige controle técnico. A distância em relação à parede interfere diretamente no resultado: aproximar demais pode deixar o traço mais fino, enquanto se afastar pode tornar ele mais grosso.

No trabalho de Matias, os principais materiais utilizados atualmente são spray e pistola aerográfica, com o uso de tinta automotiva. Pincéis e rolinhos também fazem parte da produção, mas não são seus instrumentos principais.

Mesmo com a preferência pelo grafite, as letras continuam presentes quando o trabalho exige. Para Matias, essa experiência também faz parte de uma construção que acontece com o tempo.

A assinatura que coloca nas pinturas foi sendo desenvolvida ao longo dos anos. A própria tipografia da assinatura surgiu com a maturidade e a experiência adquirida na profissão.

Processos de trabalho

Por trás de cada pintura comercial, porém, Matias procura manter a dimensão artística do trabalho. Para ele, mesmo quando existe um contrato com uma empresa, a obra não precisa ser apenas uma peça publicitária.

“Eu considero meu trabalho 100% artístico. Por mais que um cliente comercial me contrate, eu sempre vou colocar propósito no meu trabalho.”

A compreensão desse propósito começa pela relação com o cliente começa pela compreensão desse propósito. Antes de produzir, o artista procura entender o funcionamento da empresa, o objetivo do projeto e a forma como aquela pintura será utilizada.

Pode ser uma fachada, uma produção para redes sociais, uma ação publicitária ou uma composição pensada especificamente para determinado espaço.

Depois da conversa inicial, ele prepara três opções de layout para apresentar ao cliente. Com a aprovação, apresenta o orçamento, que considera os materiais e a execução. Dependendo do tamanho e da complexidade, uma pintura pode levar de uma semana a 15 dias para ser concluída.

Em 26 anos de profissão, Matias afirma nunca ter recusado um trabalho por falta de interesse. Quando não consegue assumir uma produção por causa de viagens ou outros compromissos, procura negociar outra data.

“Para mim sempre tem alguma coisa a mais para fazer”

A frase resume uma característica que acompanha sua trajetória desde os primeiros desenhos. Para ele, o talento descoberto na infância foi apenas o começo. O restante veio com estudo, prática, erros, experimentações e anos de trabalho.

Em 26 anos, o desenho que começou no carro do pai ganhou muros, fachadas, telas e diferentes países. O grafite se tornou profissão, mas Matias procura não deixar que o caráter comercial apague aquilo que, para ele, dá sentido à pintura: a possibilidade de comunicar alguma coisa.

Seja em uma fachada de loja, em uma produção para uma empresa, em um mural de homenagem ou em uma obra autoral, o objetivo continua sendo provocar alguma reação em quem passa.

“Se as pessoas olharem para o trabalho e se sentirem representadas e fizerem uma reflexão sobre aquilo que veem, para mim já atingiu o objetivo do meu trabalho.”

Redação

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