Interdições e erosões às margens do Rio Acre revelam os desafios de preservar um patrimônio cultural na capital acreana
Por Rosely Cabral e Beatriz Ohana
Inaugurado em 15 de junho de 1929 sob a gestão do governador Hugo Carneiro, o Novo Mercado Velho representa um marco histórico ao provar a viabilidade da alvenaria sobre o solo argiloso às margens do Rio Acre. No entanto, quase um século depois, o primeiro prédio de tijolos do estado enfrenta uma crise que ameaça não apenas sua estrutura, mas a própria memória da Amazônia urbana.
As severas erosões e desbarrancamentos na região agravados pelas recorrentes enchentes resultaram na interdição de trechos do calçadão e da Passarela Joaquim Macedo. Alguns comerciantes locais sentem de perto o isolamento econômico e se preocupam com o cenário de apagamento cultural diante das dificuldades do poder público. “O mercado parece que tá morto’’, diz a comerciante do local, Aldione Lessa. Ela destaca a falta de manutenção do prédio – com goteiras e pintura desgastada – como prejuízos econômicos e culturais. Afirma ainda que a obra de contenção assusta, pois já entrou novamente em erosão.
Diante da grave situação, como forma de serem ouvidos, os comerciantes da construção tombada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia iniciaram um abaixo assinado na busca por serem atendidos pelo Governo do Estado.

Com o isolamento provocado pelas interdições decorrentes das erosões, os permissionários enfrentam uma severa crise financeira, com queda expressiva no faturamento e dificuldades para arcar com os custos operacionais básicos.
Isso afeta diretamente a sustentabilidade dos micro negócios familiares, gerando o risco de fechamento definitivo de pontos comerciais históricos e a ausência em um dos principais polos culturais de Rio Branco. O comércio local concentra a venda de produtos tradicionais da identidade acreana, como ervas medicinais, artesanato e a culinária regional, a exemplo da Baixaria.
Interdição e vigilância constante
Caminhar pelas proximidades do Mercado Velho hoje é testemunhar as rachaduras, fendas e desníveis que se espalham em toda a extensão do calçadão. A gravidade de uma instabilidade geológica parece ignorada pelas autoridades. Cada nova interdição imposta pela Defesa Civil isola ainda mais o complexo, criando barreiras físicas que impedem o fluxo de pedestres e prejudicam a economia e o turismo na capital.
Sem um plano emergencial apresentado para a contenção das margens, a ameaça ao desbarrancamento avança a passos largos, deixando a comunidade em um estado de vigília constante, sob o medo real de que o próximo grande desabamento atinja a estrutura secular do próprio Mercado.

A geóloga da Secretaria de Estado de Obras Públicas (Seop) Patrícia Maia, formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), explica que “os desbarrancamentos e movimentos de massa frequentes na região resultam da erosão fluvial natural e do escoamento das chuvas.” Segundo ela, esse processo é agravado pelo solo argilo-arenoso, pelo ciclo anual de cheias e secas dos rios, e pela remoção da vegetação nativa das margens e pela ocupação de encostas, que são naturalmente instáveis pelos seres humanos, muitas vezes em áreas de risco.
“Essas áreas são consideradas de risco porque apresentam características naturais que favorecem a ocorrência de deslizamentos, erosões e desmoronamentos, especialmente durante períodos de chuvas intensas ou variações no nível dos rios”. A ocupação humana sem planejamento adequado, as chamadas “invasões”, podem aumentar a instabilidade do terreno, colocando em risco moradias, infra estruturas e a segurança da população, explica geóloga.






