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Travessias

Alê além da música: o legado de um espaço de contracultura em Rio Branco

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Por Fernanda Maia e Gabriel Vitorino

Sinônimo de liberdade, o rock se tornou uma forma de expressão e manifestação para aqueles que não se encaixam nos movimentos dominantes do mainstream e nos estilos musicais como sertanejo, pagode, e samba que prevalecem nas festas e marcam o cenário cultural de Rio Branco. Nesse contexto surge a jornada musical de Alessandro Ferreira, um músico, advogado e idealista que dedicou parte de sua vida a criar um espaço onde a música e a arte pudessem fluir livremente, destacando-se como um exemplo de resistência cultural, e essa história vocês vão conhecer agora!

Alessandro Ferreira é um homem que possui muitas paixões, em especial o amor que compartilha pela mãe, mas, além disso, a paixão pela música, que também ecoa em sua vida desde cedo como uma melodia. Desde a infância, quando ouvia o rádio da avó, ele apreciava bandas como Pink Floyd, Creedence Clearwater Revival e as músicas brasileiras. Na adolescência, a arte também sempre o interessou, e foi a partir de festas da mãe e discos que recebia de presente que a música foi entrando em seu cotidiano e fazendo parte de sua vida.

“A música entrou na minha vida de várias formas, ela entrou na minha vida pelo rádio da minha avó, na casa dela, quando era criança, pelas festas que os amigos da minha mãe e do meu pai faziam aqui, pelos discos que a minha mãe me deu de presente e pelos artistas que ela me apresentou. A música também entrou na minha vida pelos amigos e pelos programas de TV que eu assistia, era a música e a arte que sempre me interessou.”

O rock, em particular, se tornou uma parte de sua identidade e o levou a formar bandas ainda na adolescência. Na época em que a internet e professores de música eram realidades distantes, Alessandro aprendeu a tocar guitarra de ouvido, com a ajuda de amigos e familiares, e foi ali, no início dos anos 90, que começou a realizar ensaios com amigos e adentrar no universo cultural da música, conhecendo e tendo como suas referências o Punk e o Rock.

Alessandro Ferreira. Foto: Fernanda Maia

“No momento estava acontecendo no mundo a New Wave, mas antes disso já tinha acontecido o pós-punk, antes disso havia acontecido o punk, então, nessa troca de ideias, a gente foi conhecendo essas coisas, fui conhecendo o Heavy Metal, até que veio Nirvana naquela transição do final dos anos 90, período que parece que deu uma explodida no mercado e foi tanta energia que todo mundo ficou sem saber o que fazer”

Entre leis e solos

Sua trajetória com a carreira musical nem sempre foi fácil, Alessandro pensava muito em uma forma de conseguir conciliar a paixão pela música com uma carreira estável. Além de cobranças que seus pais, e ele mesmo, faziam para as coisas darem certo, as dificuldades da vida muitas vezes fizeram com que ele desistisse da música por certos períodos de sua vida, mas no final sempre retornava a ela, por encontrar ali o seu porto seguro, assim como encontrava em sua mãe.

“Passei um bom tempo tendo muitos conflitos, larguei várias vezes de tocar e de querer fazer alguma coisa relacionada à música, porque por um lado tinha essas cobranças, por outro, dificuldades da vida, mas até que chegou um momento que percebi que não dava para eu largar isso, eu percebi que era a única coisa que me mantinha vivo. Essa era a única coisa que em determinados momentos tinha significado para mim, sempre foi uma luz, isso e minha mãe, porque sempre achei que tenho que fazer valer os esforços dela, não posso desperdiçar tudo o que ela fez por mim.”

Alê, além de músico, se formou em direito, em Curitiba, se tornou advogado e trabalha atualmente em uma bolsa de servidor público. Ele abraça o seu trabalho com gratidão por ser uma das coisas que proporcionou a compra de seus instrumentos e deu estabilidade para que conseguisse realizar seus sonhos na carreira musical, e abrir consequentemente o seu primeiro bar e espaço cultural em Rio Branco, o Loft.

Em 2008, no auge de seus 28 anos, Alê decidiu criar e abrir um espaço em que pudesse unir dois de seus grandes amores: o rock e a convivência com outras pessoas, e aquilo que se iniciou com festas dentro de sua casa se tornou o Loft, um bar que se tornou um marco cultural em Rio Branco, por ser um lugar alternativo àqueles que já existiam na cidade. O Loft não era apenas um bar, era um local para shows, onde artistas independentes e bandas autorais podiam se apresentar livremente, e para pessoas que, como ele, não se identificavam com a cultura dominante e buscavam um lugar para se expressar e se divertir.

Foto: Fernanda Maia

“Estava há 10 anos trabalhando numa instituição pública e não acontecia nada na cidade, eu achava que ia morrer aqui e não ia me divertir, não tinha o que fazer, eu não me identificava com samba, não me identificava com pagode, nunca me identifiquei com essa cultura, não é que eu não acho legal, mas eu nunca me identifiquei, então não era uma coisa que me divertia, sempre gostei de rock desde cedo, até que lá no final de 2008, comecei a fazer umas festas e passei seis meses fazendo festa para no final eu abrir um bar na minha casa, que chamava Loft. Foi onde comecei, convidei uns amigos para fazer a banda da casa, a gente fazia essa banda da casa e começou a convidar várias outras bandas.”

Power chords e boas lembranças

Durante quase uma década, o Loft foi palco de festas marcantes, que contavam histórias, e realizava shows de bandas locais e até de artistas de fora do estado. Foi um espaço que marcou positivamente gerações de pessoas por muito tempo e deixou um legado de resistência cultural em uma cidade onde o rock na época não tinha um espaço para ser ouvido pela maior parte da massa popular. 

“As gerações passam, mas toda cidade legal tem um bar de rock que fica. Aqui em Rio Branco nunca teve, até esse momento, um Loft, aconteceram casos, mas nunca sobreviveram muitos anos. O Loft sobreviveu por uns 9, 10 anos.”

Devido a problemas com vizinhos, o Loft fechou suas portas anos depois, em um momento em que Alessandro sentiu a necessidade de se reinventar, mas por muitos anos foi sendo lembrado até hoje como um espaço onde a música e a arte conviviam de forma autêntica e onde pessoas podiam se expressar e viver suas histórias da melhor forma. Foi um período na vida de Alê marcado por muita alegria e gratidão, no qual ele pôde realizar seus sonhos de ter um espaço cultural em que podia se encontrar com as músicas de que gostava e proporcionar às pessoas uma experiência de livre expressão.

“Fiz especial do Jorge Ben Jor, especial do Tim Maia, os Discordantes estiveram aqui, gravaram o vídeo no Loft, Los Porongas tocaram aqui várias vezes, vieram alguns artistas de fora que às vezes tocaram aqui, enfim, era um lugar que tinha tantas pessoas, que até hoje, 17 anos depois, faço festas e as pessoas ainda lembram e querem que eu volte a fazer isso. Foi um uma casa que marcou uma época e marcou as pessoas e começou a criar um ambiente em que o rock podia se manifestar com um espaço legal.”

O rock vem para incomodar!

Apesar de ter encerrado os trabalhos no Loft, a música continuou em sua vida e ele focou em seu próprio processo criativo. Alê compôs e gravou suas próprias músicas. O período da pandemia de COVID-19 e outras dificuldades que teve ao longo do caminho serviram como um período de redescoberta. Além disso, aprendeu a tocar teclado e reacendeu sua paixão pela criação musical.

Nos dias atuais, inspirado por referências culturais, Alessandro se dedica a criar e produzir suas próprias composições e continua fazendo da música um dos fios condutores de sua vida. No entanto, em novembro de 2024, o Loft reabriu as suas portas mais uma vez e encontrou novamente gerações que se encaixam em uma cultura alternativa. Para ele, o espaço sempre foi um lugar mágico, onde as pessoas podiam se encontrar e ser felizes da forma que bem quisessem, sem se enquadrar nos padrões de uma cultura dominante.

“Esse não está em lugar nenhum e, ao mesmo tempo, está indo para algum lugar, é não ser nada, é poder ser tudo também, porque você não sabe o que vai acontecer, você está se aventurando, você está com o estado de espírito de aberto, sem saber o que vai encontrar, mas tá confiante, tá feliz, tá animado, o sol tá brilhando, o vento está na cara, e eu sinto que esse estado de espírito é o estado de espírito que descreve a energia do Loft. É um portal, um lugar muito diferente, sempre permite essas coisas. Para mim, aqui é mágico.”

Foto: Fernanda Maia

Para ele, o rock e lugares como esse são espaços de contestação e resistência que fogem do comum e unem pessoas.

“O rock não é para estar na moda, o rock é do contra, é para contestar, é para falar sobre o que está errado, sobre o que incomoda. Se dá certo em alguma hora, isso faz tanto sucesso que as pessoas gostam, mas não é para ele ser sucesso. O rock não é mainstream, o rock é contracultura, o rock é incômodo.”

Alessandro Ferreira não é só um músico ou advogado, é alguém que é defensor da cultura alternativa, que muitas vezes se torna marginalizada, e um exemplo de como o rock pode transformar vidas e comunidades. Sua trajetória foi marcada pela luta que tem em criar espaços onde pessoas e bandas, que não tinham outros lugares possam se expressar, especialmente em uma cidade como Rio Branco, onde existe uma cena dominante no cenário cultural. Além disso, outro de seus maiores desejos é construir um trabalho que de alguma forma toque o coração de alguém e deixe uma marca.

“O que eu quero é concluir um trabalho que eu considere artisticamente consistente, poeticamente interessante, e que toque o coração de alguém, que diga alguma coisa para uma pessoa.”

Redação

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Passarela Raquel e Daiane mantém viva, 21 anos depois, memória de mãe e filha levadas por enxurrada em Rio Branco

Estrutura liga bairros da Baixada da Sobral e transforma ponto de risco em espaço de duras lembranças e travessia cotidiana

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Por Danniely Avlis e Isabelle Magalhães

O Rio Acre sobe outra vez. As águas avançam, silenciosas e insistentes, repetindo um roteiro que os moradores da Baixada da Sobral conhecem de cór. No bairro Ayrton Senna, onde a cidade começa a ceder espaço ao rio, cada cheia não traz apenas lama e perdas materiais, trazem lembranças. Algumas delas não secam nunca.

Todos os dias, dezenas de pessoas atravessam a passarela que liga os bairros Ayrton Senna e Aeroporto Velho. Para muitos, é só um atalho, um caminho mais curto entre dois pontos da cidade. Para Dona Idalécia Martins, conhecida por todos do bairro como Dona Loura, é um território de memória. Cada passo sobre o concreto é também um passo sobre a ausência da filha Raquel e da neta Daiane, levadas pela força da água em uma enchente de 2004.

A estrutura hoje se chama Passarela Raquel e Daiane. Mas antes do concreto, antes do nome, havia apenas madeira frágil, correnteza forte e um risco que fazia parte da rotina de quem vive às margens do Rio Acre.

Um bairro que aprendeu a conviver com o medo

O Ayrton Senna é um bairro de várzea. Quando o rio sobe, ele é um dos primeiros a sentir. A água invade quintais, casas, histórias. Todos os anos, o mesmo alerta. Todos os anos, a mesma insegurança. E foi nesse cenário que a tragédia aconteceu.

Em 2004, em mais um período de enxurradas em Rio Branco, a ligação entre os bairros era feita por uma passagem improvisada por uma madeira estreita, escorregadia, acima da cintura, como lembra Dona Loura. Ainda assim, mães, crianças e trabalhadores atravessavam todos os dias. Não por coragem, mas por necessidade.

Raquel tinha 24 anos. Trabalhava em casa de família, e sonhava em ser professora. Gostava de crianças e cuidava das do bairro como se fossem suas. Naquela tarde chuvosa, saiu de casa para levar a filha, Daiane, de 9 anos, à escola. O diretor havia avisado: era dia de prova, não podia faltar.

A chuva não deu trégua, o rio subiu rápido, a ponte improvisada virou armadilha.Como toda mãe, Raquel priorizou a segurança da filha, amarrando uma fralda que unia o seu braço ao da menina. Quando Raquel tentou atravessar com a filha, a madeira cedeu e a correnteza tomou as duas. Quem estava perto viu, gritou, correu. Um homem ainda tentou entrar na água, mas o rio estava forte demais, carregado de balseiros e paus. O desespero tomou conta do local.

“Dizem que toda vez que ela emergia, levantava a filha pra cima. Se fosse sozinha, talvez tivesse escapado. Mas ela não soltou a menina”, lembra Dona Loura, com a voz que carrega duas décadas de dor.

Doze dias de busca, três meses de espera

O Corpo de Bombeiros procurou por 12 dias. A família não desistiu. Por três meses, moradores cavaram as margens do igarapé e do rio, dia e noite. O corpo de Daiane foi encontrado após sete dias, intacto, como se o tempo tivesse parado ali. O de Raquel, nunca foi encontrado.

“Minha filha nunca foi encontrada. O rio secou, o igarapé secou, a gente cavou até dar no barro duro. Muita gente ajudou, mas nunca achamos”, diz a mãe.

O Rio Acre seguiu seu curso. A cidade também. Mas naquela casa, em frente à passarela, o tempo parou em 2004.

Dona Idalécia na nova passarela. Foto: Danniely Avlis

Uma nova estrutura, a mesma memória

Mais de 20 anos depois da tragédia, a prefeitura construiu uma nova passarela no local. Desta vez, em concreto. A estrutura recebeu o nome de Raquel e Daiane, como forma de manter viva a lembrança das duas. Para Dona Idalécia, o espaço vai além da função prática. É uma travessia que une passado e presente, dor e resistência.

Raquel, segundo a mãe, era uma jovem muito ligada à família e à filha.

“Ela dizia que nunca iria se separar de mim, só pela morte. Todo dia vinha cedo, limpava a casa, fazia café, cuidava de tudo. A gente andava sempre juntas”, relembra dona Idalécia.

Ao caminhar pela passarela, Dona Loura se emociona. Em conversa com a equipe do portal A Catraia, ela afirmou que o maior desejo é que outras mães e filhas possam construir relações próximas e afetuosas.

 “Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas”, disse Idalécia.

Caminhando pela passarela, em meio à conversa, ela se emociona ao olhar para o igarapé e, embora tente conter o choro, acaba se rendendo às lágrimas.

Hoje, a passarela Raquel e Daiane não é apenas uma ligação entre bairros. É um ponto de passagem onde a cidade segue em movimento, enquanto a memória de duas vidas permanece presente no cotidiano e no coração de quem vive a dura realidade da invisibilidade do poder público.

Marca da água atingida na nova passarela. Foto: Danniely Avlis, Isabelle Magalhães

Tragédia marcou quem acompanhou de perto

O jornalista Adailson Oliveira, da TV Gazeta, era o único repórter na redação quando recebeu a informação. Já havia encerrado o expediente. Mesmo assim, foi.

“O primeiro impacto não foi a emoção, foi o movimento das pessoas tentando salvar. A emoção veio depois, quando cheguei à casa da mãe. Ela estava no chão, gritando, desmaiava, acordava. Ainda acreditava que poderia encontrar a filha com vida”, relembra.

Chovia. Pessoas choravam. A água continuava caindo do céu como se reforçasse o luto. Para ele, aquela foi uma das coberturas mais marcantes de quase 30 anos de carreira.

“Era uma tragédia anunciada. Não foi só a chuva. Foi a omissão. E a omissão também mata”, afirma.

Segundo ele, moradores reclamavam da falta de uma passagem segura. Diziam que só lembravam da periferia quando a tragédia acontecia. E mesmo assim, nada mudava.

“O que marca é isso, a revolta de que a gente vai passar a vida inteira reclamando da falta de estrutura e ela nunca vai vir. E quando vier, vai ser feita de forma de paliativo, que não resolve a vida das famílias”.

Além das pessoas que viveram e relataram essa tragédia, há aquelas que permanecem ao lado de Dona Loura até hoje. Moradores do local, que convivem com ela diariamente, contam que têm o maior cuidado e carinho, oferecendo apoio sempre que ela se lembra da filha.

Gilsa, uma das moradoras que serviu de ponte para que nossa equipe chegasse até Dona Loura, relata que, embora não seja da família nem a conheça há muito tempo, cuida dela com afeto, como se fosse alguém de sua própria família.

No bairro, todos demonstram carinho e acolhimento por Dona Loura. A comunidade se comove, cuida dela e, junto com ela, carrega a dor da perda de alguém importante.

A única fotografia que Dona Idacélia conseguiu manter de Raquel. Foto: Danniely Avlis

Mais que uma travessia, um aviso

Hoje, quando Dona Loura atravessa a passarela, olha para o rio e sente tudo de novo. A dor, a saudade, a revolta. E também a esperança de que nenhuma outra mãe precise passar pelo que ela passou.

“Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas. Não é brigando que se resolve”, diz, emocionada.

A Passarela Raquel e Daiane não é apenas um caminho entre dois bairros. É um lembrete diário de que as enchentes não matam sozinhas. A negligência também empurra. A demora também afoga. A ausência do poder público também leva vidas.

“A Raquel dizia que gostava muito daqui, mas a única coisa que dava uma sensação ruim nela era a ponte de madeira da época”.

Segundo a mãe, Raquel também relatava que quando a ponte fosse feita ela permaneceria no bairro por toda a vida. “Assim que ela morreu, com oito dias começaram a fazer a ponte”, relembra.

Em tempos de novas enchentes, quando o rio Acre e os igarapés voltam a ameaçar casas e histórias, a passarela permanece ali, firme, mas ainda sem placa, sem iluminação adequada, cheia de incertezas e mesmo depois de duas décadas, continua sendo tocada pela água quando o nível sobe.

Ela carrega nomes. Carrega sonhos interrompidos. Carrega a história de um bairro que todos os anos aprende, da forma mais dura, que viver às margens do rio é também viver à margem das prioridades.

E enquanto o Rio Acre continua a subir, Dona Loura segue atravessando. Porque a água levou sua filha e sua neta. Mas não levou a memória, nem o amor, nem a luta para que essa história nunca seja esquecida nem invisibilizada.

Equipe do portal A Catraia com Dona Idalécia e sua amiga Gilsa. Foto: Luiz Guilherme

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Rotas

Com bolsa integral garantida, acreano aprovado em Princeton se prepara para deixar o Brasil em setembro

Dedicação aos estudos marca a trajetória do ex-aluno do Colégio de Aplicação que inicia graduação no exterior aos 17 anos

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Por Rian Pablo

Aos 17 anos, o acreano Diego Heitor da Silva Monteiro alcançou um feito histórico: foi aprovado na Princeton University (Universidade de Princeton), uma das instituições mais prestigiadas do mundo, localizada nos Estados Unidos. Ex-aluno do Colégio de Aplicação (CAp) da Universidade Federal do Acre (Ufac), onde concluiu o terceiro ano do ensino médio, Diego se prepara agora para iniciar uma nova fase da vida acadêmica fora do Brasil, com interesse na área de Psicologia.

A decisão de estudar fora do país começou cedo na adolescência, por volta dos 12 ou 13 anos, Diego sonhava em cursar parte de sua formação no exterior. A primeira tentativa foi por meio do programa United World Colleges (UWC), oportunidade que não se concretizou e trouxe frustração naquele momento. No entanto, a notícia ruim não o fez desistir, pelo contrário: serviu como combustível para continuar tentando.

A construção da aprovação

Durante o ensino médio, Diego acumulou experiências internacionais que fortaleceram seu percurso. Aos 16, foi selecionado para o programa Jovens Embaixadores, conquistando uma bolsa completa para os Estados Unidos. Também participou do Global Youth Sustainability Academy, na China, onde teve contato com diferentes cidades e culturas do país. Foi justamente durante essa experiência no país asiático que a ideia de estudar em Princeton se tornou uma certeza.

O processo de candidatura foi intenso e exigiu disciplina. Conciliando aulas em tempo integral, provas, projetos escolares e atividades extracurriculares, Diego precisou se preparar para o ACT (American College Testing), exame equivalente ao Exame Nacional do Ensino Medio (Enem) brasileiro.

“Era uma rotina muito cansativa e desgastante”, relembra.

Segundo ele, o processo seletivo de universidades como Princeton vai muito além das notas. São avaliados o histórico escolar, redações autobiográficas em inglês, premiações, experiências pessoais, domínio do idioma e desempenho em testes padronizados. Mesmo assim, as notas continuam sendo um critério rigoroso. Diego foi aprovado com média 9,7, acima do padrão exigido para estudantes brasileiros que ingressam em instituições norte-americanas de elite.

Durante o ensino médio no Acre, Diego conciliou uma rotina intensa de estudos e preparação para processos seletivos internacionais. Foto: reprodução.

Entre os diferenciais que acredita terem pesado a seu favor, está a aprovação no programa Tech Education Student Support (TESS), um dos mais concorridos programas de verão dos Estados Unidos, que aceita apenas cerca de 3% dos inscritos. Além disso, Diego destaca a força de sua história pessoal. Nos textos enviados à universidade, fez questão de ressaltar o orgulho de ser acreano, as dificuldades enfrentadas, a escassez de recursos e o fato de ter aprendido inglês de forma autodidata, por meio da internet, já que não tinha condições de pagar um curso.

A resposta da universidade chegou no dia 11 de dezembro, após Diego ter enviado sua candidatura em período antecipado, no dia 1º de novembro. Exausto após meses de preparação, ele não alimentava grandes expectativas. Ao abrir o e-mail de Princeton veio a surpresa. A aprovação, considerada inédita para um estudante acreano, provocou uma reação de incredulidade e emoção. O momento, registrado em vídeo, marcou a concretização de esforço e incertezas.

Além da vaga, Diego recebeu uma bolsa integral, que cobre todos os custos da graduação da alimentação aos materiais acadêmicos em um valor estimado em 97 mil dólares por ano (480 mil convertidos em reais). Para ele, a confirmação veio como um alívio e, ao mesmo tempo, como a prova de que todo o caminho percorrido havia valido a pena.

Diego Heitor da Silva Monteiro, de 17 anos, aprovado na Universidade de Princeton. Foto: arquivo pessoal

Expectativa antes da partida

Mesmo com a alegria, o sentimento está sendo assimilado aos poucos. A mudança para outro país, prevista para setembro, traz ansiedade. Muito ligado à família e aos amigos, Diego reconhece o desafio de passar quatro anos nos Estados Unidos, mas acredita que as experiências anteriores o prepararam para esse momento.

Para o futuro, ele espera explorar diferentes áreas do conhecimento, confirmar se a Psicologia será mesmo o caminho escolhido e, principalmente, conhecer pessoas de diversas partes do mundo. “Sempre gostei de estudar e aprender um pouco de tudo”, afirma.

A mensagem que Diego deixa para outros jovens que sonham em trilhar o mesmo caminho é clara: arriscar-se. “Nunca perder uma oportunidade de tentar. Tudo o que vivi desde novo foi necessário para chegar até aqui. No final, você não perde nada só ganha e soma na sua vida”.

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Quando o rio dita o ritmo da economia

Com a cheia, a economia apresenta alto rendimento, por outro lado, a seca reduz o fluxo, limita oportunidades e afeta quem vive do rio

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Por José Henrique e Miguel Feitosa

Para muitos empreendedores, o Rio Acre é mais do que paisagem: é fonte de renda, trabalho e sobrevivência. No entanto, entre dois extremos a cheia e a seca o comportamento do rio impõe desafios constantes a quem depende do comércio às suas margens. Em Rio Branco, o nível das águas influencia diretamente o fluxo de pessoas, o funcionamento de negócios e a estabilidade financeira de famílias inteiras.

O mesmo rio que, em determinados períodos, garante sustento, em outros expõe desigualdades. Durante a cheia, o aumento do nível das águas intensifica a movimentação no Calçadão da Gameleira, ponto turístico às margens do Rio Acre, atraindo visitantes e fortalecendo o comércio local. Em contrapartida, esse mesmo avanço do rio provoca alagamentos em áreas vulneráveis da cidade, obrigando famílias a deixarem suas casas e buscarem abrigo temporário no Parque de Exposições Wildy Viana das Neves, Loteamento Santa Helena.

Segundo Júlia Alves, 55 anos, vendedora de bananas salgadas e doces credenciada pela Prefeitura de Rio Branco, a cheia do Rio Acre representa tanto oportunidade quanto desafio. Ela explica que o aumento do nível das águas atrai mais pessoas ao Calçadão da Gameleira, o que impulsiona as vendas e garante seu sustento.

Júlia Alves, vendedora local, vê na cheia do Rio Acre sustento e desafio. Foto: Miguel Feitosa

“Quando o nível do rio aumenta, a gente consegue vender mais. Mas também fico triste, porque esse mesmo rio, tão bonito, acaba destruindo ao mesmo tempo em que sustenta”, relata.

Embora não esteja presente diariamente no Calçadão, Júlia atua de forma estratégica, aproveitando os períodos de maior movimento. Já nos momentos de seca ou menor fluxo de visitantes, ela se desloca para outros pontos da cidade, adaptando-se às variações impostas pelo comportamento do rio.

O trabalho da vendedora evidencia como a economia local é diretamente influenciada pela geografia da cidade. O Calçadão da Gameleira funciona como ponto de encontro cultural e comercial, onde moradores, turistas e empreendedores compartilham o mesmo espaço, conectados pelo Rio Acre.

Bar do Zé do Branco: cinco décadas à beira do rio

Fundado há cerca de 50 anos, o Bar do Zé do Branco, localizado no bairro da Base, carrega uma história profundamente ligada ao Rio Acre. O empreendimento surgiu na década de 1970, período em que o rio ainda funcionava como importante via de transporte e circulação.

O fundador, José Antônio Vera, hoje com 69 anos, conhecido como Zé do Branco, relembra que o bar nasceu junto à empresa familiar Irmãos Lameira, voltada ao transporte.

Zé do Branco, fundador do bar que há 50 anos acompanha o ritmo do Acre. Foto: José Henrique

“Na época, a gente tinha uma empresa de transporte, com cobrador, motorista e fiscal. Aí resolvemos lançar um bar na frente da empresa, e deu certo”, conta.

Ao longo das décadas, Zé acompanhou as transformações do território e do próprio rio, que deixou de ser apenas estrada para se tornar também símbolo turístico. Sua trajetória representa uma geração que aprendeu a trabalhar respeitando o ritmo das águas, adaptando-se às cheias e às secas.

Para ele, embora a cheia contribua significativamente para o aumento das vendas, impulsionada pela atratividade do Rio Acre cheio e por suas belezas naturais, o período de alerta da cota de transbordo gera insegurança. O empreendedor vive em estado de atenção, sem saber até que ponto as águas serão um benefício, já que, a qualquer momento, o nível do rio pode subir e causar a perda de mercadorias.

“A gente ganha mais movimento quando o rio tá cheio, mas também fica com medo. Qualquer subida de repente pode levar tudo”, relata.

Restaurante Flutuante Malveira: empreender sobre as águas

Assim como o Bar do Zé do Branco, o Restaurante Flutuante Malveira tem sua história diretamente vinculada ao Rio Acre. Instalado às margens do rio, o empreendimento nasceu de uma relação familiar com a água, marcada pelo trabalho e pela memória.

De acordo com Carla Malveira, de 19 anos, filha do proprietário, o nome do restaurante faz referência ao sobrenome da família, herdado do avô, José Malveira. Antes da construção do flutuante, a família mantinha a embarcação Comandante Malveira, utilizada no Rio Acre.

Construído como espaço de lazer familiar, o local começou a receber amigos e conhecidos, transformando-se gradualmente em empreendimento comercial. Há cerca de três anos instalado na atual localização, o restaurante vive uma rotina totalmente condicionada às variações do nível do rio.

Durante a cheia, o Rio Acre atua como fator de atração, facilitando o acesso, valorizando a paisagem e ampliando o fluxo de visitantes.  Segundo Carla Malveira, é nesse período que o restaurante registra maior movimento.

Do barco ao flutuante, a família Malveira construiu seu negócio no Rio Acre. Foto: José Henrique

“Quando o rio está cheio, o acesso fica melhor e as pessoas vêm pela paisagem e pelo clima do lugar. Já na seca é mais difícil chegar até aqui, o movimento cai bastante e isso afeta diretamente o nosso faturamento”, relata.

Seca também impõe desafios

Se a cheia impulsiona o turismo e o comércio, a seca representa o outro lado da dinâmica do Rio Acre. Com o nível do rio mais baixo, o fluxo de visitantes diminui e o acesso aos flutuantes se torna mais difícil, já que a escada de entrada aumenta conforme a água recua. Negócios que dependem da paisagem e da navegação enfrentam retração e precisam se adaptar para manter o funcionamento.

A alternância entre períodos de cheia e seca tem se tornado mais frequente, exigindo ajustes constantes de quem vive e empreende às margens do rio.

Turismo e políticas de incentivo

A movimentação gerada pelo rio reforça a importância de políticas públicas voltadas ao empreendedorismo e à economia criativa. Segundo o secretário de Estado de Empreendedorismo e Turismo, Marcelo Messias, o Rio Acre é um importante vetor econômico para a capital.

Secretário de Turismo e Empreendedorismo, Marcelo Messias, na GCF Task Force, realizada em 2025, em Rio Branco. Foto: Bruno Moraes/Sete

“No período de cheia, o Rio Acre atrai moradores e turistas para a região da Gameleira, fortalecendo o comércio local e o empreendedorismo. Restaurantes, lanchonetes, a Casa do Artesanato e outros espaços são diretamente beneficiados por essa movimentação, que alia geração de renda, cultura e lazer”, destaca.

Entre a cheia que movimenta o comércio e a seca que impõe limites, o Rio Acre segue determinando o ritmo da economia local. Para empreendedores como Júlia, Zé do Branco e a família Malveira, viver do rio é conviver diariamente com oportunidades e incertezas, em um território onde a água não apenas desenha a paisagem, mas molda modos de vida, trabalho e resistência.

Redação

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