Entre o amor e o medo: quando o controle passa a ser violência

Controle de amizades, cobranças, gritos e tentativas de impedir a saída da parceira são sinais de alerta em uma relação abusiva

Por Jamile Romano e Vanessa Souza 

“Quem é essa pessoa?”, “Onde você está?”, “Por que você não respondeu?”, “Por que você não fez o que combinou?”. Perguntas e cobranças podem fazer parte da rotina de um relacionamento. Mas, quando passam a limitar a liberdade, provocar medo ou determinar como a outra pessoa deve agir, podem revelar algo além de ciúme: uma relação marcada pelo controle e pela violência psicológica.

Diferentemente da violência física, que pode deixar marcas aparentes, a violência psicológica muitas vezes acontece de maneira silenciosa e gradual. Ela pode aparecer por meio de humilhações, ameaças, manipulação, isolamento, cobranças excessivas e tentativas de controlar as escolhas da vítima.

Para Maria, os primeiros sinais demoram a ser percebidos (seu nome foi alterado, ela prefere não ser identificada). No início, o relacionamento parecia tranquilo. Com o passar do tempo, porém, ela começou a notar comportamentos que a incomodavam. O homem com quem se relacionava não gostava que ela comentasse sobre o namoro com outras pessoas. Também reagiu mal quando ela discordava de alguma opinião, fazia uma crítica ou dizia algo que ele não queria ouvir.

Em uma das situações, os dois estavam em um restaurante quando ele disse algo que a desagradou. Depois, foram embora sem conversar para a casa dele. Ele disse que ia sair. Maria também decidiu ir embora. Foi quando ele disse que ela não iria. Ela insistiu, mas ele enfatizou que ela não sairia de casa. Com medo de uma agressão maior, ela decidiu permanecer. 

“Eu fiquei com medo de ele fazer alguma coisa comigo”, relata.

Depois da situação, o comportamento dele mudou. Ele chorou, disse que a amava e afirmou que não queria terminar. Segundo Maria, ele justificou a atitude dizendo que tinha medo de que ela fosse embora e ficasse com raiva dele. Naquele momento, porém, ela ainda não compreendia completamente a gravidade do que havia acontecido.

Outro episódio aconteceu quando os dois haviam combinado de sair. Maria desistiu porque precisava trabalhar. A resposta foi um áudio em que ele gritava, dizia que ela não tinha compromisso com as coisas e agia com falta de respeito.

As amigas de Maria começaram a questionar aquele comportamento. Foi depois de contar os episódios para pessoas próximas que ela percebeu que aquilo não devia ser considerado normal. Após o término, conseguiu olhar para as situações de outra maneira. Era violência psicológica.

Medo das reações 

Para a psicóloga Ralissa Ganum da Cunha, da Secretaria de Estado da Mulher (Semulher), um dos maiores indícios de um relacionamento abusivo é quando a pessoa passa a mudar o próprio jeito de agir para evitar brigas ou reações agressivas do parceiro.

Segundo ela, a mulher pode começar a sair menos, evitar sair sozinha e sentir necessidade de dar explicações constantes sobre onde está, com quem está e o que está fazendo. “Um sinal muito importante é quando a pessoa começa a mudar o próprio comportamento por medo da reação do parceiro”, explica.

Para Ralissa, uma pessoa que antes era extrovertida, por exemplo, pode começar a se tornar mais retraída. O alerta está justamente nessa mudança: quando a mulher passa a organizar suas escolhas não pelo que deseja fazer, mas pelo que acredita que evitará uma reação negativa do parceiro.

Casos de polícia

No cenário nacional, o Ligue 180 recebeu 155.111 denúncias de violência contra mulheres em 2025. No mesmo ano, foram registradas mais de 339 mil violações classificadas como violência psicológica, que representaram 49,9% das violações registradas pela Central. Uma mesma denúncia pode envolver mais de um tipo de violação. 

Os registros policiais ajudam a dimensionar a violência contra mulheres no estado do Acre. Em 2025, mais de 300 ocorrências foram relacionadas à violência psicológica, segundo o Relatório de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Polícia Civil. Provavelmente um número pequeno considerando as muitas situações não identificadas nem denunciadas.  

No Acre, no ano passado foram registrados 304 boletins de ocorrência, que correspondem a 321 vítimas. Em 2024, foram 317 boletins e 341 vítimas. O levantamento também contabilizou 162 boletins de ocorrência por perseguição em 2025, também conhecida como stalking, contra 155 no ano anterior.

Os números não representam todas as situações de violência vividas por mulheres, mas indicam um aumento de comportamentos relacionados à violência psicológica e à perseguição, como mostram as denúncias que chegam às autoridades.

Sem perceber

Muitas mulheres demoram a reconhecer que estão vivendo uma situação de violência psicológica,  porque ela tende a começar de forma sutil.  “É muito comum ouvirmos frases do tipo ‘eu não sofro violência doméstica, não, ele nem me bate’”, afirma Ralissa Ganun.

Segundo a psicóloga, medo, ameaças, dependência emocional, dependência financeira, vergonha e receio de perder a guarda dos filhos podem dificultar uma denúncia imediata. 

Em muitos casos, a vítima começa a perceber o problema quando consegue observar a repetição de comportamentos: as cobranças, os gritos, o isolamento, a necessidade de prestar contas e o medo das reações do parceiro.

A ausência de agressão física, portanto, não significa ausência de violência.

Controle não é amor

Compartilhar a localização, apresentar amizades ou conversar sobre a rotina pode fazer parte de um relacionamento saudável quando existe liberdade para isso. A situação muda para violência quando existe medo, obrigação ou punição diante da recusa. A diferença está na possibilidade de escolha.

A ideia de que ciúme e posse são demonstrações de amor também contribui para a naturalização desses comportamentos, alerta Ralissa Ganun. Durante muito tempo, frases como “ele tem ciúme porque ama” ajudaram a transformar vigilância e posse em supostas provas de afeto.

Vigilância digital

Os celulares e as redes sociais ampliaram as possibilidades de vigilância dentro dos relacionamentos. Curtidas, seguidores, mensagens, comentários e localização podem se transformar em motivos para cobranças constantes.

A solicitação de senhas ou acesso às conversas pode ser inicialmente apresentada como uma prova de confiança. Mas quando vira uma exigência ou obrigação indica uma relação abusiva. Se uma pessoa precisa abrir mão de sua privacidade porque teme a reação do parceiro, o comportamento merece atenção.

O papel dos amigos e familiares

A rede de apoio é fundamental para quem está vivendo uma relação abusiva. A psicóloga Ralissa Ganun orienta que familiares e amigos procurem ouvir a vítima sem julgamentos e ofereçam segurança. Segundo ela, é importante evitar pressionar a mulher a sair imediatamente do relacionamento. “Essa é uma decisão que precisa partir dela”, afirma. Segundo ela, é importante evitar pressionar a mulher a agir imediatamente. “Essa é uma decisão que precisa partir dela”, afirma.

Isso não significa ignorar a situação. Amigos e familiares podem oferecer ajuda prática, companhia e apoio para que a mulher procure os serviços de proteção quando se sentir preparada. 

No caso de Maria, foram justamente as amigas que ajudaram a questionar comportamentos que ela havia aprendido a considerar normais. E foi preciso sair da relação para compreender que situações que pareciam apenas discussões, cobranças ou demonstrações de ciúme haviam ultrapassado limites. Reconhecer esses sinais pode ser o primeiro passo para interromper um ciclo de violência.

Ciúme não é posse. Cuidado não é vigilância. E amor não deve provocar medo.

Onde procurar ajuda

Em caso de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190. Também é possível procurar o Ligue 180, canal do Ministério das Mulheres que funciona 24 horas por dia, oferece acolhimento e orientação e recebe e encaminha denúncias de violência contra mulheres. O serviço também está disponível pelo WhatsApp (61) 9610-0180. 

A orientação é procurar ajuda diante de situações de violência ou de risco, mesmo quando não houve agressão física.

Redação

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