Quando uma cuia de tacacá faz a distância parecer menor

Em São Paulo e Brasília, restaurantes de culinária acreana vão além da comida. Reúnem conterrâneos, preservam tradições e mantêm vivas as memórias de quem deixou o Acre

Por Danniely Silva e Ranelly Yasmim Pinheiro

“Eu só me dei conta do quanto amo açaí, tapioca e tacacá quando me mudei para São Paulo”. A reflexão da jornalista acreana Guadalupe Pereira resume um sentimento compartilhado por muitos migrantes, a saudade que se revela nos sabores e nas memórias do lugar de origem. Há sete anos vivendo na capital paulista para estudar e trabalhar, ela conta que sentiu o impacto da distância não apenas pela ausência da família e dos amigos, mas também pelas diferenças culturais e gastronômicas. 

Para manter viva a conexão com o Acre, Guadalupe costuma levar açaí e carne bovina congelados em suas viagens. “Me sinto mais próxima da minha família sempre que tomo açaí, então, além de comer bem, encurto a distância entre mim e quem eu amo”, afirma. 

Quem vive longe da terra natal sabe que a saudade vai muito além da ausência. A falta da família, de costumes e referências – que constroem a identidade de uma pessoa – se revela nos cheiros, nos sabores, nos sons, nas pequenas rotinas. Para muitos acreanos que migraram para outras regiões do país, transformando um novo lugar em lar, essa conexão com as origens encontra abrigo na gastronomia. 

Em São Paulo, empreendimentos como os restaurantes Tucupi do Centro e Sobrado Tucupi, em Brasília Dona Xuxu, transformam receitas tradicionais em pontes afetivas que aproximam aqueles que carregam a saudade de casa e mantêm vivas as memórias de sua terra.  

Marcada pela influência dos povos indígenas, ribeirinhos, nordestinos e dos fluxos migratórios que ajudaram a formar a região, a culinária acreana é um dos principais símbolos da identidade cultural do estado. Ingredientes como tucupi, jambu, farinha e banana compõem pratos que carregam histórias, tradições e modos de vida transmitidos entre gerações. Essas receitas preservam memórias afetivas e ajudam a manter vivas as raízes de quem está distante da Amazônia. 

Um pedaço do Acre em Brasília  

Foi justamente o desejo de manter vivas essas tradições longe de casa que motivou a acreana Xuxu a criar o restaurante Dona Xuxu, em Brasília. A idealizadora conta que sua relação com a gastronomia começou ainda no Acre, onde já atuava no ramo da alimentação saudável. Ao se mudar para a capital federal, decidiu transformar a saudade e o orgulho das próprias origens em um projeto que valorizasse a culinária acreana. 

“Ao chegar em Brasília, percebi que poucas pessoas conheciam a riqueza gastronômica do Acre e da Amazônia. Foi então que surgiu a ideia de criar o Dona Xuxu, um espaço onde eu pudesse compartilhar nossas tradições, nossa cultura e os sabores que marcaram minha história”, afirma.

Dona Xuxu nasceu para atender acreanos e curiosos da culinária nortista. Foto: arquivo pessoal

Desde o início, o projeto foi pensado para atender a dois públicos. De um lado, acreanos e nortistas que sentiam falta dos sabores da infância e das refeições em família; de outro, brasilienses interessados em conhecer uma culinária ainda pouco difundida fora da região amazônica.

O restaurante fica localizado no bairro Asa Norte em Brasília. Foto: Arquivo Pessoal 

“Desde o início, o objetivo foi criar um ambiente onde os acreanos e nortistas pudessem reencontrar os sabores da infância, da família e da sua terra. Ao mesmo tempo, queríamos apresentar ao público de Brasília uma culinária rica, autêntica e cheia de identidade”, conta. 

Segundo a empresária, o local se transformou em um ponto de encontro para acreanos residentes na capital federal, recebendo reuniões de famílias, grupos de amigos e até encontros organizados pela comunidade acreana. 

“É muito comum receber famílias, amigos e visitantes que chegam ao restaurante em busca de uma refeição, mas também de um sentimento de pertencimento”, diz. 

As memórias afetivas também aparecem nos pratos servidos pela casa. Receitas como pato no tucupi, rabada no tucupi, baixaria, quibe de arroz, charuto e tacacá costumam despertar emoções nos clientes. “O restaurante acaba sendo mais do que um lugar para comer; é um espaço de conexão com as origens”, destaca. 

Para preservar a autenticidade dos sabores, ingredientes como tucupi, jambu, farinha de Cruzeiro do Sul, castanha amazônica e cupuaçu são trazidos diretamente do Acre por meio de fornecedores parceiros. O cuidado com os insumos, explica a proprietária, é uma forma de garantir que cada prato mantenha as características que fazem da culinária acreana um importante patrimônio cultural e afetivo. 

Com gosto de casa 


A saudade também foi o ingrediente que impulsionou a trajetória da acreana Amanda Vasconcelos em São Paulo. Aos 20 anos, ela deixou o Acre para cursar Arquitetura na capital paulista, movida pelo desejo de viver novas experiências e concluir a graduação fora do estado. No entanto, os planos mudaram ao longo do caminho e a gastronomia acabou ocupando o lugar que antes pertencia aos projetos de arquitetura.

Entrar no setor, porém, não aconteceu de forma planejada. Amanda explica que o primeiro empreendimento nasceu de maneira espontânea, na varanda de casa. A ideia inicial era abrir as portas nos fins de semana para receber amigos e clientes interessados em conhecer a culinária acreana. Com o tempo, a iniciativa ganhou força e se transformou em um restaurante. 

“Não teve um dia em que eu me sentei e falei: ‘vou abrir um restaurante’. Quando eu vi, eu já tinha um restaurante”, relembra.

Em São Paulo para estudar arquitetura, Amanda virou chef. Foto: Arquivo Pessoal 

O projeto começou como Casa Tucupi e, ao longo dos anos, deu origem a novos formatos. Em 2022, nasceu o Sobrado Tucupi, com foco em drinques e petiscos. Já em 2024, após o encerramento da Casa Tucupi, foi inaugurado o Tucupi do Centro, restaurante voltado para a valorização da culinária acreana no centro da cidade.  

Apesar das diferenças de conceito, os empreendimentos compartilham o mesmo propósito, apresentar os sabores do Acre a novos públicos sem perder a conexão com as origens. 

“Desde que eu abri a primeira casa, sempre foi muito legal conhecer e reunir mais gente do Acre. Muitos clientes acreanos acabaram se conhecendo ali e hoje são amigos”, afirma. 

Para muitos acreanos que migraram para outras regiões do país, essa conexão com as origens encontra abrigo na gastronomia.  Foto: Instagram/@sobradotucupi

Ao mesmo tempo, ela destaca que o público vai muito além da comunidade acreana. Segundo a empresária, paulistanos, turistas e estrangeiros frequentam os espaços em busca de conhecer uma culinária ainda pouco explorada fora da região Norte. 

“É engraçado, porque, às vezes, um restaurante de comida típica acaba sendo frequentado só por pessoas da região. No Tucupi não. A gente tem muito gringo e muito paulistano querendo descobrir sobre a culinária acreana”, diz. 

Redação

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