Na Ufac, grupo promove diálogo entre ciência e fé cristã

Presente no Acre desde 2023, a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²) promove o diálogo e mostra que o ambiente acadêmico também pode ser um lugar para viver a espiritualidade

Por Isabelle Magalhães e Victor Santos

Conciliar o rigor do método científico com as convicções da fé cristã. É com essa proposta que o núcleo acreano da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²) tem atuado dentro da Universidade Federal do Acre (Ufac). Presente no estado desde 2023, o grupo deixa de lado o histórico debate que coloca religião e pesquisa em lados opostos para construir uma ponte entre a vida acadêmica e a espiritualidade.

Nacionalmente, a ABC² atua desde 2016 com a missão de ser uma “embaixada de sentido” entre esses dois temas. A ideia da instituição não é ditar regras ou arbitrar controvérsias, mas promover um fórum aberto, honesto e respeitoso para que vocações científicas e espirituais possam caminhar de forma integrada, cultivando o que eles chamam de “conhecimento integral”.

No Acre, a criação do núcleo partiu da própria vivência de estudantes que já realizavam encontros de oração dentro da universidade. Segundo Igor Magalhães, líder do núcleo local, a formalização ocorreu após ele entrar em contato com a associação. “Sabíamos que nossa fé fazia parte dos nossos estudos. Foi então que mandei um e-mail à ABC² solicitando a abertura da associação aqui no Acre”, relembra.

Igor Magalhães, líder e representante estadual da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²), fala durante o evento ‘Diálogos entre Fé e Ciência’ na Ufac. Foto: cedida.

Para o grupo, o suposto conflito entre ciência e fé é resolvido com o reconhecimento do papel de cada uma. Na visão de Igor, o ambiente universitário se torna, assim, um espaço valioso para investigar e se aprofundar em grandes questionamentos, permitindo que os participantes vivam a fé para além da igreja.
As atividades promovidas pela ABC² incluem grupos temáticos online e encontros realizados na Ufac e em âmbito nacional.

A participação não é restrita a estudantes de áreas específicas, reunindo também pesquisadores, profissionais e pessoas interessadas em discutir a relação entre ciência e fé cristã. O último evento realizado pelo núcleo acreano ocorreu em setembro de 2024. A programação contou com discussões relacionadas ao cinema e às conexões e diálogos entre fé, ciência e comunicação, reunindo participantes para refletir sobre como esses campos podem se relacionar.

Entre os palestrantes esteve o jornalista Lucas Thadeu, que apresentou a palestra “Análise de Discurso: a Instrumentalização da Fé Cristã no Discurso Político de Jair Messias Bolsonaro”, tema desenvolvido anteriormente em sua monografia.

Segundo o jornalista, a escolha do assunto surgiu do interesse em compreender como elementos da fé cristã e da linguagem religiosa foram utilizados em discursos políticos. A partir da análise do discurso, ele buscou apresentar ao público como determinadas construções discursivas podem produzir sentidos, criar identificações e mobilizar crenças e valores.

“A principal reflexão que eu quis deixar foi justamente sobre a importância de desenvolver um olhar crítico para os discursos que consumimos, especialmente no campo político, quando eles recorrem a elementos que são muito importantes para a nossa identidade e para as nossas crenças”, afirmou.

“Acredito que eventos como o ABC² precisam ser mais conhecidos justamente porque oferecem um espaço importante de diálogo entre diferentes áreas do conhecimento”, afirmou Lucas Thadeu. Foto: cedida

Thadeu também considera possível conciliar a vivência da fé com critérios científicos na formação acadêmica. Para ele, o diálogo entre os dois campos deve ocorrer sem transformar a ciência em instrumento de defesa da fé e sem tratar a fé como incompatível com a produção científica.

Entre os estudantes que participaram das atividades está Eleonor Rodrigues, estudante de Jornalismo. Ela conheceu a ABC² por meio de uma amiga e de Igor Magalhães, que apresentaram a proposta do grupo.

Para Eleonor, a aproximação entre ciência e fé cristã representa uma forma de ampliar a compreensão sobre a criação e sobre diferentes áreas do conhecimento. “Pra mim aproximar a ciência da fé cristã é conhecer mais da criação de Deus. Por muito tempo a ciência e a Igreja foram vistas como coisas opostas, mas a verdade é justamente o contrário”, afirmou.

Segundo a estudante, a participação nas atividades também contribuiu para ampliar sua forma de pensar sobre determinados temas, além de possibilitar o aprofundamento da fé.

As discussões são abertas ao público externo interessado. Foto: cedida.

Uma das discussões que mais a marcou foi uma palestra sobre fé cristã e meio ambiente. Eleonor conta que o debate chamou sua atenção pela relação com seu interesse pela natureza, pelo meio ambiente e pelos animais. “Me marcou principalmente porque sempre me importei muito com a natureza, meio ambiente e animais”, relatou.

A estudante também afirma que a experiência a levou a refletir sobre a interpretação e a aplicação dos ensinamentos bíblicos em diferentes áreas da vida, incluindo a ciência.

Visando incentivar o pensamento científico, a associação promove debates e atividades constantes, que incluem grupos temáticos online e eventos semestrais e anuais, realizados tanto na Ufac quanto em âmbito nacional. Ainda segundo o líder do grupo acreano, o espaço é democrático e não se restringe apenas a estudantes das áreas exatas ou biológicas, mas à cientistas, curiosos, pesquisadores e a sociedade em geral são bem-vindos para participar das discussões, entrando em contato com o grupo pelo Instagram: @abc2.acre.

Redação

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