Projeto estadual oferece métodos contraceptivos de longa duração a adolescentes de 14 a 19 anos e busca reduzir a gravidez não intencional
Por Lauana Brito e Laylanne Barros
Reduzir a gravidez não intencional na adolescência e ampliar o acesso de jovens aos serviços de saúde estão entre os objetivos do projeto Adolescência Primeiro, Gravidez Depois, desenvolvido pelo Governo do Acre. Iniciada em 2024, a iniciativa oferece gratuitamente métodos contraceptivos de longa duração, como o implante subdérmico de etonogestrel, conhecido como Implanon, e o DIU hormonal de levonorgestrel, chamado de Mirena, para adolescentes de 14 a 19 anos.
De acordo com Luciana Freire, coordenadora estadual de Saúde do Adolescente e Jovem, o projeto começou priorizando cinco municípios do interior de difícil acesso: Jordão, Santa Rosa do Purus, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter e Tarauacá. Atualmente, o programa está presente em 20 municípios do estado, com exceção de Brasileia e Epitaciolândia, que ainda não possuem implante subdérmico fornecido pelo Estado.
“O contraceptivo funciona também como uma porta de entrada para outros cuidados dentro da Atenção Primária. Não adianta a gente só colocar esses métodos e não dar a devida atenção para essas adolescentes. A proposta não se limita à distribuição de métodos contraceptivos. A iniciativa também busca incluir vacinação, ações educativas e acompanhamento médico e de enfermagem e orientações sobre saúde sexual e reprodutiva”, explica a coordenadora.
Atendimento e escolha do método
Para ter acesso ao projeto, a adolescente deve procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) próxima de sua residência. O atendimento começa com uma consulta individualizada, realizada por médico ou enfermeiro, em que são avaliados aspectos da história clínica reprodutiva e são feitas as orientações sobre os métodos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). Também é avaliado se ela possui vida sexual ativa e se deseja utilizar algum dos métodos oferecidos.
A médica Suellen Martins, da Secretaria Municipal de Saúde e capacitada para a inserção de DIU e Implanon, explica que a rede pública também disponibiliza outras opções de contraceptivos, como comprimidos e anticoncepcionais injetáveis mensais ou trimestrais. “Os métodos de longa duração tem como principal benefício é o tempo de uso e a eficácia, já que às vezes muitas adolescentes esquecem de tomar os comprimidos quando são de uso diário”, destaca.
Nesse primeiro contato, os profissionais consideram fatores como histórico de doenças, uso de medicamentos, padrão menstrual, presença de cefaleia ou enxaqueca, possibilidade de gravidez e risco de infecções sexualmente transmissíveis. A escolha do método não é automática, é levado em conta os critérios clínicos e a preferência da adolescente.
A coordenadora do programa destaca ainda a participação da decisão sobre o próprio cuidado. “Essas adolescentes precisam ser ouvidas, compreender as opções existentes, conhecer os benefícios e possíveis efeitos adversos de cada método, e principalmente participar da decisão”, afirma Freire.
Dentro do projeto, o implante subdérmico tem sido o mais procurado, principalmente pela praticidade e por não depender da lembrança diária para manter sua eficácia. Para além disso, o programa também realiza palestras e ações educativas em escolas para apresentar as alternativas e orientar os adolescentes sobre saúde sexual e reprodutiva.
“Nem o implante nem o DIU protegem contra infecções sexualmente transmissíveis. Por isso, o uso do preservativo continua sendo recomendado mesmo para quem utiliza um método de longa duração. Uma prevenção adequada ao público, principalmente no adolescente, é uma prevenção com a utilização de dois métodos”, ressalta Freire.
O atendimento não termina com a colocação do implante ou do DIU. Após o procedimento, a adolescente deve retornar à unidade de saúde, cerca de 40 dias depois, para que a equipe avalie a adaptação ao método, possíveis efeitos adversos e novas dúvidas. Se, antes desse prazo, houver alterações no padrão menstrual, dores de cabeça, náuseas, acne ou outros efeitos, a orientação é procurar uma unidade de saúde para avaliação e acompanhamento.
Acesso e autonomia
Uma das orientações reforçadas pelo projeto é o direito de adolescentes menores de 18 anos serem atendidos nas unidades de saúde sem a presença de um responsável legal. A medida está amparada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e por uma nota técnica do Ministério da Saúde de 2022.
“A garantia de atendimento individualizado também está relacionada à proteção de adolescentes em situações de violência. O sigilo, possui exceções em casos como violência sexual e ideias suicidas”, explica a coordenadora do programa no Acre.
Apesar da ampliação do atendimento, Rio Branco ainda apresenta uma diferença em relação aos demais municípios. Na capital, após a consulta, o procedimento é agendado pela regulação e há fila de espera, que pode chegar a seis meses. Nos municípios do interior do estado, a espera é de até uma semana.
A estudante Vitória Eduarda Vieira, uma das adolescentes atendidas pela iniciativa, conheceu o projeto por meio do Instagram da Secretaria Municipal de Saúde. Interessada no implante, por não precisar tomar um medicamento diariamente, ela procurou uma UBS e recebeu o encaminhamento para participar de uma das ações.
“A equipe me explicou os possíveis efeitos de cada método e apresentou todas as opções disponíveis pelo SUS. Apesar do receio inicial, principalmente em relação às alterações menstruais e à aplicação do implante [método escolhido], o procedimento ocorreu de forma tranquila e recebi atenção dos profissionais durante todo o atendimento”, afirma Vitória Eduarda.
No primeiro mês, a adolescente conta que teve escapes menstruais, além de dores de cabeça nos dois primeiros dias após a inserção. No retorno à unidade de saúde, foi informada de que as alterações estavam dentro do esperado. “Toda minha experiência foi positiva, principalmente pelo esclarecimento de dúvidas e pelo acompanhamento recebido”.
Alcance e desafios do projeto
O Acre apresentava, no início do projeto, o maior índice de gravidez na adolescência do país. O percentual informado pelo Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) caiu de 22,24% para 19,5%, fazendo com que o estado passasse da última para a penúltima posição no indicador. Em Marechal Thaumaturgo, onde o percentual era de aproximadamente 37%, o índice chegou a 21%.
Desde o início da iniciativa, mais de 3 mil adolescentes já foram atendidas. Dados do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (Sisab), registrados em 24 de setembro de 2026, apontam 2.511 adolescentes atendidas entre janeiro e agosto de 2026.
Para ampliar a cobertura, profissionais dos 22 municípios do Acre foram capacitados para realizar o atendimento. Médicos e enfermeiros receberam formação teórica e prática para a inserção do implante subdérmico, com o objetivo de reduzir desigualdades regionais e facilitar o acesso nos municípios do interior.
“Os principais obstáculos que enfrentamos são as questões culturais e religiosas, e o receio das adolescentes de procurarem sozinhas os serviços de saúde. Além disso, o projeto também enfrenta desafios específicos em comunidades indígenas, onde algumas lideranças ainda não aceitam a oferta de métodos contraceptivos”, explica Luciana Freire.
Em Santa Rosa do Purus, segundo a coordenadora, cerca de 75% do índice de gravidez na adolescência é atribuído à população indígena. A equipe tenta manter diálogo com lideranças e órgãos de saúde para apresentar os indicadores e discutir formas de garantir que as adolescentes tenham acesso à informação e possam decidir sobre o próprio futuro.
Onde buscar atendimento em Rio Branco
Segundo a Prefeitura de Rio Branco, o primeiro atendimento pode ser realizado em qualquer Unidade Básica de Saúde do município. Para ter acesso ao programa, a adolescente deve procurar a unidade de saúde e solicitar uma consulta de planejamento familiar ou reprodutivo, que será realizada por um médico ou enfermeiro.
Durante o atendimento, serão apresentados os métodos contraceptivos disponíveis, e a adolescente poderá informar que deseja utilizar o Implanon ou o DIU Mirena. O profissional de saúde fará uma avaliação para identificar o método mais adequado e verificar os procedimentos necessários.
Após a consulta, caso haja indicação para o método escolhido, a adolescente receberá um encaminhamento para a regulação, responsável por dar continuidade à solicitação e realizar o agendamento conforme a disponibilidade. A paciente será informada quando houver uma vaga para a inserção do contraceptivo, por isso é importante manter os dados de contato atualizados.










