O fenômeno climático natural, em que as águas superficiais do Oceano Pacífico ficam com um aquecimento extremo, pode afetar o clima de todo Brasil
Por Vitória Messias e Diogo José
O fenômeno El Niño já está estabelecido no Oceano Pacífico Equatorial e deve persistir até o fim do verão austral de 2026/2027. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as condições atuais indicam fortalecimento do evento nos próximos meses, com 63% de probabilidade de que ele atinja intensidade muito forte entre novembro, dezembro e janeiro. No Acre, especialistas alertam para a possibilidade de estiagem prolongada, temperaturas elevadas, aumento das queimadas e redução dos níveis dos rios.
O super El Niño é uma versão ainda mais forte do El Niño. Quando a temperatura do mar sobe além de patamares críticos (muitas vezes superando 2,5°C acima da média), a circulação dos ventos muda drasticamente e o clima sofre fortes impactos em todo o planeta.
Dados do Inmet mostram que o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial foi confirmado na primeira semana de junho, quando o índice Niño 3.4 atingiu +0,7°C, valor que caracteriza o estabelecimento das condições de El Niño. Historicamente, o fenômeno está associado à redução das chuvas nas regiões Norte e Nordeste e ao aumento das precipitações na Região Sul, embora os impactos variem de acordo com a intensidade do evento e as características de cada região.

Como o fenômeno afeta o Acre
O El Niño resulta da interação entre o oceano e a atmosfera, explica o geógrafo Anderson Mesquita, professor da Universidade Federal Acre (Ufac). Segundo ele, o aquecimento acima da média das águas altera a circulação dos ventos e influencia diretamente o regime de chuvas, as temperaturas, a nebulosidade e a intensidade dos ventos.

“O El Niño está relacionado a uma interação de troca de energia entre o mar e a atmosfera. Quando essa água está mais aquecida que o normal, ela acaba transferindo mais energia para a atmosfera e isso influencia o fluxo climático como um todo”, afirmou.
Mesquita destacou ainda que o fenômeno já está em curso, mas que sua intensidade ainda dependerá da evolução das condições oceânicas nos próximos meses.
“Já estamos sobre a ação de maior aquecimento da água do Pacífico Sul, portanto, em situação de El Niño. No entanto, a severidade dele vai depender da evolução da temperatura da superfície do mar ao longo dos próximos meses, com pico a partir de outubro”, explicou.
De acordo com o pesquisador, estudos científicos apontam que episódios de El Niño costumam estar associados a secas mais intensas na Amazônia e no Nordeste brasileiro. Caso as projeções atuais se confirmem, o Acre poderá enfrentar uma estiagem mais prolongada, com aumento das queimadas, redução da umidade relativa do ar e piora da qualidade do ar.
Mesquita também destaca possíveis impactos no abastecimento de água. Segundo ele, a diminuição dos níveis dos rios pode dificultar a captação, exigindo planejamento por parte dos órgãos responsáveis.
“O segundo fator que preocupa muito a comunidade científica é que a gente pode ter uma crise hídrica por problemas de abastecimento. Os órgãos responsáveis pelo tratamento e distribuição de água precisam ter um plano emergencial e estar preparados para enfrentar um problema mais drástico de captação”, alertou.
Corpo de Bombeiros alerta para riscos
O Corpo de Bombeiros Militar do Acre informa que, caso o fenômeno continue se fortalecendo, o estado poderá registrar mais dias com temperaturas superiores a 35°C, além de ondas de calor mais frequentes e noites mais quentes.
Segundo o sargento Filipe Lima, o período entre agosto e novembro de 2026 apresenta potencial para ser mais quente e seco do que a média histórica.
“Se o El Niño continuar se fortalecendo como indicam os modelos atuais, o período de agosto a novembro de 2026 tem potencial para ser mais quente que a média, mais seco que a média, com maior risco de queimadas e com rios abaixo do normal em várias bacias acreanas”, afirma.
Ainda conforme o bombeiro, a vegetação mais seca favorece a propagação do fogo e o aumento da fumaça, ampliando os impactos ambientais e os riscos à saúde da população.
“Esse talvez seja o maior risco para a população: vegetação mais seca, aumento das queimadas rurais, mais incêndios florestais e piora da qualidade do ar”, ressaltou.
Recomendações à população
Entre as orientações do Corpo de Bombeiros estão a ingestão frequente de água, a redução da exposição ao sol entre 10h e 16h e a atenção especial a crianças, idosos e pessoas com doenças cardíacas ou respiratórias.
O órgão também recomenda manter portas e janelas fechadas durante períodos de fumaça intensa, evitar o uso de fogo para limpeza de terrenos ou descarte de resíduos, manter áreas próximas às residências livres de materiais inflamáveis e comunicar focos de incêndio aos órgãos competentes.
Anderson Mesquita orienta ainda que a população acompanhe informações divulgadas por órgãos oficiais e evite compartilhar conteúdos sem comprovação sobre o fenômeno.
“A melhor preparação é se informar, mas buscando sempre fontes confiáveis. É importante acompanhar os meios oficiais e não se deixar levar por notícias falsas sobre o fenômeno”, afirmou.
População demonstra preocupação
A estudante do 5º período de Psicologia da Universidade Federal do Acre (Ufac), Gabriele Barbosa, afirma que a maior parte das informações que possui sobre o Super El Niño foi navegando na internet.

Ela avalia que o estado já enfrenta desafios relacionados às mudanças climáticas e acredita que um período de calor intenso pode aumentar os gastos com energia elétrica e dificultar a rotina de estudos.
“O Acre já é muito vulnerável às mudanças climáticas e não tem muito preparo para isso. Pensando nos estudos, acho que fica muito difícil. Pode haver aumento das contas de luz de forma absurda e um clima difícil de suportar para estudar. A Ufac já não tem toda essa estrutura, imagine passando por essas dificuldades”, afirmou.
Para esse período é recomendado que a população tome os cuidados necessários e se prepare para as mudanças mais extremas com a procura de informações em órgãos confiáveis. Em casos de fadiga ou outros sintomas devido a decorrências do clima, procure um médico ou o posto de saúde mais próximo. Além disso, caso necessário denuncie queimadas ligando para o 193 (Corpo de Bombeiros).






