{"id":6966,"date":"2026-09-25T11:42:41","date_gmt":"2026-09-25T16:42:41","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=6966"},"modified":"2026-09-25T11:44:54","modified_gmt":"2026-09-25T16:44:54","slug":"rape-da-tradicao-dos-povos-originarios-ao-hype-na-cidade-de-rio-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=6966","title":{"rendered":"Rap\u00e9: da tradi\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios ao hype na cidade de Rio Branco"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong><em>Por Beatriz Ohana e Rosely Cabral<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Uma das medicinas mais antigas utilizadas pelos povos ind\u00edgenas amaz\u00f4nicos \u00e9 o rap\u00e9, que tem como base o tabaco e cinzas de algumas \u00e1rvores. Soprado nas narinas, o prop\u00f3sito \u00e9 limpar a mente, promover foco e realizar curas espirituais. O sopro \u00e9 feito com ajuda de kuripes (autoplicador) ou tipis (de uma pessoa para outra) que podem ser feitos de bambu, ossos ou madeiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Em Rio Branco, no Novo Mercado Velho, a Casa Lessa se destaca na comercializa\u00e7\u00e3o do produto. O estabelecimento mant\u00e9m parcerias comerciais diretamente com os povos Huni Kuin e Apurin\u00e3, garantindo a proced\u00eancia e fortalecendo a produ\u00e7\u00e3o dessas comunidades.No entrato, h\u00e1 uma certa diferen\u00e7a nas produ\u00e7\u00f5es de acordo com cada povo origin\u00e1rio: os Huni Kuin usam tabaco junto com outras plantas e ervas, enquanto os Apurin\u00e3 utilizam somente plantas, tendo como diferencial sua colora\u00e7\u00e3o natural esverdeada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Uma das representantes da casa de ervas, Aldione Lessa, refor\u00e7a a import\u00e2ncia de preservar as ra\u00edzes e os m\u00e9todos tradicionais de preparo, mesmo diante de pedidos espec\u00edficos e personalizados por parte dos clientes<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">\u201cEu tenho um pil\u00e3o em casa, ent\u00e3o, quando algum cliente quer um rap\u00e9 com mistura de ervas, como por exemplo, de cumaru, cravo, ou at\u00e9 mesmo canela, n\u00f3s fazemos essa mistura\u201d, explica Aldione Lessa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Embora a fabrica\u00e7\u00e3o caseira e as misturas personalizadas com especiarias ou \u00f3leos essenciais tenham se popularizado, o mercado viveu um per\u00edodo de forte expans\u00e3o comercial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">\u201cO hype do rap\u00e9 foi por volta de 2017 e 2018, vend\u00edamos muito, muito mesmo, at\u00e9 para fora.\u201d A comerciante explica que a loja continua vendendo rap\u00e9 pronto, mas tem v\u00e1rios clientes que buscam produtos para fazer suas pr\u00f3prias composi\u00e7\u00f5es. \u201cTem muita gente que compra s\u00f3 a cinza da gente, tem outras que compram s\u00f3 o tabaco\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Mesmo com a descentraliza\u00e7\u00e3o do preparo, Aldione enfatiza o compromisso de n\u00e3o transformar o produto em uma mercadoria comum, mas de honrar sua ancestralidade.&#8221;Eu nasci aqui, meu pai tamb\u00e9m, ele \u00e9 do Seringal, tem a cultura. Respeitamos muito\u201d, finaliza.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-4.png?resize=960%2C540&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6979\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-4.png?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-4.png?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-4.png?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-4.png?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-4.png?w=1600&amp;ssl=1 1600w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Rap\u00e9s dos povos Huni Kuin e Apurin\u00e3 s\u00e3o vendidos por Aldione Lessa, representante da Casa Lessa. Foto: Rosely Cabral<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Atualmente, o perfil do p\u00fablico de clientes da casa de ervas que mais consome a subst\u00e2ncia na capital acreana \u00e9 majoritariamente masculino, com faixa et\u00e1ria concentrada entre os 20 e 50 anos. No cotidiano urbano, o uso se divide entre medicinal, espiritual e recreativo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-4.png?resize=960%2C540&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6980\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-4.png?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-4.png?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-4.png?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-4.png?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-4.png?w=1600&amp;ssl=1 1600w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Local preserva as ra\u00edzes e os m\u00e9todos tradicionais de preparo. Foto: Rosely Cabral<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Uma medicina ancestral<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">No aspecto medicinal, ele \u00e9 amplamente utilizado para o tratamento de vias a\u00e9reas, como sinusite e descongestionamento nasal. No \u00e2mbito da espiritualidade, a concentra\u00e7\u00e3o com o rap\u00e9 serve para combater o &#8220;panema\u201d, quando a pessoa est\u00e1 ruim ou cansada, al\u00e9m de tratar males populares como &#8220;espinha\u00e7a ca\u00edda&#8221; e &#8220;peito aberto&#8221;. No uso corriqueiro ou recreativo, muitas vezes \u00e9 associado a momentos de bebida, em que se passa o rap\u00e9, afirma a comerciante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Denominado dume deshke (ou rume reshke) na l\u00edngua H\u00e3txa Kuin, do povo Huni Kuin, o rap\u00e9 \u00e9 utilizado de forma ancestral pelo povo ind\u00edgena como uma medicina de cura e de profunda conex\u00e3o com a natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">O professor e lideran\u00e7a ind\u00edgena Ke\u00e3 Huni Kui, no portugu\u00eas Ant\u00f4nio, explica que a subst\u00e2ncia atua como um canalizador entre a espiritualidade e o indiv\u00edduo, onde o elemento central para o tratamento de males contempor\u00e2neos, como a ansiedade e a depress\u00e3o, \u00e9 o poder da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">&#8220;O que funciona mais \u00e9 a f\u00e9 humana, o tabaco n\u00e3o tem esp\u00edrito, o que tem esp\u00edrito \u00e9 a cinza, que \u00e9 o corpo da floresta. Ali, a pessoa pensa na cura que quer fazer e faz um voto, acredita que aquela medicina vai fazer a cura. Ent\u00e3o, coloca aquela f\u00e9, usa o rap\u00e9 e ali \u00e9 curada&#8221;, explica Ke\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da dimens\u00e3o individual da f\u00e9, a utiliza\u00e7\u00e3o da medicina conecta o indiv\u00edduo diretamente \u00e0 vida e \u00e0s for\u00e7as da mata, exigindo um estado de respeito e rever\u00eancia durante os rituais. O professor ressalta que o composto sagrado \u00e9 preparado para atrair energias positivas e harmonizar as rela\u00e7\u00f5es humanas por meio da espiritualidade da floresta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">&#8220;A cinza \u00e9 o corpo da floresta, e a floresta nunca faz mal a ningu\u00e9m a n\u00e3o ser ajudar. A \u00e1rvore serve para fazer amizade, e quando coloca aquele esp\u00edrito, tamb\u00e9m vem a humanidade fazer amizade, a pessoa coloca aquele esp\u00edrito para colocar o esp\u00edrito da floresta, que \u00e9 viva&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-4.jpg?resize=960%2C540&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6977\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-4.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-4.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-4.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-4.jpg?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-4.jpg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-4.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Ke\u00e3, Huni Kuin. Foto: Beatriz Ohrana<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Natural da Aldeia Yawanaw\u00e1, o artes\u00e3o e comerciante Edmundo Shane, que atualmente reside em Rio Branco, destaca o car\u00e1ter sagrado do rap\u00e9 na tradi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Segundo ele, vai al\u00e9m da medicina tradicional e integra rituais religiosos que exigem resguardo rigoroso dos participantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Em alguns ritos, a pessoa entra em uma esp\u00e9cie de reclus\u00e3o: n\u00e3o pode ingerir bebida alco\u00f3lica nem ter rela\u00e7\u00f5es sexuais at\u00e9 a conclus\u00e3o do processo&#8221;, explica. Ele pontua ainda que o composto preparado sem fumo n\u00e3o causa depend\u00eancia qu\u00edmica e ressalta a import\u00e2ncia da responsabilidade no uso. &#8220;\u00c9 preciso ter consci\u00eancia e respeito, pois n\u00e3o se trata apenas de uma medicina, mas de um ato espiritual&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-3.jpg?resize=960%2C540&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6978\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-3.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-3.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-3.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-3.jpg?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-3.jpg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-3.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Tradi\u00e7\u00f5es e ensinamentos permanecem vivos para Edmundo Shane &#8211; Foto: Beatriz Ohrana<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Entre diferentes culturas, na capital acreana o rap\u00e9 caminha entre a tradi\u00e7\u00e3o da floresta e o dia a dia na cidade urbana. O grande desafio hoje \u00e9 fazer com que o com\u00e9rcio n\u00e3o apague o lado sagrado e o respeito \u00e0 cultura ind\u00edgena. No fim, o que importa \u00e9 garantir que esse saber antigo continue vivo e sendo respeitado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Beatriz Ohana e Rosely Cabral Uma das medicinas mais antigas utilizadas pelos povos ind\u00edgenas amaz\u00f4nicos \u00e9 o rap\u00e9, que tem como base o tabaco e cinzas de algumas \u00e1rvores. Soprado nas narinas, o prop\u00f3sito \u00e9 limpar a mente, promover foco e realizar curas espirituais. 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