{"id":6825,"date":"2026-09-03T15:40:31","date_gmt":"2026-09-03T20:40:31","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=6825"},"modified":"2026-09-03T15:40:33","modified_gmt":"2026-09-03T20:40:33","slug":"quem-segura-a-mae-no-colo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=6825","title":{"rendered":"Quem segura a m\u00e3e no colo?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por: Jerfeson Gadelha<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vivian chora. Brian atravessa a sala de aula enquanto a m\u00e3e tenta terminar uma prova. Sobre a carteira, caderno, caneta e uma mochila dividem espa\u00e7o com mamadeiras, fraldas e brinquedos. Por alguns segundos, Vit\u00f3ria Matos acredita que precisar\u00e1 entregar a avalia\u00e7\u00e3o antes de conclu\u00ed-la. N\u00e3o por falta de conhecimento, mas porque a filha, de apenas quatro meses, precisa de colo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes que isso aconte\u00e7a, uma professora se aproxima, pega a beb\u00ea nos bra\u00e7os e permanece com ela at\u00e9 o fim da prova. O gesto dura poucos minutos. Para Vit\u00f3ria, representa a diferen\u00e7a entre desistir e permanecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos 20 anos, estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (UFAC), ela vive uma rotina que n\u00e3o aparece nas grades curriculares. Entre aulas, trabalhos acad\u00eamicos e leituras obrigat\u00f3rias, existe outra jornada, silenciosa e ininterrupta: criar sozinha Brian, de tr\u00eas anos, e Vivian, de quatro meses.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEm nenhum momento imaginei que enfrentaria a maternidade sozinha\u201d, conta. A maternidade chegou em 2022. A cria\u00e7\u00e3o dos filhos, praticamente sozinha, veio depois.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o nascimento de Brian, Vit\u00f3ria ainda contava com a presen\u00e7a da m\u00e3e. Durante a segunda gesta\u00e7\u00e3o, tudo mudou. A depress\u00e3o gestacional trouxe medo, inseguran\u00e7a e pensamentos que ela jamais imaginou enfrentar. \u201cNa minha cabe\u00e7a passava: como eu vou fazer faculdade com duas crian\u00e7as?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre todas as lembran\u00e7as daquele per\u00edodo, uma permanece intacta. Era 14 de novembro de 2025. Brian completava tr\u00eas anos. Naquele dia, o menino fez apenas um pedido: \u201cMam\u00e3e, eu quero um bolo.\u201d Vit\u00f3ria n\u00e3o tinha dinheiro. Nem para o bolo. Nem para os ovos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela chora ao lembrar. \u201cEu n\u00e3o tinha dinheiro nem para comprar ovo para a gente comer.\u201d Naquele instante, acreditou que talvez outra fam\u00edlia pudesse oferecer \u00e0 filha que ainda esperava aquilo que ela n\u00e3o conseguiria. Pensou em entreg\u00e1-la para ado\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por falta de amor, mas porque o amor, sozinho, n\u00e3o compra comida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rotina universit\u00e1ria tamb\u00e9m nunca foi pensada para quem chega carregando um filho no colo. Quando n\u00e3o encontra algu\u00e9m para cuidar das crian\u00e7as, Vit\u00f3ria leva Brian e Vivian para a universidade. Brian conversa com os professores. Anda pela sala. Faz perguntas. Vivian precisa ser amamentada entre uma aula e outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto colegas estudam para as provas, Vit\u00f3ria calcula hor\u00e1rios de mamadas, troca de fraldas, trabalhos acad\u00eamicos e noites mal dormidas. \u201cEu n\u00e3o consigo estudar em casa. Eles precisam de aten\u00e7\u00e3o o tempo todo.\u201d Mesmo assim, continua. At\u00e9 quando isso significa perder oportunidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 poucos meses, conseguiu uma entrevista de emprego. Era uma chance de melhorar a renda da fam\u00edlia. N\u00e3o foi. \u201cPerdi a entrevista porque n\u00e3o tinha com quem deixar minha filha.\u201d N\u00e3o faltava vontade de trabalhar. Faltava algu\u00e9m que pudesse segur\u00e1-la por algumas horas. A hist\u00f3ria de Vit\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. \u00c9 retrato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Realidade no pa\u00eds<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo o Censo Demogr\u00e1fico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), o Brasil possui mais de 10 milh\u00f5es de lares chefiados por m\u00e3es que vivem apenas com os filhos, sem a presen\u00e7a de um companheiro. Ao mesmo tempo em que as mulheres passaram a assumir quase metade da chefia das fam\u00edlias brasileiras, continuam concentrando a maior parte da responsabilidade pelos cuidados com os filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a psic\u00f3loga Dayane Ara\u00fajo, especialista em avalia\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, essa realidade produz uma sobrecarga que muitas vezes permanece invis\u00edvel. \u201cA maioria dessas m\u00e3es acaba deixando as pr\u00f3prias necessidades em segundo plano para dar conta de tudo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela explica que conciliar maternidade, estudos e trabalho mant\u00e9m muitas mulheres em estado constante de alerta, favorecendo ansiedade, estresse e esgotamento emocional. Mas, segundo a psic\u00f3loga, existe um problema ainda mais profundo. Para ela, m\u00e3es solo n\u00e3o precisam ser admiradas por suportarem tudo. Precisam de condi\u00e7\u00f5es para que n\u00e3o sejam obrigadas a suportar tudo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA sociedade romantiza a m\u00e3e forte, mas por tr\u00e1s dessa imagem existe uma mulher que sente medo, cansa\u00e7o, tristeza e esgotamento.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Universidade Federal do Acre, onde Vit\u00f3ria estuda, ainda n\u00e3o existe uma pol\u00edtica espec\u00edfica voltada exclusivamente para as m\u00e3es universit\u00e1rias. Segundo a Pr\u00f3-Reitoria de Assuntos Estudantis (Proaes), a institui\u00e7\u00e3o oferece o Aux\u00edlio Primeira Inf\u00e2ncia para estudantes com filhos e acompanha alunos em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A universidade informou ainda que pretende apresentar ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o uma proposta para implanta\u00e7\u00e3o de uma \u201ccuidadoteca\u201d, espa\u00e7o destinado ao acolhimento de crian\u00e7as durante atividades acad\u00eamicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto pol\u00edticas p\u00fablicas avan\u00e7am lentamente, s\u00e3o pequenos gestos que mant\u00eam muitas hist\u00f3rias em movimento. Como o da professora que segurou Vivian durante uma prova. Ou dos colegas que convenceram Vit\u00f3ria a n\u00e3o abandonar a gradua\u00e7\u00e3o quando ela decidiu trancar o curso.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cDisseram que estariam comigo e que iam me ajudar.\u201d Ela permaneceu. A luta para permanecer n\u00e3o termina na universidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Respeito, empatia e oportunidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Amanda Dias conhece esse caminho. M\u00e3e solo e trabalhadora com carteira assinada, ela diz que todos os dias precisa organizar a pr\u00f3pria rotina para conseguir conciliar emprego, casa e maternidade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA maior dificuldade \u00e9 carregar tantas responsabilidades sozinha.\u201d Depois da separa\u00e7\u00e3o, o medo parecia maior do que qualquer plano para o futuro. Foi a terapia, aliada ao apoio da fam\u00edlia, que permitiu reconstruir sua autonomia. \u201cCom muita terapia, consegui entender que eu daria conta.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, Amanda olha para a filha e reconhece o quanto caminhou. \u201cMais do que julgamentos, m\u00e3es solo precisam de respeito, empatia e oportunidades.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vit\u00f3ria ainda n\u00e3o sabe exatamente como ser\u00e1 o dia da formatura. Mas j\u00e1 sabe quem espera encontrar quando atravessar o palco. Brian. Vivian. Os mesmos filhos que dividiram com ela salas de aula, provas, noites sem dormir e uma rotina que poucas pessoas enxergam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez eles ainda sejam pequenos demais para compreender tudo o que aconteceu at\u00e9 ali. Talvez n\u00e3o se lembrem das provas feitas com uma beb\u00ea no colo ou das aulas interrompidas pelo choro de uma crian\u00e7a. Mas haver\u00e1 algo que carregar\u00e3o para sempre. O exemplo de uma m\u00e3e que permaneceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, \u00e0s vezes, concluir uma gradua\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa apenas conquistar um diploma. Significa provar que, mesmo quando tudo parecia empurr\u00e1-la para tr\u00e1s, algu\u00e9m estendeu a m\u00e3o. E isso foi suficiente para que ela continuasse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre a universidade, o trabalho e a maternidade, m\u00e3es solo revelam que permanecer tamb\u00e9m depende de quem estende a m\u00e3o quando tudo parece desabar<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":6827,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[3,1],"tags":[],"coauthors":[136],"class_list":["post-6825","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-ultimas-noticias"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/486f7880-5128-41ce-9060-d8aa2eac85af.jpg?fit=1620%2C1080&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6825","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6825"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6825\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6828,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6825\/revisions\/6828"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6827"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6825"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=6825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}