{"id":6742,"date":"2026-08-17T17:35:47","date_gmt":"2026-08-17T22:35:47","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=6742"},"modified":"2026-08-17T18:31:22","modified_gmt":"2026-08-17T23:31:22","slug":"entre-a-cidade-e-a-ancestralidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=6742","title":{"rendered":"Entre a cidade e a ancestralidade"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><em>Da vida urbana ao ensino superior, os ind\u00edgenas relatam a luta di\u00e1ria por pertencimento, respeito e perman\u00eancia.\u00a0<\/em><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Acre \u00e9 um dos estados brasileiros com maior diversidade de povos ind\u00edgenas. De acordo com o Censo Demogr\u00e1fico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), cerca de 29,1 mil ind\u00edgenas vivem no estado, distribu\u00eddos entre diferentes povos e munic\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Rio Branco, aproximadamente 1,8 mil ind\u00edgenas vivem em contexto urbano. A cidade tamb\u00e9m concentra representantes de 51 povos ind\u00edgenas e registra a presen\u00e7a de 25 l\u00ednguas ind\u00edgenas faladas, o maior n\u00famero entre os munic\u00edpios do estado, segundo o Censo Demogr\u00e1fico de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a ind\u00edgena na cidade revela uma realidade marcada pela constru\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da identidade em meio ao espa\u00e7o urbano. Longe das aldeias, muitos deixam seus territ\u00f3rios de origem em busca de educa\u00e7\u00e3o, trabalho e acesso a servi\u00e7os p\u00fablicos. No entanto, essa trajet\u00f3ria tamb\u00e9m \u00e9 atravessada por desafios como o racismo, a desinforma\u00e7\u00e3o e a dificuldade de reconhecimento social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 vida urbana e a manuten\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es, a identidade ind\u00edgena se constr\u00f3i diariamente como uma forma de resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Do acesso \u00e0 perman\u00eancia<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para muitos ind\u00edgenas que vivem em contexto urbano, a universidade faz parte da trajet\u00f3ria constru\u00edda longe das aldeias. A busca pelo ensino superior leva estudantes a deixarem suas comunidades ou a consolidarem a vida nas cidades, onde o acesso a uma universidade p\u00fablica representa uma oportunidade de ampliar direitos e perspectivas. No entanto, ingressar na universidade n\u00e3o significa que os desafios terminam. Permanecer nesse espa\u00e7o ainda exige enfrentar barreiras que v\u00e3o desde a falta de pol\u00edticas efetivas at\u00e9 dificuldades de acolhimento e reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Universidade Federal do Acre (Ufac), o aumento no n\u00famero de ingressantes ind\u00edgenas marca avan\u00e7os importantes nas pol\u00edticas de inclus\u00e3o, ao mesmo tempo em que evidencia desigualdades que ainda persistem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos anos, a presen\u00e7a de estudantes ind\u00edgenas na Ufac cresceu de forma significativa. Em 2015, apenas cinco ind\u00edgenas ingressaram na institui\u00e7\u00e3o. Em 2025, esse n\u00famero chegou a 83 estudantes. O avan\u00e7o \u00e9 lento, mas \u00e9 resultado de pol\u00edticas de acesso, como a\u00e7\u00f5es afirmativas e amplia\u00e7\u00e3o de vagas, al\u00e9m da consolida\u00e7\u00e3o de cursos voltados \u00e0 forma\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, como a Licenciatura Ind\u00edgena no Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul. Apenas em 2025,&nbsp; depois de 23 anos da cria\u00e7\u00e3o do curso,&nbsp; foi registrado o ingresso dos primeiros estudantes ind\u00edgenas acreanos no curso de Medicina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de os n\u00fameros representarem um marco importante, estudantes afirmam que o desafio da perman\u00eancia ainda \u00e9 uma realidade dentro da universidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o acad\u00eamico do quinto per\u00edodo de Enfermagem, Tu\u00e3 Victor Damasceno Brand\u00e3o Shanenawa, o ingresso no ensino superior n\u00e3o garante, por si s\u00f3, condi\u00e7\u00f5es para a continuidade da forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Eu vejo que falta muita coisa para ser melhorada. N\u00e3o s\u00f3 dentro da universidade, mas fora dela tamb\u00e9m. Quando a gente fala de pol\u00edticas p\u00fablicas para estudantes ind\u00edgenas, n\u00e3o envolve apenas o campus. Como voc\u00ea garante a entrada de um estudante se n\u00e3o garante todos os direitos que s\u00e3o dele?&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo ele, algumas pol\u00edticas institucionais existem, mas enfrentam falhas na execu\u00e7\u00e3o e, principalmente, na divulga\u00e7\u00e3o, o que dificulta o acesso dos estudantes aos benef\u00edcios. Como exemplo, ele cita o aux\u00edlio para o Restaurante Universit\u00e1rio (RU), que garante gratuidade nas refei\u00e7\u00f5es para estudantes ind\u00edgenas durante todo o curso.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O edital foi pouco divulgado e mal formulado. Eu soube da exist\u00eancia dele por terceiros. Quando fui buscar informa\u00e7\u00f5es na Pr\u00f3-Reitoria de Assuntos Estudantis, ningu\u00e9m sabia responder. Era um edital da pr\u00f3pria Pr\u00f3-Reitoria, e nem eles conseguiam explicar direito. \u00c0s vezes parece que colocam um tapa-buraco para dizer que existe uma pol\u00edtica p\u00fablica&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"540\" height=\"715\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1-1.png?resize=540%2C715&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6747\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1-1.png?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1-1.png?resize=227%2C300&amp;ssl=1 227w\" sizes=\"(max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Acad\u00eamico de Enfermagem Tu\u00e3 Victor Damasceno Brand\u00e3o Shanenawa relata as faltas de pol\u00edticas p\u00fablicas. Imagem: Maria Eduarda Ruiz<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu\u00e3 tamb\u00e9m destaca a import\u00e2ncia de espa\u00e7os de apoio dentro da universidade, como a Casa de Apoio ao Estudante Ind\u00edgena. Para ele, embora o espa\u00e7o seja pertinente, ainda h\u00e1 limita\u00e7\u00f5es na estrutura e no alcance do atendimento. &#8220;Ajuda muito, ajuda de verdade. Mas ainda falta para essa ajuda realmente alcan\u00e7ar quem precisa. Muitas vezes acaba sendo superficial&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Saberes ind\u00edgenas e universidade&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as iniciativas que considera mais significativas, o estudante cita o Programa de Educa\u00e7\u00e3o Tutorial (PET) Conex\u00e3o de Saberes: Comunidades Ind\u00edgenas, que tem contribu\u00eddo para sua perman\u00eancia, para criar rela\u00e7\u00f5es e para o fortalecimento da identidade ind\u00edgena dentro da universidade,<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Foi uma das coisas que mais me ajudou. Eu tamb\u00e9m conheci o PET por terceiros. Entrei no programa e hoje vejo que ele me incentiva a continuar na universidade. As atividades n\u00e3o s\u00e3o voltadas apenas para uma \u00e1rea espec\u00edfica do conhecimento, mas para a nossa cultura. O PET leva nossa cultura para outras pessoas e faz com que a gente tamb\u00e9m pesquise sobre quem somos&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Tu\u00e3, um dos principais desafios enfrentados pelos estudantes ind\u00edgenas dentro da universidade est\u00e1 no reconhecimento dos saberes tradicionais como formas leg\u00edtimas de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo ele, muitas pesquisas desenvolvidas por estudantes ind\u00edgenas partem de experi\u00eancias e conhecimentos de suas pr\u00f3prias comunidades, mas nem sempre s\u00e3o valorizadas dentro dos crit\u00e9rios acad\u00eamicos tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;A maioria dos estudantes ind\u00edgenas desenvolve projetos ligados \u00e0s suas comunidades. S\u00f3 que, muitas vezes, esse conhecimento n\u00e3o \u00e9 reconhecido porque n\u00e3o est\u00e1 na bibliografia tradicional. O rigor cient\u00edfico acaba considerando apenas aquilo que j\u00e1 foi produzido dentro da academia&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele defende que esse modelo precisa ser revisto para incluir outras formas de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Quando o estudante ind\u00edgena quer pesquisar um tema da pr\u00f3pria comunidade, um conhecimento verdadeiro para n\u00f3s, ele muitas vezes n\u00e3o recebe o mesmo reconhecimento que outros temas considerados mais ocidentais. Isso precisa mudar&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudante tamb\u00e9m defende maior presen\u00e7a ind\u00edgena em espa\u00e7os de poder dentro da universidade, incluindo a doc\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Eu acharia o m\u00e1ximo ver um professor ind\u00edgena no meu curso ou em qualquer outro. Isso encoraja os estudantes e mostra que n\u00f3s podemos estar em todos os lugares. Muitas vezes, quando um ind\u00edgena entra na universidade, ele \u00e9 descredibilizado, desencorajado e deixado de lado. Aos poucos, ele acaba se afastando&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quando o acolhimento n\u00e3o chega<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre pol\u00edticas de assist\u00eancia estudantil e iniciativas de inclus\u00e3o, estudantes relatam que o suporte nem sempre chega de forma efetiva a quem mais precisa, especialmente nos primeiros momentos de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 vida universit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a estudante de Qu\u00edmica, Kailane da Silva Nunes Makowyto, a principal dificuldade est\u00e1 na falta de orienta\u00e7\u00e3o e acompanhamento dentro da universidade, o que torna o processo de adapta\u00e7\u00e3o mais complexo para quem chega de comunidades mais distantes.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Em quest\u00e3o do que eu n\u00e3o vejo aqui para os estudantes, eu acho que\u00a0 precisa de mais suporte. Porque tem essa quest\u00e3o da dificuldade de se encontrar dentro da Ufac&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo ela, o in\u00edcio da vida acad\u00eamica \u00e9 marcado por inseguran\u00e7a e pela necessidade de aprender, na pr\u00e1tica, como acessar os servi\u00e7os e apoios dispon\u00edveis.&#8221;Principalmente os que v\u00eam de dentro das aldeias, que v\u00eam de longe, n\u00e3o est\u00e3o acostumados.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kailane destaca que, muitas vezes, a perman\u00eancia na universidade depende da iniciativa individual do estudante em buscar informa\u00e7\u00f5es e ajuda.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Ningu\u00e9m vai chegar em voc\u00ea do nada e vai querer te ajudar, sabe? Voc\u00ea precisa de verdade perguntar, voc\u00ea precisa buscar. Por mais que \u00e0s vezes seja dif\u00edcil, a gente sofre, mas a vida \u00e9 assim. A gente precisa superar essas barreiras&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"710\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2-1.png?resize=960%2C710&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6751\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2-1.png?resize=1024%2C757&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2-1.png?resize=300%2C222&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2-1.png?resize=768%2C568&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2-1.png?w=1179&amp;ssl=1 1179w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A estudante de Qu\u00edmica relatou dificuldades no in\u00edcio da faculdade. Imagem: Maria Eduarda Ruiz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fala da estudante evidencia um ponto recorrente entre os relatos de ind\u00edgenas no ensino superior: o acesso \u00e0 universidade representa uma conquista importante, mas n\u00e3o garante automaticamente condi\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia, acolhimento e pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os obst\u00e1culos enfrentados dentro da universidade refletem uma realidade mais ampla. Fora do ambiente acad\u00eamico, ind\u00edgenas que vivem em contexto urbano tamb\u00e9m convivem com o desafio permanente de terem sua identidade reconhecida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Identidade em disputa<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os desafios enfrentados pelos estudantes ind\u00edgenas na universidade refletem uma realidade que vai al\u00e9m do ambiente acad\u00eamico. Em contexto urbano, a identidade dos povos origin\u00e1rios \u00e9 frequentemente colocada em d\u00favida, seja pela sociedade n\u00e3o ind\u00edgena, seja, em alguns casos, dentro das pr\u00f3prias comunidades. Ser ind\u00edgena fora da aldeia significa, muitas vezes, precisar reafirmar diariamente sua identidade e seu pertencimento. Nesse contexto, a identidade deixa de ser apenas uma viv\u00eancia para se tornar algo que precisa ser cotidianamente provado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a chefe da Divis\u00e3o dos Povos Origin\u00e1rios e Tradicionais da Secretaria de Estado da Mulher (Semulher), P\u00e2mela Manchineri Sim\u00e3o, viver em contexto urbano significa ocupar um espa\u00e7o onde a identidade ind\u00edgena \u00e9 constantemente questionada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"702\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3-1.png?resize=960%2C702&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6750\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3-1.png?resize=1024%2C749&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3-1.png?resize=300%2C220&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3-1.png?resize=768%2C562&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3-1.png?w=1178&amp;ssl=1 1178w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Machineri destaca sobre a realidade de ser uma ind\u00edgena n\u00e3o aldeada. Foto: Aniely Cordeiro<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Quando o ind\u00edgena n\u00e3o \u00e9 aldeado, ele sofre a repres\u00e1lia tanto da sociedade como at\u00e9 mesmo da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Porque, para o ind\u00edgena aldeado, quem vive em contexto urbano muitas vezes n\u00e3o \u00e9 considerado t\u00e3o ind\u00edgena, por estar longe das suas origens. E, para a sociedade, o ind\u00edgena tamb\u00e9m deixa de ser reconhecido justamente por n\u00e3o viver na aldeia&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo ela, essa condi\u00e7\u00e3o faz com que ind\u00edgenas urbanos enfrentem diferentes formas de discrimina\u00e7\u00e3o, tanto dentro quanto fora de suas pr\u00f3prias comunidades.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Existe discrimina\u00e7\u00e3o pela l\u00edngua que as pessoas falam, pela forma como a pessoa \u00e9. Eu, como ind\u00edgena que j\u00e1 nasci em contexto urbano, tamb\u00e9m sofri discrimina\u00e7\u00e3o dentro das escolas quando era crian\u00e7a por causa das minhas caracter\u00edsticas faciais&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00e2mela afirma que o preconceito n\u00e3o se limita \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais, mas tamb\u00e9m se manifesta na forma como a identidade ind\u00edgena \u00e9 validada ou negada no cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Existe o racismo pelas caracter\u00edsticas da pessoa, pela vestimenta, por usar uma t\u00fanica, uma bolsa ind\u00edgena ou artesanatos. \u00c9 uma forma de fazer o apagamento hist\u00f3rico que a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena sofreu desde a invas\u00e3o do Brasil e que continua at\u00e9 hoje. Se voc\u00ea usa roupa considerada de branco, dizem que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 ind\u00edgena o suficiente. Se usa uma roupa tradicional, dizem que voc\u00ea est\u00e1 querendo aparecer. Existe sempre essa contrapartida&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar disso, ela destaca que a manuten\u00e7\u00e3o dos costumes dentro da pr\u00f3pria fam\u00edlia \u00e9 uma forma de fortalecer a identidade e preservar a ancestralidade. Fazer comidas tradicionais ind\u00edgenas \u00e9 um h\u00e1bito que ela mant\u00e9m com os seus familiares na cidade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cGostamos de participar de eventos, ouvir m\u00fasicas dos povos ind\u00edgenas e fortalecer essa conex\u00e3o com a nossa ancestralidade. Quando digo que sou P\u00e2mela Manchineri, meu sobrenome tamb\u00e9m marca quem eu sou. \u00c9 uma forma de demarcar a minha ancestralidade&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Pol\u00edticas p\u00fablicas e enfrentamento ao preconceito<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No \u00e2mbito governamental, a Secretaria de Estado da Mulher (Semulher) desenvolve a\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0s mulheres ind\u00edgenas, incluindo materiais informativos traduzidos para l\u00ednguas ind\u00edgenas, orienta\u00e7\u00f5es sobre direitos e enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia, al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o de uma rede de apoio para atendimento em situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As iniciativas buscam ampliar o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e fortalecer o enfrentamento \u00e0s viol\u00eancias que atingem mulheres ind\u00edgenas tanto em contextos urbanos quanto nas comunidades tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"647\" height=\"736\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/4.png?resize=647%2C736&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6749\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/4.png?w=647&amp;ssl=1 647w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/4.png?resize=264%2C300&amp;ssl=1 264w\" sizes=\"(max-width: 647px) 100vw, 647px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cartilha da Semulher como iniciativa para enfrentar viol\u00eancias dom\u00e9sticas. Imagem: Maria Eduarda Ruiz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar dos avan\u00e7os conquistados nos \u00faltimos anos, P\u00e2mela avalia que ainda h\u00e1 desafios para que as pol\u00edticas p\u00fablicas atendam, de forma efetiva, \u00e0s necessidades da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Para ela, mais do que ampliar a\u00e7\u00f5es governamentais, \u00e9 necess\u00e1rio garantir que ind\u00edgenas ocupem espa\u00e7os de decis\u00e3o e participem da formula\u00e7\u00e3o dessas pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;As pol\u00edticas p\u00fablicas est\u00e3o crescendo, s\u00f3 que o certo \u00e9 que nessas pol\u00edticas p\u00fablicas sejam pessoas ind\u00edgenas para represent\u00e1-las. Porque uma pessoa que n\u00e3o \u00e9 ind\u00edgena n\u00e3o vai entender a necessidade de uma popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. O que tem que melhorar \u00e9 colocar mais pessoas ind\u00edgenas em locais de poder e que tenham mais pol\u00edticas p\u00fablicas do que j\u00e1 temos&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os relatos reunidos nesta reportagem mostram que, apesar dos avan\u00e7os nos \u00faltimos anos, o pertencimento e a resist\u00eancia ainda \u00e9 um dos principais desafios para ind\u00edgenas que vivem em contexto urbano. Entre o acesso a direitos, a perman\u00eancia na universidade e o reconhecimento da pr\u00f3pria identidade, as hist\u00f3rias de P\u00e2mela, Tu\u00e3 e Kailane revelam que ocupar esses espa\u00e7os tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de afirmar quem s\u00e3o e preservar a ancestralidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da vida urbana ao ensino superior, os ind\u00edgenas relatam a luta di\u00e1ria por pertencimento, respeito e perman\u00eancia.\u00a0 Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz\u00a0 O Acre \u00e9 um dos estados brasileiros com maior diversidade de povos ind\u00edgenas. De acordo com o Censo Demogr\u00e1fico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), cerca de<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":6748,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[53,1],"tags":[40,115,8,47],"coauthors":[136],"class_list":["post-6742","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-raizes-urbanas","category-ultimas-noticias","tag-acre","tag-cultura","tag-destaque","tag-ufac"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/0-1.png?fit=1000%2C666&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6742","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6742"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6742\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6752,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6742\/revisions\/6752"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6748"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6742"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6742"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6742"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=6742"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}