{"id":5406,"date":"2026-01-19T11:00:48","date_gmt":"2026-01-19T16:00:48","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=5406"},"modified":"2026-01-28T13:24:41","modified_gmt":"2026-01-28T18:24:41","slug":"a-trajetoria-e-os-desafios-culturais-e-linguisticos-de-um-estudante-venezuelano-no-acre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=5406","title":{"rendered":"Trajet\u00f3ria e desafios culturais e lingu\u00edsticos de um estudante venezuelano no Acre"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Por Victor Hugo Santos e Wellington Vidal<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com uma trajet\u00f3ria marcada por travessias, fronteiras e barreiras lingu\u00edsticas, o <mark style=\"background-color:#eee\" class=\"has-inline-color\">jovem venezuelano Osthin Querales fez do Acre o seu lar e espa\u00e7o de aprendizado. <\/mark>Acad\u00eamico de Letras-Ingl\u00eas na Universidade Federal do Acre (Ufac), ele encara com bom humor o desafio de equilibrar o espanhol materno, o portugu\u00eas do cotidiano e o ingl\u00eas do ambiente profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>A vinda para o Brasil, h\u00e1 seis anos, foi um susto. Osthin estudava ingl\u00eas na Venezuela quando sua m\u00e3e anunciou a mudan\u00e7a radical: <mark style=\"background-color:#eee\" class=\"has-inline-color\">&#8220;Agora bora estudar portugu\u00eas&#8221;,<\/mark> recorda, rindo. A decis\u00e3o de vir para o estado foi motivada pelo apoio de um familiar que j\u00e1 estava estabilizado e que relatou oportunidades locais de trabalho e estudo, diante da crise enfrentada pela Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Chegada ao Brasil<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Com o isolamento social causado pela pandemia da covid-19, ele cursou todo o 3\u00ba ano do ensino m\u00e9dio em Ensino a Dist\u00e2ncia (EAD). Embora tenha tido contato com o portugu\u00eas, as intera\u00e7\u00f5es eram limitadas, o que exigiu criatividade no processo de aprendizagem. Osthin passou a aproveitar situa\u00e7\u00f5es do cotidiano como forma de estudo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Eu ia ao supermercado e aproveitava para ver o nome das coisas. Achava que sab\u00e3o e sabonete eram a mesma coisa, mas n\u00e3o&#8221;, explica.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, ele conta que tamb\u00e9m assistia jogos de futebol com narradores brasileiros e \u201clives\u201d de pessoas jogando videogame, como forma de praticar o estudo.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ingresso na Ufac e confus\u00f5es lingu\u00edsticas memor\u00e1veis<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s concluir o ensino m\u00e9dio, embora inicialmente estivesse interessado em desenho gr\u00e1fico e tecnologia, a aus\u00eancia dessas op\u00e7\u00f5es na universidade levou Osthin a <strong>optar pelo curso de ingl\u00eas<\/strong>, \u00e1rea que dialogava com sua forma\u00e7\u00e3o anterior e com a necessidade de adapta\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ele relata que o maior avan\u00e7o no dom\u00ednio do portugu\u00eas ocorreu ap\u00f3s o ingresso na faculdade.<\/strong> &#8220;Eu aprendi portugu\u00eas, me comuniquei com todo mundo, consegui desenvolver e pegar um pouco mais de confian\u00e7a.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A proximidade entre portugu\u00eas e espanhol, apesar de facilitar o aprendizado, tamb\u00e9m gerou situa\u00e7\u00f5es curiosas. Durante o primeiro almo\u00e7o no restaurante universit\u00e1rio da Ufac, Osthin se confundiu ao relatar o card\u00e1pio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Eu fui almo\u00e7ar no restaurante universit\u00e1rio e minha colega me perguntou o que tinha sido o almo\u00e7o. A\u00ed eu falei: arroz, frango, feij\u00e3o e salada de cacha\u00e7a&#8221;, conta, rindo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>&#8220;As duas palavras s\u00e3o t\u00e3o diferentes, tipo, n\u00e3o sei porque eu lembrei de cacha\u00e7a, eu nem sabia o que era isso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro epis\u00f3dio envolveu o uso dos diminutivos. Ao comentar fotos do beb\u00ea de uma colega, tentou ser carinhoso:<\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:#eee\" class=\"has-inline-color\">&#8220;Que fofinho o beb\u00ea, com sua calcinha, a camisinha&#8221;.<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p>Ele acreditava que o sufixo \u201c-inha\u201d servia para qualquer pe\u00e7a de roupa pequena. &#8220;N\u00e3o me matem. N\u00e3o pensem coisas erradas&#8221;, pediu, envergonhado, ao descobrir o significado real das palavras.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"987\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-19-at-10.54.08-1-1.jpeg?resize=740%2C987&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-5419\" style=\"aspect-ratio:0.7500079181579198;width:517px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-19-at-10.54.08-1-1.jpeg?resize=768%2C1024&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-19-at-10.54.08-1-1.jpeg?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-19-at-10.54.08-1-1.jpeg?w=960&amp;ssl=1 960w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Osthin Querales, estudante venezuelano de Letras-Ingl\u00eas na Ufac, constr\u00f3i sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica entre l\u00ednguas, culturas e fronteiras. Foto: Wellington Vidal<\/em><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Choques culturais e lingu\u00edsticos<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>A adapta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m passou por choques culturais, como descobrir que brasileiros comem pizza com garfo e faca ou compreender express\u00f5es regionais como \u201cdar um bal\u00e3o\u201d e \u201cvai cair um pau d\u2019\u00e1gua\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando questionado sobre qual l\u00edngua considera mais f\u00e1cil de aprender al\u00e9m da l\u00edngua materna, Osthin responde sem hesitar: &#8220;Ah, gente, isso \u00e9 muito f\u00e1cil. O portugu\u00eas de fato porque parece bastante com espanhol, n\u00e3o \u00e9 igual, mas parece&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele observa, no entanto, que essa proximidade tamb\u00e9m gera desafios, j\u00e1 que as semelhan\u00e7as entre as l\u00ednguas podem provocar confus\u00e3o. Diferen\u00e7as gramaticais e estruturais exigem aten\u00e7\u00e3o constante durante o processo de aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Trajet\u00f3ria como professor<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>A trajet\u00f3ria acad\u00eamica de Osthin ganhou um novo cap\u00edtulo no Centro de Idiomas da Ufac, onde, sob orienta\u00e7\u00e3o da coordenadora <strong>Raquel Ishii<\/strong>, passou a ministrar cursos de ingl\u00eas e espanhol. No in\u00edcio, o processo exigiu grande esfor\u00e7o cognitivo, j\u00e1 que precisava transitar entre tr\u00eas l\u00ednguas para explicar os conte\u00fados aos alunos. Nas situa\u00e7\u00f5es mais complexas, contou com o apoio da monitora Nicole, que auxiliava na media\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"370\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-19-at-10.55.29.jpeg?resize=740%2C370&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-5412\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-19-at-10.55.29.jpeg?w=750&amp;ssl=1 750w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-19-at-10.55.29.jpeg?resize=300%2C150&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Centro de Idiomas da Ufac, espa\u00e7o de aprendizagem, troca cultural e forma\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica. Foto: Asscom\/Ufac<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:#eee\" class=\"has-inline-color\">Com o tempo, a experi\u00eancia fortaleceu sua autonomia e consolidou o ensino como parte de sua identidade. <\/mark>Para Osthin, aprender um idioma vai al\u00e9m da gram\u00e1tica e envolve compreender hist\u00f3rias e culturas. Ele se inspira em um ditado popular das escolas venezuelanas: \u201cno hay preguntas bobas sino bobos que no preguntan\u201d, que significa \u201cN\u00e3o existem perguntas est\u00fapidas, apenas pessoas est\u00fapidas que n\u00e3o as fazem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Atualmente cursando o 8\u00ba per\u00edodo da Licenciatura em Letras-Ingl\u00eas na Ufac, Osthin reconhece que o processo de adapta\u00e7\u00e3o foi desafiador<\/strong>, mas valoriza o acolhimento recebido:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Obviamente que a gente teve nossas dificuldades, como tudo, nada \u00e9 perfeito. Nossos momentos de saudades l\u00e1 na Venezuela, saudades da fam\u00edlia, do lar. Mas claramente eu valorizo tudo que eu venho conseguindo, as pessoas que eu venho conhecendo, o tratamento que as pessoas t\u00eam comigo e pra minha fam\u00edlia&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ao citar o artista <strong>Bad Bunny<\/strong>, ele compartilha um lema pessoal: &#8220;Onde quer que voc\u00ea esteja, se voc\u00ea mudou de pa\u00eds, de grupo, de estado, de cidade, onde seja que voc\u00ea for, lembre-se sempre de onde voc\u00ea veio. Lembre-se sempre de onde veio os seus princ\u00edpios, mas sempre seja grato onde voc\u00ea est\u00e1&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Orgulhoso, refor\u00e7a sua identidade: &#8220;Eu sou venezuelano e sempre eu digo nas minhas apresenta\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m eu sempre digo que sou muito grato pelas pessoas aqui que eu vim conhecendo, pelas pessoas brasileiras, por Rio Branco, pelo Acre&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para Osthin, a l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 uma barreira, mas uma ponte, uma travessia poss\u00edvel, desde que exista disposi\u00e7\u00e3o para se comunicar.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acad\u00eamico da Ufac, Osthin enfrenta o desafio de transitar entre o espanhol materno, o portugu\u00eas do cotidiano e o ingl\u00eas no ambiente acad\u00eamico e profissional<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":5414,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[2,50,1],"tags":[40,8,48,47],"coauthors":[136],"class_list":["post-5406","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-rotas","category-travessias","category-ultimas-noticias","tag-acre","tag-destaque","tag-educacao","tag-ufac"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-19-at-10.56.22.jpeg?fit=1600%2C1200&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5406","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5406"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5406\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5534,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5406\/revisions\/5534"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5414"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5406"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5406"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5406"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=5406"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}