{"id":4993,"date":"2025-10-21T12:35:10","date_gmt":"2025-10-21T17:35:10","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=4993"},"modified":"2025-10-21T12:35:12","modified_gmt":"2025-10-21T17:35:12","slug":"25-anos-de-historias-nas-margens-do-rio-acre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=4993","title":{"rendered":"25 anos de hist\u00f3rias nas margens do rio Acre"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Raquel de Paula, Elis Caetano e Tales Gabriel<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Entre o vai e vem das \u00e1guas do rio Acre, Ant\u00f4nio Viana encontrou na catraia mais que um sustento: encontrou um novo rumo para a vida. H\u00e1 25 anos, depois de perder o com\u00e9rcio, ver portas se fecharem e a tristeza quase vencer, foi no balan\u00e7o das \u00e1guas, com o remo nas m\u00e3os e a tradi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia no cora\u00e7\u00e3o, que ele se reergueu. Hoje, mesmo com pontes, carros e aplicativos de transporte ocupando o espa\u00e7o de antes, Ant\u00f4nio segue firme: \u201cEu amo o que fa\u00e7o. \u00c9 honesto, \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tenho vergonha de dizer para ningu\u00e9m que sou catraieiro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O ano era 2000 quando a vida de Ant\u00f4nio parecia encalhada. O com\u00e9rcio que sustentava a fam\u00edlia havia quebrado, as d\u00edvidas se acumulavam e a situa\u00e7\u00e3o quase o empurrou para a depress\u00e3o. Foi ent\u00e3o que um amigo lhe estendeu a m\u00e3o e o convidou para trabalhar como catraieiro. O servi\u00e7o era duro, das cinco da manh\u00e3 \u00e0s seis da tarde, por apenas oito reais ao dia. \u00c0s vezes o pagamento atrasava, outras vezes nem vinha. Mas a vida, aos poucos, voltou a se movimentar. \u201cEu passei um tempo dif\u00edcil, quase peguei depress\u00e3o. Mas foi aqui, na catraia, que eu achei um rumo de novo. Peguei gosto pelo trabalho e nunca mais larguei\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser catraieiro, para Ant\u00f4nio, \u00e9 mais que uma profiss\u00e3o, \u00e9 heran\u00e7a. Seu tio e at\u00e9 parentes distantes que foram figuras hist\u00f3ricas da fam\u00edlia, como o poeta e pintor H\u00e9lio Melo, tamb\u00e9m viveram do remo. A catraia foi, durante d\u00e9cadas, o elo que ligava margens, pessoas, mercadorias e sonhos. Antes das pontes, era nas pequenas embarca\u00e7\u00f5es que a cidade respirava os famosos portos. \u201cAntigamente o porto era cheio de movimento, vinha peixe, banana, melancia, jerimum. Os ribeirinhos desciam com os batel\u00f5es cheios. Hoje, o que a gente v\u00ea s\u00e3o s\u00f3 umas duas, tr\u00eas canoas&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"416\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-21-at-12.27.01.jpeg?resize=740%2C416&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-5017\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-21-at-12.27.01.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-21-at-12.27.01.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-21-at-12.27.01.jpeg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-21-at-12.27.01.jpeg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Foto: Autores<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>As pontes chegaram, os carros e as motos tomaram espa\u00e7o, os aplicativos de transporte mudaram a rotina da cidade e a catraia perdeu seu p\u00fablico. O que antes era a principal forma de atravessar o Acre hoje \u00e9 quase pe\u00e7a de museu, viva apenas nas margens onde o tempo ainda passa mais devagar. \u201cTem gente que diz que prefere pagar um Uber do que pagar tr\u00eas reais para atravessar. Mas aqui, se voc\u00ea chegar sem um centavo, eu levo do mesmo jeito. Quero ver se o Uber faz isso\u201d, diz Ant\u00f4nio, com o orgulho de quem sabe o valor que seu trabalho carrega, mesmo quando a sociedade parece esquecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com os dias de baixa, com o corpo j\u00e1 cansado e a sa\u00fade exigindo cuidados, Ant\u00f4nio insiste em permanecer. Para ele, n\u00e3o \u00e9 apenas sobre ganhar dinheiro, \u00e9 sobre significado, sobre amor \u00e0quilo que construiu sua hist\u00f3ria. \u201cTem gente que tem vergonha do que faz. Eu, n\u00e3o. Eu digo com orgulho: sou catraieiro. Tudo o que eu tenho, constru\u00ed aqui, com o remo na m\u00e3o e a cabe\u00e7a erguida.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"416\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-21-at-12.27.01-1.jpeg?resize=740%2C416&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-5018\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-21-at-12.27.01-1.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-21-at-12.27.01-1.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-21-at-12.27.01-1.jpeg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-21-at-12.27.01-1.jpeg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto: Autores<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ao olhar o rio, Ant\u00f4nio v\u00ea um tempo que j\u00e1 n\u00e3o existe, mas que insiste em permanecer, mesmo que s\u00f3 na mem\u00f3ria de quem viveu. V\u00ea as corridas de catraieiros no 7 de setembro, os passageiros leais, a amizade que atravessa as margens junto com as embarca\u00e7\u00f5es. V\u00ea tamb\u00e9m o risco de tudo isso desaparecer, engolido pelo sil\u00eancio e pela pressa de uma cidade que olha pouco para o pr\u00f3prio passado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA catraia \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o. Podem fazer dez, cem pontes aqui, que ainda vai ter gente atravessando com a gente. O pessoal gosta, mesmo os poucos que restaram. E enquanto Deus me der for\u00e7a, eu continuo aqui.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"416\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/44b2187c-fc20-43de-a3ee-42ab2026aa0a.jpeg?resize=740%2C416&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-5013\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/44b2187c-fc20-43de-a3ee-42ab2026aa0a-scaled.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/44b2187c-fc20-43de-a3ee-42ab2026aa0a-scaled.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/44b2187c-fc20-43de-a3ee-42ab2026aa0a-scaled.jpeg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/44b2187c-fc20-43de-a3ee-42ab2026aa0a-scaled.jpeg?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/44b2187c-fc20-43de-a3ee-42ab2026aa0a-scaled.jpeg?resize=2048%2C1152&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/44b2187c-fc20-43de-a3ee-42ab2026aa0a-scaled.jpeg?w=1480&amp;ssl=1 1480w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/44b2187c-fc20-43de-a3ee-42ab2026aa0a-scaled.jpeg?w=2220&amp;ssl=1 2220w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Foto: Autores<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O remo corta a \u00e1gua devagar, levando mais um passageiro ao outro lado. Para quem olha de fora, pode parecer s\u00f3 uma travessia, para Ant\u00f4nio, \u00e9 a reafirma\u00e7\u00e3o de uma vida inteira dedicada ao rio, ao trabalho honesto, \u00e0 hist\u00f3ria de um Acre que come\u00e7ou sobre as \u00e1guas e que, apesar de tudo, ainda respira nelas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser catraieiro, para Ant\u00f4nio Viana, \u00e9 mais que uma profiss\u00e3o, \u00e9 heran\u00e7a. Foto: Autores<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":5012,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[5],"tags":[147,40,8,47],"coauthors":[136],"class_list":["post-4993","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-afluentes","tag-a-catraia","tag-acre","tag-destaque","tag-ufac"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/84c3e803-a91a-4a54-a7bf-e00aface94ec-scaled.jpeg?fit=2560%2C1440&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4993","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4993"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4993\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5019,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4993\/revisions\/5019"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5012"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4993"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=4993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}