{"id":4832,"date":"2025-09-03T12:56:08","date_gmt":"2025-09-03T17:56:08","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=4832"},"modified":"2025-09-03T12:56:10","modified_gmt":"2025-09-03T17:56:10","slug":"as-alternativas-para-demandas-afetivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=4832","title":{"rendered":"As alternativas para demandas afetivas"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Pedro Amorim e Ana Paula Melo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em um mundo cada vez mais conectado pela tecnologia, mas marcado pela solid\u00e3o, muitas pessoas t\u00eam encontrado conforto em animais de estima\u00e7\u00e3o e objetos, tratando-os como membros da fam\u00edlia ou at\u00e9 como filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria de Produtos para Animais de Estima\u00e7\u00e3o (Abinpet) estima que existam mais de 55 milh\u00f5es de c\u00e3es, com 80% dos tutores vendo-os como parte da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um estudo da DogHero mostra que 66% dos donos tratam seus pets como filhos. Esse carinho impulsiona um mercado que, segundo o Instituto Pet Brasil, movimentou R$78,2 bilh\u00f5es em 2024, com a maior parte gasta em alimenta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de servi\u00e7os como sa\u00fade e est\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por meio de um estudo, alerta que tratar animais como humanos pode causar problemas como ansiedade, comportamentos compulsivos e at\u00e9 obesidade nos bichos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo marcante \u00e9 o fen\u00f4meno dos beb\u00eas <em>reborn<\/em>, bonecas hiper-realistas adotadas para cole\u00e7\u00e3o ou terapia. O mercado global dessas bonecas, avaliado em US$ 1,2 bilh\u00e3o em 2023 pela Pesquisa de Mercado Allied, cresce entre colecionadores e pessoas que buscam apoio emocional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, reportagens da Folha de S\u00e3o Paulo e do g1 relatam casos curiosos, como pessoas levando essas bonecas ao Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), al\u00e9m de debates sobre os benef\u00edcios terap\u00eauticos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A vida em fam\u00edlia<\/h2>\n\n\n\n<p>Para ilustrar como essa humaniza\u00e7\u00e3o se manifesta no dia a dia, conversamos com Lucas Lins, um m\u00e9dico de 24 anos, que trata a cachorra pug, Jurema Josefina, como uma verdadeira filha. \u201cA Jurema \u00e9 a nossa cachorrinha da ra\u00e7a pug, uma companheirinha que chegou pra encher a casa de amor, alegria e um toque de bagun\u00e7a tamb\u00e9m\u201d, conta Lins, rindo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"987\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO.jpg?resize=740%2C987&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-4839\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO.jpg?resize=768%2C1024&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO.jpg?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO.jpg?w=960&amp;ssl=1 960w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Cadela ama piscinas e possui roupas. Foto: Lucas Lins\/acervo pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Desde filhote, Jurema tem uma rotina digna de princesa: roupinhas, brinquedos, cama fofinha e at\u00e9 festas de anivers\u00e1rio com bolo, vela e bal\u00f5es. \u201cFizemos tudo isso quando ela completou 1 aninho. E claro que ela usou a famosa roupinha da Minnie, toda orgulhosa\u201d, diz, com entusiasmo.<\/p>\n\n\n\n<p>A humaniza\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m: Jurema tem at\u00e9 um Instagram criado especialmente para ela, embora pouco usado. O m\u00e9dico descreve rituais di\u00e1rios, como banhos com shampoo, condicionador e col\u00f4nia, que geravam reclama\u00e7\u00f5es do pai, pela despesa. \u201cComo todo pug, a Jurema solta muito p\u00ealo! Teve uma vez que compramos um tira-pelos e nos assustamos com a quantidade absurda que saiu. Achamos que tinha algo errado, mas era s\u00f3 mais um \u2018presente\u2019 cl\u00e1ssico da ra\u00e7a\u201d, brinca ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jurema tamb\u00e9m tem prefer\u00eancias e manias humanizadas: come de tudo, menos banana, que rejeita com uma virada de focinho. Na inf\u00e2ncia, era um \u201cfurac\u00e3o\u201d que ro\u00eda m\u00f3veis como um castor, mas agora \u00e9 \u201cuma mo\u00e7a calma e comportada\u201d, destaca o tutor.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"435\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO2.jpg?resize=740%2C435&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-4838\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO2.jpg?w=1005&amp;ssl=1 1005w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO2.jpg?resize=300%2C176&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO2.jpg?resize=768%2C452&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Jurema possui uma carteira de identidade. Imagem: cedida<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A esperteza inclui escapar de coleiras como uma \u201cninja canina\u201d e aventuras como fugir pela rua em dia de chuva, obrigando a fam\u00edlia a uma ca\u00e7ada molhada. \u201cHoje a gente lembra disso rindo, mas na hora foi puro desespero\u201d, admite Lins. E para completar, Jurema ama piscinas, e nada semanalmente, sob supervis\u00e3o constante.<\/p>\n\n\n\n<p>Hist\u00f3rias como a de Jurema mostram como pets se tornam \u201cfilhos substitutos\u201d, especialmente entre jovens adultos solteiros, casais sem filhos ou idosos, o que fortalece v\u00ednculos afetivos e impulsiona o mercado pet.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"987\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO6.jpg?resize=740%2C987&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-4834\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO6.jpg?resize=768%2C1024&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO6.jpg?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO6.jpg?w=960&amp;ssl=1 960w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Desde filhote, Jurema tem uma rotina digna de princesa<\/em>. <em>Foto: Lucas Lins\/acervo pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Benef\u00edcios, riscos e limites<\/h2>\n\n\n\n<p>Para entender o que motiva essa proje\u00e7\u00e3o de sentimentos humanos em animais ou objetos, consultamos a psic\u00f3loga e neuropsic\u00f3loga Samara Pinheiro, docente universit\u00e1ria e coordenadora da se\u00e7\u00e3o Acre do Conselho de Psicologia, com abordagem em psican\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ela, o fen\u00f4meno est\u00e1 ligado a proje\u00e7\u00f5es afetivas inconscientes, baseadas em conceitos como objetos transicionais, inspirados em teorias como a de Winnicott. \u201cAs pessoas projetam algo naquele objeto, que elas gostariam muito que fosse com elas. Por exemplo, eu projeto um carinho, um amor com um animal de uma forma que eu gostaria de ser tratado ali por figuras que cuidaram de mim\u201d, explica Pinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses objetos, sejam animais, beb\u00eas <em>reborn<\/em> ou IAs como o ChatGPT,&nbsp; funcionam como substitutos para rela\u00e7\u00f5es frustrantes na inf\u00e2ncia, oferecendo seguran\u00e7a e consolo sem medo de rejei\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDesde crian\u00e7as, criamos v\u00ednculos com objetos transicionais, como um cobertor ou brinquedo, que d\u00e3o seguran\u00e7a quando o cuidador se ausenta. Na vida adulta, isso se substitui por animais, bonecos ou intera\u00e7\u00f5es com IA, representando um espa\u00e7o seguro onde a pessoa pode amar, cuidar e ser compreendida sem conflito\u201d, enfatiza a especialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os benef\u00edcios, ela destaca o apoio emocional, proporcionando conforto, seguran\u00e7a e sensa\u00e7\u00e3o de companhia. \u201cPode reduzir ansiedade, depress\u00e3o ou estresse, auxiliando na regula\u00e7\u00e3o ps\u00edquica\u201d, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, facilita elabora\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, servindo como ponte entre o mundo interno e externo, ajudando a lidar com perdas ou transi\u00e7\u00f5es. Para pets, h\u00e1 um retorno real de carinho, diferentemente de objetos inanimados. Experi\u00eancias de cuidado tamb\u00e9m refor\u00e7am capacidades afetivas, como proteger e preocupar-se.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, os riscos s\u00e3o evidentes. \u201cPode levar a um empobrecimento relacional, onde as pessoas evitam rela\u00e7\u00f5es humanas por medo de frustra\u00e7\u00e3o e imprevisibilidade\u201d, alerta a psic\u00f3loga. Isso pode resultar em isolamento social, fixa\u00e7\u00e3o narc\u00edsica (onde o afeto \u00e9 unilateral) e dificuldade em elaborar conflitos reais. \u201cO animal pode dar devolutiva, mas objetos como o ChatGPT n\u00e3o oferecem manejo cl\u00ednico genu\u00edno\u201d, pontua.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Perigo do isolamento<\/h2>\n\n\n\n<p>A humaniza\u00e7\u00e3o deixa de ser saud\u00e1vel quando perde sua fun\u00e7\u00e3o transicional e vira fuga da realidade. \u201cQuando a pessoa se isola, evitando contatos humanos como defesa contra o sofrimento, cai em um mundo fantasioso sem conflitos, perdendo a capacidade de lidar com o real\u201d, esclarece a psic\u00f3loga.<\/p>\n\n\n\n<p>Pinheiro atribui o est\u00edmulo social a fatores como solid\u00e3o moderna, \u201cv\u00ednculos l\u00edquidos\u201d e influ\u00eancia do mercado. \u201cO mercado oferece alternativas para demandas afetivas, como animais tratados como filhos ou assistentes virtuais, promovendo afei\u00e7\u00e3o sem conflito. Redes sociais, com curtidas no Instagram, tamb\u00e9m refor\u00e7am isso\u201d, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre preencher car\u00eancias emocionais, ela nota: \u201cSim, servem como repara\u00e7\u00e3o e tentativa de controle, vindos de faltas na inf\u00e2ncia como rejei\u00e7\u00e3o. Mas preencher n\u00e3o \u00e9 elaborar. Se o afeto n\u00e3o se desloca para v\u00ednculos reais, o vazio permanece adormecido, podendo explodir em crises quando o \u2018objeto\u2019 falha\u201d, conclui a especialista.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Humaniza\u00e7\u00e3o de animais e objetos podem representar uma busca por conex\u00f5es emocionais em tempos de solid\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":4833,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[3],"tags":[147,40,8,47],"coauthors":[136],"class_list":["post-4832","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-corriqueiras","tag-a-catraia","tag-acre","tag-destaque","tag-ufac"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUMANIZACAO7-scaled.jpg?fit=2560%2C2560&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4832","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4832"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4832\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4840,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4832\/revisions\/4840"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4833"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4832"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4832"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4832"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=4832"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}