{"id":4813,"date":"2025-08-29T15:03:49","date_gmt":"2025-08-29T20:03:49","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=4813"},"modified":"2025-08-29T15:03:50","modified_gmt":"2025-08-29T20:03:50","slug":"as-diferencas-de-genero-nas-mortes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=4813","title":{"rendered":"As diferen\u00e7as de g\u00eanero nas mortes"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Gabriela Fintelman e Nat\u00e1lia Lindoso\u00a0<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica 2025 revelou um dado chocante: 64,3% dos feminic\u00eddios acontecem dentro da pr\u00f3pria casa da v\u00edtima. J\u00e1 entre as mortes violentas intencionais, mais de 90% das v\u00edtimas s\u00e3o homens, e quase 58% desses assassinatos ocorrem em via p\u00fablica. Essa diferen\u00e7a exp\u00f5e uma realidade cruel: as mulheres morrem principalmente no lar, e os homens, nas ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a delegada Juliana de Angelis, da Delegacia Especializada de Atendimento \u00e0 Mulher (DEAM), a casa, longe de ser um espa\u00e7o seguro, \u00e9 para muitas mulheres o local de maior risco. \u201cA sociedade patriarcal legitima rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o masculina e encara o espa\u00e7o dom\u00e9stico como territ\u00f3rio privado do homem, onde ele exerce controle e poder sobre a mulher\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"494\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2.png?resize=740%2C494&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-4817\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2.png?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2.png?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2.png?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Juliana de Angelis. Foto: Dh\u00e1rcules Pinheiro\/Sejusp<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Muitas mulheres vivem depend\u00eancia emocional, econ\u00f4mica ou parental em rela\u00e7\u00e3o ao agressor, o que cria barreiras para romper o ciclo de viol\u00eancia. Esse ciclo segue tr\u00eas fases: tens\u00e3o crescente, explos\u00e3o violenta e uma fase de \u201clua de mel\u201d ou reconcilia\u00e7\u00e3o, um padr\u00e3o que se repete e naturaliza a viol\u00eancia no cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>O medo, a vergonha e a desconfian\u00e7a no sistema de justi\u00e7a s\u00e3o motivos comuns para que muitas v\u00edtimas n\u00e3o denunciem. Isso mant\u00e9m os agressores impunes, incentivando a continuidade da viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um caso emblem\u00e1tico em Natal (RN) ilustra esse cen\u00e1rio, o registro em c\u00e2meras de uma mulher agredida com mais de 60 socos. Tudo indica o perfil t\u00edpico de viol\u00eancia de g\u00eanero no espa\u00e7o dom\u00e9stico: o agressor era namorado da v\u00edtima, a agress\u00e3o ocorreu no elevador do condom\u00ednio, havia hist\u00f3rico de relacionamento conturbado e as agress\u00f5es foram motivadas por ci\u00fames e posse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O Acre no padr\u00e3o nacional<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No Acre, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 preocupante. Segundo o Atlas da Viol\u00eancia, o estado apresenta uma das maiores taxas proporcionais de feminic\u00eddio no Brasil. A Delegacia Especializada de Atendimento \u00e0 Mulher (DEAM) em Rio Branco informou que mais de 70% das ocorr\u00eancias registradas acontecem dentro do lar da v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados locais confirmam que as v\u00edtimas s\u00e3o, em sua maioria, mulheres jovens, pardas e negras, envolvidas em relacionamentos afetivos com os agressores. Muitas delas j\u00e1 relataram amea\u00e7as anteriores, refor\u00e7ando o padr\u00e3o de escalada da viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n\n\n\n<p>A Pol\u00edcia Civil do Acre disponibiliza relat\u00f3rios mensais com estat\u00edsticas que detalham esses casos, ressaltando a urg\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas para o combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"493\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-1.png?resize=740%2C493&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-4816\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-1.png?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-1.png?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-1.png?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Faixada Deam. Foto: Neto Lucena\/Secom<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ra\u00e7a e g\u00eanero<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Interseccionalidade \u00e9 um conceito que analisa como diferentes grupos sociais, como ra\u00e7a, g\u00eanero, classe, orienta\u00e7\u00e3o sexual, entre outros, se cruzam e interagem, criando experi\u00eancias \u00fanicas de discrimina\u00e7\u00e3o ou privil\u00e9gio.<\/p>\n\n\n\n<p>A advogada criminalista e militante L\u00facia Ribeiro destaca que as mulheres negras s\u00e3o as mais afetadas pela viol\u00eancia dom\u00e9stica e pelo feminic\u00eddio no Brasil. Dados do Dossi\u00ea Feminic\u00eddio e do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade mostram que mulheres negras t\u00eam duas vezes mais chance de serem assassinadas que mulheres brancas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 2003 e 2013, enquanto o n\u00famero de homic\u00eddios de mulheres brancas caiu quase 10%, os homic\u00eddios de mulheres negras aumentaram mais de 54%. Al\u00e9m disso, a maioria das v\u00edtimas de viol\u00eancia obst\u00e9trica e mortalidade materna tamb\u00e9m s\u00e3o negras, indicando que o racismo estrutural atravessa diversas formas de viol\u00eancia e exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Especialistas apontam que o racismo, aliado ao sexismo, cria camadas de discrimina\u00e7\u00e3o que dificultam o acesso das mulheres negras a direitos, servi\u00e7os p\u00fablicos e justi\u00e7a. \u201cO racismo \u00e9 um fen\u00f4meno ideol\u00f3gico que justifica a hierarquiza\u00e7\u00e3o social e a exclus\u00e3o das mulheres negras da cidadania plena\u201d, afirma Ana Carolina Querino, do ONU Mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>A soci\u00f3loga Luiza Bairros lembra que o racismo e o sexismo est\u00e3o no DNA da sociedade brasileira e que, sem a an\u00e1lise da interseccionalidade, pol\u00edticas universais dificilmente avan\u00e7am no combate \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Invisibilidade pol\u00edtica<\/h3>\n\n\n\n<p>Apesar de as estat\u00edsticas mostrarem a predomin\u00e2ncia da popula\u00e7\u00e3o negra entre as v\u00edtimas, L\u00facia Ribeiro alerta para a invisibilidade pol\u00edtica dessa realidade. Para transformar o cen\u00e1rio, \u00e9 fundamental aumentar a presen\u00e7a de pessoas negras em espa\u00e7os de gest\u00e3o p\u00fablica e privada e criar planos de enfrentamento que considerem as m\u00faltiplas vulnerabilidades.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-3.png?resize=683%2C1024&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-4818\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-3.png?resize=683%2C1024&amp;ssl=1 683w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-3.png?resize=200%2C300&amp;ssl=1 200w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-3.png?w=694&amp;ssl=1 694w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>L\u00facia Ribeiro. Foto: cedida<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nilza Iraci, do Instituto Geled\u00e9s, destaca que \u201co racismo institucional e a desigualdade de g\u00eanero produzem a falta de acesso ou acesso de menor qualidade aos servi\u00e7os e direitos para a popula\u00e7\u00e3o negra, perpetuando desigualdades estruturais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia letal contra homens e mulheres revela que a seguran\u00e7a p\u00fablica precisa ser pensada de forma segmentada, considerando as diferentes din\u00e2micas que exp\u00f5em cada grupo aos riscos.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso das mulheres, a compreens\u00e3o do racismo estrutural, da domina\u00e7\u00e3o patriarcal e da interseccionalidade \u00e9 fundamental para elaborar pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes que realmente protejam as v\u00edtimas e punam os agressores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Canais de ajuda<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O primeiro passo em dire\u00e7\u00e3o ao pedido de ajuda \u00e9 desafiador, mas tamb\u00e9m necess\u00e1rio. Romper com o ciclo da viol\u00eancia \u00e9 um ato de coragem que pode trazer de volta a seguran\u00e7a para dentro de casa. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sozinha.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As v\u00edtimas podem procurar ajuda na Delegacia Especializada de Atendimento \u00e0 Mulher (DEAM) pelo telefone (68) 3221-4799.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m podem entrar em contato com a Central de atendimento \u00e0 Mulher pelo Disque 180 ou com a Pol\u00edcia Militar do Acre (PM &#8211; AC) atrav\u00e9s do 190.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras op\u00e7\u00f5es de atendimento incluem o Centro de Atendimento \u00e0 V\u00edtima (CAV), no telefone (68) 9999-34701, a Secretaria de Estado da Mulher (Semulher), pelo n\u00famero (68) 99605-0657 e a Casa Rosa Mulher no (68) 3221-0826.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viol\u00eancia das ruas atinge a maioria dos homens, para muitas mulheres o lar n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de seguran\u00e7a. Foto: Jo\u00e9dson Alves\/Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":4814,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[3],"tags":[158,8,47],"coauthors":[136],"class_list":["post-4813","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-corriqueiras","tag-cotidiano","tag-destaque","tag-ufac"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image.png?fit=1170%2C700&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4813","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4813"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4813\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4819,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4813\/revisions\/4819"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4813"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4813"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4813"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=4813"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}