{"id":4347,"date":"2025-03-19T11:55:01","date_gmt":"2025-03-19T16:55:01","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=4347"},"modified":"2025-03-19T11:55:05","modified_gmt":"2025-03-19T16:55:05","slug":"da-seringa-aos-sapatos-a-tradicao-de-uma-profissao-quase-esquecida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=4347","title":{"rendered":"Da seringa aos sapatos: a tradi\u00e7\u00e3o de uma profiss\u00e3o quase esquecida"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>De Amanda Silva e Francisca Samiele<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ouvindo m\u00fasica em um antigo toca-fitas, Rosemildo Alves de Sousa, de 64 anos, segue concentrado no conserto de um sapato enquanto a cliente espera do outro lado do balc\u00e3o, admirando sua habilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na parede atr\u00e1s dele, est\u00e3o alguns objetos pendurados, entre eles um bule e um boneco do papai noel, que ele justifica: \u201cMe considero ainda uma crian\u00e7a, porque tudo que \u00e9 de crian\u00e7a eu acho bonito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada item carrega uma hist\u00f3ria. O bule que tem mais de 69 anos foi encontrado na mata. Mas o que mais chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 uma machadinha, que ele diz guardar por ser igual a que o pai usava quando era soldado da borracha.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"555\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6371.png?resize=740%2C555&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-4348\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6371.png?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6371.png?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6371.png?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6371.png?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6371.png?resize=2048%2C1536&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6371.png?w=1480&amp;ssl=1 1480w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6371.png?w=2220&amp;ssl=1 2220w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><figcaption>Foto:Amanda Silva\/ Francisca Samiele<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ele conta que quando era menino n\u00e3o tinha como tirar fotos,&nbsp; e por isso guarda alguns desses objetos como mem\u00f3ria. E tamb\u00e9m que s\u00f3 trabalha ouvindo os programas radiof\u00f4nicos, e ouve todos os tipos: \u201cEu sou viciado em r\u00e1dio, escuto todo dia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 64 anos, o sapateiro \u00e9 um guardi\u00e3o de grandes hist\u00f3rias. Filho do seringueiro Francisco Gon\u00e7alves da Silva, que veio do Nordeste para o Acre em 1942, recrutado como soldado da borracha, no per\u00edodo da 2\u00aa Guerra Mundial. Ap\u00f3s a chegada ao estado, conheceu a m\u00e3e de Rosemildo, Idal\u00e9cia Alves. \u201cA primeira mulher que ele namorou, ele casou. Com minha m\u00e3e\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Rosemildo cresceu no Seringal Iracema, \u00e0s margens do Rio Acre. Ribeirinho, aprendeu a nadar muito cedo.\u201cVixe! Eu ia morrendo afogado duas vezes\u201d, recorda com uma risada. Ainda crian\u00e7a, aos 12 anos, come\u00e7ou a auxiliar o pai na coleta do l\u00e1tex. \u201cDa seringa eu sei de tudo\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Da \u00e9poca ele diz gostar do trabalho, porque era uma das poucas divers\u00f5es de muitas crian\u00e7as do seringal. \u201cN\u00e3o tinha muita brincadeira, trabalhar era o que tinha\u201d, conta. Pelo fato de n\u00e3o ter escola no local, acompanhar o pai era uma maneira de ocupar-se, \u201cN\u00e3o estudava porque n\u00e3o tinha escola\u201d, enfatiza.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosemildo s\u00f3 conseguiu se alfabetizar aos 25 anos. Com exce\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, todos da fam\u00edlia eram analfabetos. Ele se culpa por n\u00e3o ter continuado os estudos, mas diz que conciliar a vida de estudante com o trabalho era muito dif\u00edcil, e desistiu da escola antes de concluir o ensino fundamental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O profissional diz que se tivesse outra chance, sua vida seria outra. \u201cSe eu nascesse de novo, [\u2026] eu queria ser um m\u00e9dico, ou ent\u00e3o advogado, para defender as causas. Eu vejo muita injusti\u00e7a\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O in\u00edcio da profiss\u00e3o de sapateiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Alguns anos ap\u00f3s o per\u00edodo de extra\u00e7\u00e3o da borracha a fam\u00edlia se mudou para a cidade. Rosemildo conta que o pai n\u00e3o ficou muito feliz com a mudan\u00e7a. \u201cEle era acostumado no interior, n\u00e9? N\u00f3s todos, n\u00e3o era s\u00f3 ele n\u00e3o\u201d. Na \u00e9poca a fam\u00edlia n\u00e3o tinha muita expectativa com a vida na zona urbana.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosemildo, aos 18 anos, conheceu Manoel Oliveira de Lima, que era um sapateiro conhecido do bairro Quinze. Ele convidou Rosemildo para ser seu ajudante na sapataria. Por dia, fabricavam dez pares de botinas ou sand\u00e1lias, come\u00e7ando do zero, al\u00e9m da manuten\u00e7\u00e3o dos cal\u00e7ados de clientes que chegavam. \u201cAprendi tudo, na pr\u00e1tica\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"555\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/1.png?resize=740%2C555&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-4349\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/1.png?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/1.png?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/1.png?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/1.png?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/1.png?resize=2048%2C1536&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/1.png?w=1480&amp;ssl=1 1480w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/1.png?w=2220&amp;ssl=1 2220w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><figcaption>Foto:Amanda Silva\/ Francisca Samiele<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Depois de certo tempo, Rosemildo teve vontade de voltar para o interior. Mas o mentor lhe fez uma proposta: \u201cRapaz, vou abrir um neg\u00f3cio acol\u00e1,&nbsp; voc\u00ea poderia ficar l\u00e1?\u201d foi ent\u00e3o que ele resolveu ficar e permanece trabalhando no mesmo lugar h\u00e1 16 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ser indagado sobre o que acha do futuro da profiss\u00e3o, ele responde que a atividade est\u00e1 se perdendo e a procura pelo servi\u00e7o diminuiu muito nos \u00faltimos anos. A falta de material \u00e9 um grande obst\u00e1culo, principalmente pela log\u00edstica. E os sapatos de hoje n\u00e3o t\u00eam durabilidade. Para complementar a renda tamb\u00e9m vende Acrecap&nbsp; e mel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hist\u00f3ria de sapateiro&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A sapataria ganhou o nome de Santa M\u00f4nica anos depois, em homenagem \u00e0 comunidade de mesmo nome, no bairro da Bahia. Seu Rosemildo disse que a profiss\u00e3o j\u00e1 lhe rendeu algumas hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>A mais inusitada foi de uma mulher que, mesmo sabendo que ele era sapateiro, solicitou um servi\u00e7o diferente. \u201cTeve uma mulher que chegou com a sacola cheia de calcinhas para remendar [\u2026] falei que n\u00e3o se costurava roupas. Naquele dia eu ri\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns clientes levam os sapatos e s\u00f3 voltam para buscar ap\u00f3s um ano. Quando passa muito tempo, normalmente ele doa os cal\u00e7ados para projetos das igrejas ou para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"555\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6394.png?resize=740%2C555&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-4351\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6394.png?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6394.png?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6394.png?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6394.png?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6394.png?resize=2048%2C1536&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6394.png?w=1480&amp;ssl=1 1480w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6394.png?w=2220&amp;ssl=1 2220w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><figcaption>Foto:Amanda Silva\/ Francisca Samiele<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Apesar das adversidades, Rosemildo Alves de Souza, segue com um sorriso no rosto, agradecendo a Deus e se orgulhando do of\u00edcio que escolheu: \u201cMe orgulho de ser sapateiro, n\u00e3o tenho vergonha. \u00c9 meu ganha-p\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De Amanda Silva e Francisca Samiele Ouvindo m\u00fasica em um antigo toca-fitas, Rosemildo Alves de Sousa, de 64 anos, segue concentrado no conserto de um sapato enquanto a cliente espera do outro lado do balc\u00e3o, admirando sua habilidade. Na parede atr\u00e1s dele, est\u00e3o alguns objetos pendurados, entre eles um bule e um boneco do papai [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":4350,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[6],"tags":[8],"coauthors":[136],"class_list":["post-4347","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-margens","tag-destaque"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_6392.png?fit=4032%2C3024&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4347","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4347"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4347\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4353,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4347\/revisions\/4353"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4350"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4347"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=4347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}