{"id":4341,"date":"2025-03-18T12:00:00","date_gmt":"2025-03-18T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=4341"},"modified":"2025-03-21T13:27:07","modified_gmt":"2025-03-21T18:27:07","slug":"resistencia-e-educacao-os-desafios-de-um-estudante-indigena-na-ufac","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=4341","title":{"rendered":"Resist\u00eancia e Educa\u00e7\u00e3o: os desafios de um estudante ind\u00edgena na Ufac"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Por Pedro Amorim e Gabriela Fintelman<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cl\u00e9cio Ferreira Nunes, 23 anos, \u00e9 estudante da Universidade Federal do Acre (Ufac) onde cursa mestrado em Letras, Linguagem e Identidade e gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo. De etnia Huni Kuin, povo que habita o Acre e o Peru, Cl\u00e9cio tamb\u00e9m \u00e9 formado, pela Ufac, em Letras Ingl\u00eas, na institui\u00e7\u00e3o enfrenta desafios que v\u00e3o desde a falta de representatividade at\u00e9 a persist\u00eancia de estere\u00f3tipos no ambiente acad\u00eamico. A trajet\u00f3ria mostra as dificuldades enfrentadas por estudantes ind\u00edgenas em uma institui\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o est\u00e1 plenamente preparada para receb\u00ea-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A descoberta da identidade ind\u00edgena na universidade&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando ingressou no curso de Letras Ingl\u00eas, ele ainda n\u00e3o se reconhecia plenamente como ind\u00edgena. Essa percep\u00e7\u00e3o externa, somada \u00e0 imagem distorcida dos ind\u00edgenas perpetuada pelos livros did\u00e1ticos, dificultava a autoaceita\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&#8220;Eu era, e ainda sou muito estereotipado, com as caracter\u00edsticas de pessoas orientais. As pessoas, quando olham para mim, a maioria, 90% dos casos, fazem uma compara\u00e7\u00e3o com uma pessoa chinesa, japonesa, enfim, algu\u00e9m da \u00c1sia. Minha m\u00e3e falava que a gente era ind\u00edgena, mas a vis\u00e3o que eu tinha da escola era aquela do ind\u00edgena selvagem, primitivo, pregui\u00e7oso. Eu n\u00e3o me via daquele jeito&#8221;, explica.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi apenas ap\u00f3s dois anos na universidade que come\u00e7ou a se reconhecer como Huni Kuin. Esse processo de autoconhecimento foi fundamental para que passasse a questionar a aus\u00eancia de outros ind\u00edgenas na Ufac.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Eu fui come\u00e7ando a ter essa vis\u00e3o que minha m\u00e3e sempre teve de pessoa ind\u00edgena, e n\u00e3o aquela que sempre me foi passada. No curso de Letras Ingl\u00eas, eu era o \u00fanico ind\u00edgena. Em dois anos e meio, eu n\u00e3o vi um ind\u00edgena ali na Ufac como graduando&#8221;, relembra.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Desafios da entrada e perman\u00eancia na universidade&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos primeiros obst\u00e1culos enfrentados por Nunes, foi ingressar na universidade por ampla concorr\u00eancia, sem conhecimento sobre as cotas para ind\u00edgenas. A falta de informa\u00e7\u00e3o, segundo ele, \u00e9 uma barreira que afeta muitos estudantes minorizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Eu n\u00e3o sabia da exist\u00eancia de cotas. Essas informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram repassadas, nem na escola. Quantas pessoas n\u00e3o sabem disso? Quantas pessoas minorizadas n\u00e3o t\u00eam esse acesso?&#8221;, questiona.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A solid\u00e3o tamb\u00e9m foi um desafio constante. Apesar disso, Cl\u00e9cio encontrou apoio em programas de bolsas e aux\u00edlios, como a Bolsa Perman\u00eancia, iniciativa do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), que oferece suporte financeiro a estudantes ind\u00edgenas e quilombolas. No entanto, ele ressalta que a perman\u00eancia na universidade vai al\u00e9m da quest\u00e3o financeira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Eu me sentia muito s\u00f3 nesse sentido de pessoa ind\u00edgena dentro de um espa\u00e7o acad\u00eamico. A Ufac, \u00e0s vezes, pensa muito na entrada do ind\u00edgena, mas e a perman\u00eancia? Esse ind\u00edgena veio de onde? Ele tem como se manter financeiramente, emocionalmente, psicologicamente?&#8221;, reflete.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A luta por visibilidade e inclus\u00e3o&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inclus\u00e3o de ind\u00edgenas na Ufac tem sido uma conquista recente e \u00e1rdua. Clecio faz parte do Coletivo dos Estudantes Ind\u00edgenas da Ufac (CeiUfac), que liderou a luta pela aprova\u00e7\u00e3o de uma vaga em cada curso de gradua\u00e7\u00e3o para ind\u00edgenas. A medida, aprovada pelo Conselho Universit\u00e1rio (Consu), representa um avan\u00e7o, mas ainda h\u00e1 muito a ser feito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&#8220;Foi uma luta bastante \u00e1rdua. N\u00e3o foi nada f\u00e1cil. Agora a gente vai ter pelo menos um ind\u00edgena em cada curso. Isso aumenta a diversidade \u00e9tnica dentro da universidade&#8221;, comemora.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, a inclus\u00e3o n\u00e3o se resume \u00e0 presen\u00e7a f\u00edsica. O estudante critica a falta de discuss\u00f5es sobre pautas ind\u00edgenas nos cursos. Ele tamb\u00e9m destaca a persist\u00eancia de estere\u00f3tipos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Dificilmente a gente v\u00ea um curso de sa\u00fade discutindo algo relacionado a ind\u00edgenas. Dificilmente a gente v\u00ea um curso de letras discutindo sobre ind\u00edgenas. As pessoas ainda t\u00eam essa vis\u00e3o do ind\u00edgena do livro did\u00e1tico, do selvagem, do que anda com uma tanguinha&#8221;, diz.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iniciativas de apoio e a necessidade de avan\u00e7os&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar dos desafios, o jovem reconhece iniciativas positivas, como o Programa de Educa\u00e7\u00e3o Tutorial (PET) Conex\u00e3o e Saberes Comunidades Ind\u00edgenas, do qual faz parte. O programa promove atividades como o Abril Ind\u00edgena, que leva discuss\u00f5es sobre culturas ind\u00edgenas a escolas p\u00fablicas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O PET apoia bastante as iniciativas dos alunos ind\u00edgenas, principalmente na escrita acad\u00eamica e na discuss\u00e3o de quest\u00f5es ind\u00edgenas&#8221;, explica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, ele defende a necessidade de mais apoios, especialmente emocionais. Para ele, a universidade precisa ir al\u00e9m do suporte financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&#8220;Muitos estudantes ind\u00edgenas t\u00eam o portugu\u00eas como segunda l\u00edngua. H\u00e1 dificuldades na leitura e na escrita. \u00c9 preciso ter um apoio emocional, um apoio com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escrita, \u00e0 perman\u00eancia&#8221;, afirma.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Um futuro de resist\u00eancia e conquistas&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria do estudante na Ufac \u00e9 de resist\u00eancia e supera\u00e7\u00e3o. Ele enfrentou os desafios de ser um estudante ind\u00edgena em um ambiente ainda pouco inclusivo, e tamb\u00e9m se tornou uma voz ativa na luta por mais visibilidade e direitos para os povos origin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;\u201cA universidade n\u00e3o foi constru\u00edda para receber as pessoas minorizadas, mas estamos aqui, resistindo e conquistando nosso espa\u00e7o. \u00c9 preciso naturalizar a presen\u00e7a ind\u00edgena na universidade e quebrar os estere\u00f3tipos que ainda est\u00e3o t\u00e3o enraizado\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro Amorim e Gabriela Fintelman Cl\u00e9cio Ferreira Nunes, 23 anos, \u00e9 estudante da Universidade Federal do Acre (Ufac) onde cursa mestrado em Letras, Linguagem e Identidade e gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo. De etnia Huni Kuin, povo que habita o Acre e o Peru, Cl\u00e9cio tamb\u00e9m \u00e9 formado, pela Ufac, em Letras Ingl\u00eas, na institui\u00e7\u00e3o enfrenta [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":4368,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[8,47],"coauthors":[136],"class_list":["post-4341","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-rotas","tag-destaque","tag-ufac"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image_processing20210223-6380-sz45pl-750x536-1.jpeg?fit=750%2C536&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4341","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4341"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4341\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4346,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4341\/revisions\/4346"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4368"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4341"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=4341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}