{"id":3737,"date":"2024-01-26T11:00:00","date_gmt":"2024-01-26T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=3737"},"modified":"2024-02-22T16:11:37","modified_gmt":"2024-02-22T21:11:37","slug":"uma-vida-entre-rios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=3737","title":{"rendered":"Uma vida entre rios"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Sarah Helena e T\u00e1cila Matos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No bairro Tucum\u00e3, entre dois dos 11 filhos, mora a grandiosa matriarca de 1,50 cm da fam\u00edlia Brito. Ela leva uma vida tranquila e sossegada, aproveita a idade avan\u00e7ada para fazer o que gosta: cuidar de suas t\u00e3o queridas plantas, ir \u00e0 igreja cultivar sua f\u00e9 e desfrutar da fam\u00edlia que tanto ama. Hoje, \u00e9 grata pela paz e estabilidade de sua vida, mas quem v\u00ea essa senhorinha t\u00e3o calada e serena n\u00e3o imagina todas as dificuldades que ela j\u00e1 viveu e superou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 Helena Soares de Brito, ou melhor, Dona Irene, como \u00e9 chamada desde pequena e conhecida por todos; mas ao ser perguntada sobre o mist\u00e9rio dos dois nomes, ela diz \u201cMeu bem, a\u00ed \u00e9 uma resposta que eu n\u00e3o sei nem responder\u201d. Mas com certeza esse nome lhe serve bem, visto que Irene, do Grego, significa \u201ca Pacificadora\u201d, encaixando muit\u00edssimo com sua personalidade calma e singela.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A Trajet\u00f3ria &#8211; Do Rio Ir\u00fa a Rio Branco<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela nasceu em uma comunidade \u00e0s margens do Rio Ir\u00fa, pr\u00f3ximo a cidade de Eirunep\u00e9, no Amazonas, no ano de 1936. E a\u00ed come\u00e7ou a trajet\u00f3ria de adversidades da pequena Irene. Apesar de ser relutante em se abrir sobre a inf\u00e2ncia, ela afirma em voz baixa, quase que num sussurro, que o in\u00edcio de sua vida foi muito dif\u00edcil. \u201cPerdi meu pai muito cedo\u201d, por volta dos cinco anos de idade, diz. E emociona-se por n\u00e3o ter mem\u00f3rias com ele. Pouco tempo depois, a m\u00e3e, chamada Francisca Soares de Lima, casou-se novamente, levando Irene e suas irm\u00e3s, Regina e Maria,&nbsp;para morar no Seringal Aurora, no Vale do Juru\u00e1, agora adentrando o estado do Acre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde muito pequena aprendeu a trabalhar em ro\u00e7ados para ajudar a fam\u00edlia, mesmo assim, a m\u00e3e encontrava dificuldades para criar as tr\u00eas filhas. Ent\u00e3o, aos 8 anos de idade, Irene e suas irm\u00e3s mudaram-se e foram morar com fam\u00edlias distintas, por decis\u00e3o da m\u00e3e. Situa\u00e7\u00e3o comum para a \u00e9poca, na qual os pais \u201cdavam\u201d os filhos para serem criados por outras pessoas, devido \u00e0 dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o financeira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, Irene seguiu o fluxo do Rio Juru\u00e1, chegando ao Seringal Tr\u00eas Bocas, onde morou com Francisco Regino de Brito e Idalina Mendes Guimar\u00e3es, donos do local, e seus filhos, durante o restante de sua inf\u00e2ncia e toda a adolesc\u00eancia. Dentre os 11 filhos do casal, Rui Guimar\u00e3es de Brito foi escolhido para casar-se com Irene, com quem construiu sua fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando se casou com Rui, ele era dono da chamada Coloca\u00e7\u00e3o das Gaivotas, ou seja, uma propriedade dentro do Seringal Tr\u00eas Bocas, que pertencia a seu pai. Dessa forma, l\u00e1 estabeleceram-se: Rui, sendo o patr\u00e3o dos neg\u00f3cios de extra\u00e7\u00e3o da seringa e produ\u00e7\u00e3o da borracha, e Irene, continuando com o trabalho no ro\u00e7ado e cria\u00e7\u00e3o de animais. O casal teve ao todo 13 filhos, mas dois faleceram ainda durante a inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dona Irene sempre manteve uma grande preocupa\u00e7\u00e3o sobre o futuro dos seus filhos, queria que estudassem e adquirissem uma educa\u00e7\u00e3o para terem a possibilidade de uma vida melhor, tendo em vista toda a dificuldade que passou durante a inf\u00e2ncia no seringal. Mas sua apreens\u00e3o era voltada de modo especial \u00e0s filhas: \u201ceu dizia pras meninas, pra elas estudarem pra nunca serem dependentes de marido, porque n\u00e3o \u00e9 todo marido que quer dividir o dinheiro dele com a mulher\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, tomou a decis\u00e3o de mandar os filhos para Cruzeiro do Sul, cidade do Alto Juru\u00e1, no Acre, para que estudassem e, assim, pudessem conquistar uma vida melhor e mais est\u00e1vel. Quem a apoiou durante esse processo foi o cunhado Romeu e sua esposa Magali, que tinham estabilidade e j\u00e1 moravam na cidade. Assim, a primeira filha levada foi Hilma, a mais velha, aos sete anos de idade. E aos poucos, um por um, os demais filhos tamb\u00e9m mudaram-se para a casa dos tios a fim de come\u00e7ar os estudos. Eles retornavam apenas nas f\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando, enfim, restavam apenas os ca\u00e7ulas, Irene tomou a decis\u00e3o de tamb\u00e9m sair do Seringal e acompanhar os filhos na cidade. Apoiada novamente por Romeu, ela partiu com as crian\u00e7as de navio, enquanto Rui permaneceu na Coloca\u00e7\u00e3o das Gaivotas para conseguir recursos para construir uma casa na nova morada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Cruzeiro do Sul, trabalhou como costureira, of\u00edcio que aprendeu ainda crian\u00e7a fazendo roupas para suas bonecas, al\u00e9m da perman\u00eancia no ro\u00e7ado. E dessa forma ajudou no sustento da fam\u00edlia. Logo mais, seus filhos, j\u00e1 maiores, come\u00e7aram a trabalhar como bab\u00e1, em constru\u00e7\u00f5es, vendendo comidas, etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar das diversas dificuldades que passou na vida, ela se sente muito feliz de ver todos seus filhos bem. E afirma que o que a manteve \u201cde p\u00e9\u201d durante sua trajet\u00f3ria dif\u00edcil foi a f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u201dEu vi Nossa Senhora\u201d<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por volta dos 12 anos, Irene foi morar com uma das filhas de Francisco Regino e Idalina, Riselda,que casou-se e saiu do \u201cbarrac\u00e3o\u201d onde a fam\u00edlia vivia para morar com o marido em uma casa pequena, de apenas um c\u00f4modo, que ficava mais distante da instala\u00e7\u00e3o principal. O marido de Riselda acordava todas as madrugadas para tomar caf\u00e9 e a jovem devia se levantar mais cedo para faz\u00ea-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa madrugada, como de costume, levantou-se, acendeu o fogo, fez o caf\u00e9 e depois que o cunhado havia bebido, ele voltou a deitar-se,&nbsp; apagou o fogo e voltou para sua rede. De repente, uma luz intensa clareou a casa inteira, Irene olhou e viu uma mulher em p\u00e9 ao lado de sua rede olhando para ela, vestida com um vestido branco e um manto azul. Imediatamente a jovem a reconheceu como Nossa Senhora das Gra\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu n\u00e3o fiquei com medo\u201d, ela diz sobre a apari\u00e7\u00e3o, experi\u00eancia que s\u00f3 intensificou sua f\u00e9. Em cada um de seus trabalhos de parto, ela pedia as b\u00ean\u00e7\u00e3os de Nossa Senhora para lhe ajudar, numa \u00e9poca onde n\u00e3o havia qualquer acompanhamento m\u00e9dico para gestantes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Vivendo o sonho<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dona Irene, depois de ver seus filhos terminando o colegial, viu-os tamb\u00e9m, um por um, deixarem a cidade de Cruzeiro do Sul e chegarem \u00e0 Rio Branco em busca de ensino superior. Aos poucos, foram formando suas pr\u00f3prias fam\u00edlias e se estabeleceram na capital. Dessa forma, a m\u00e3e n\u00e3o via mais sentido em permanecer no interior, longe dos filhos e enfim chegou \u00e0 Rio Branco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos poucos a fam\u00edlia cresceu, foram chegando cada vez mais netos e bisnetos. Hoje, a senhorinha de 88 anos leva uma vida muito feliz, rodeada pela fam\u00edlia e afirma que seu sonho foi concedido. \u201cQuando eu morava no seringal, o que eu mais pedia era sair de l\u00e1 e ter uma velhice sossegada\u201d, desejo que, enfim, conquistou.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"736\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/PLACEHOLDER_image2.jpg?resize=740%2C736&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-3738\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/PLACEHOLDER_image2.jpg?w=844&amp;ssl=1 844w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/PLACEHOLDER_image2.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/PLACEHOLDER_image2.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/PLACEHOLDER_image2.jpg?resize=768%2C764&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/PLACEHOLDER_image2.jpg?resize=80%2C80&amp;ssl=1 80w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><figcaption><em>Dona Irene, Rui e os 11 filhos, 2012. Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sarah Helena e T\u00e1cila Matos No bairro Tucum\u00e3, entre dois dos 11 filhos, mora a grandiosa matriarca de 1,50 cm da fam\u00edlia Brito. 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