{"id":3521,"date":"2023-09-27T09:40:33","date_gmt":"2023-09-27T14:40:33","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=3521"},"modified":"2024-02-27T19:32:13","modified_gmt":"2024-02-28T00:32:13","slug":"os-lobos-estao-dentro-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=3521","title":{"rendered":"Os lobos est\u00e3o dentro de casa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A juventude brasileira, em especial a amaz\u00f4nida, est\u00e1 vulner\u00e1vel \u00e0 viol\u00eancia sexual; educa\u00e7\u00e3o pode ser uma op\u00e7\u00e3o para proteg\u00ea-las<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&nbsp;Por William Liberato &nbsp;<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem n\u00e3o conhece o lobo mau? Horror das hist\u00f3rias infantis. Criatura astuta e trai\u00e7oeira, faz sempre maldades contra nossos queridos her\u00f3is. Atazanou os pobres porquinhos que buscavam descansar ou a esperta e brincalhona Chapeuzinho Vermelho, devorada ap\u00f3s ser enganada pelo lobo vestido de vov\u00f3. O personagem aterrorizante dos contos de fadas parece n\u00e3o estar s\u00f3 nas p\u00e1ginas dos livros, mas tamb\u00e9m na vida real.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tanto a hist\u00f3ria dos Tr\u00eas Porquinhos quanto a da Chapeuzinho, o enredo, mesmo que diferente, traz caracter\u00edsticas comuns. Os her\u00f3is tinham miss\u00f5es, como construir um lar ou deixar doces para sua av\u00f3, e ambos sofreram nas m\u00e3os, no caso, nas garras do lobo mau. O fim voc\u00eas j\u00e1 conhecem, \u00e9 um final feliz.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferente dos contos europeus que escutam e leem nas escolas, a juventude brasileira precisa conviver com seus horrores diariamente e, em muitos momentos, em sil\u00eancio. N\u00e3o h\u00e1 casa de tijolos ou ca\u00e7ador para salv\u00e1-los. Est\u00e3o vulner\u00e1veis a viol\u00eancia sexual, como aponta o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica de 2023. Em 2022, mais de 73 mil casos de estupro foram notificados, desses, mais de 56 mil casos eram somente de vulner\u00e1veis, v\u00edtimas menores de 14 anos ou que apresentavam alguma defici\u00eancia ou enfermidade e n\u00e3o poderiam consentir o ato sexual. O cen\u00e1rio \u00e9 ainda mais preocupante quando observado a idade das v\u00edtimas, 61,4% de todos os estupros cometidos no Brasil foram contra menores de 13 anos.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 cr\u00edtica tamb\u00e9m na Amaz\u00f4nia Legal, com quatro dos seus nove estados na lista dos mais altos \u00edndices de estupro de vulner\u00e1vel por 100 mil\/habitantes. S\u00e3o eles: Roraima (87,1), Amap\u00e1 (64,5), Tocantins (56,2) e Acre (67,1). A juventude amaz\u00f4nida corre perigo, em especial a acreana, que de 2021 para 2022 registrou um aumento de 22,3% no n\u00famero de casos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quem s\u00e3o os lobos da vida real? <\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os abusadores sexuais n\u00e3o s\u00e3o psicopatas, tarados que encontramos na rua, s\u00e3o pessoas comuns, de todos os n\u00edveis socioecon\u00f4micos e religi\u00f5es. Predominantemente homens, heterossexuais, possuidor de alguma posi\u00e7\u00e3o de autoridade ou poder perante um, ou mais, menores e na maior parcela das vezes convive com a crian\u00e7a ou o adolescente no dia a dia. Segundo o Anu\u00e1rio de seguran\u00e7a p\u00fablica, 71,5% dos crimes sexuais cometidos contra vulner\u00e1veis \u00e9 por algum familiar.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o caia no mito que os perigos est\u00e3o, exclusivamente, nas ruas. A resid\u00eancia continua sendo o local mais perigoso para nossa juventude, pois \u00e9 onde ocorre 72,5% dos casos. Os autores na maioria das vezes s\u00e3o: pais ou padrastos, 44,4%; tios, 7,7%; av\u00f3s, 7,4%; primos, 3,8%; irm\u00e3os, 3,4%; e por outros familiares, 4,8%. A viol\u00eancia sexual extrafamiliar, a cometida por desconhecidos, representa 12,8% dos crimes, n\u00famero elevado, mas significativamente inferior aos ocorridos no seio familiar.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro dado importante de evidenciar s\u00e3o os hor\u00e1rios do crime, h\u00e1 uma preponder\u00e2ncia de estupros diurnos quando a v\u00edtima \u00e9 menor de 13 anos, 65% dos casos que envolvem essa faixa et\u00e1ria foram cometidos entre 06h e 18h, enquanto maiores de 14 anos s\u00e3o abusadas predominantemente no per\u00edodo noturno, 53,3%.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, em especial, o estado do Acre, a situa\u00e7\u00e3o alerta para mais um risco, os c\u00f4njuges e namorados. Um estudo, de pesquisadores do Centro universit\u00e1rio Uninorte e da Universidade Federal do Acre (Ufac), apontou que em 2019, 53,5% das mulheres violentadas no Acre, na faixa et\u00e1ria de 10 a 19 anos, foram abusadas por seus namorados, 29%; e por seus c\u00f4njuges, 24,5%. Os dados ajudam a ilustrar a situa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e jovens do Acre e da Amaz\u00f4nia, que sofrem com o casamento infantil. Atitude absurda e incompreens\u00edvel, mas uma realidade no Brasil, 4\u00ba lugar no ranking de casamentos infantis no mundo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"555\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/20230921_155040.jpg?resize=740%2C555&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-3533\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/20230921_155040-scaled.jpg?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/20230921_155040-scaled.jpg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/20230921_155040-scaled.jpg?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/20230921_155040-scaled.jpg?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/20230921_155040-scaled.jpg?resize=2048%2C1536&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/20230921_155040-scaled.jpg?w=1480&amp;ssl=1 1480w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/20230921_155040-scaled.jpg?w=2220&amp;ssl=1 2220w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><figcaption>Pistas escondidas: desenhos podem ser uma ferramenta para crian\u00e7as denunciarem viol\u00eancias e abusos. Foto:  William Liberato<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Perfil das V\u00edtimas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Volto \u00e0 literatura para pensar o perfil de crian\u00e7as e adolescentes abusadas, Chapeuzinho Vermelho, a garota devorada do conto medieval, poderia compor esse cen\u00e1rio tr\u00e1gico. Meninas como ela, menores de 13 anos, s\u00e3o as principais v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual. Em 2022, 86% de todos os estupros de vulner\u00e1veis ocorridos no Brasil foi contra jovens do sexo feminino. A maioria negra (56,2%) e com 10 a 13 anos (58%). Esse \u00e9 o retrato de nossas meninas.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo em menor n\u00famero, vale salientar os estupros cometidos contra meninos. Eles representam 14% do n\u00famero de casos. As v\u00edtimas do sexo masculino, diferentemente das meninas, s\u00e3o violentados numa faixa et\u00e1ria menor, entre 5 e 9 anos (43,4%).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m destaco o perfil das v\u00edtimas acreanas. Em 2019, 55,2% de todos os estupros cometidos no estado foram contra meninas de 10 a 14 anos, assemelhando-se ao resto do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, as menores do Acre s\u00e3o majoritariamente pardas (83,8%) e contam com o ensino fundamental completo (64%).&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A situa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 alarmante, poderia estar sendo combatida, por\u00e9m, segundo a reportagem do <em>site \u201c<\/em>G\u00eanero e N\u00famero\u201d, de 2022, o Acre conta somente com diretrizes para trabalhar, em sala de aula, \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica, tema s\u00e9rio e de necess\u00e1ria discuss\u00e3o. Mas, me parece pouco, para um estado com aumento expressivo no n\u00famero de casos de abusos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PL n.14\/2023 <\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os deputados da Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), de maioria conservadora, fizeram um movimento hist\u00f3rico pela seguran\u00e7a de nossos jovens e adolescentes. Em 12 de abril de 2023, aprovaram o projeto de lei n.14\/2023, que criava diretrizes para escolas estaduais atuarem na defesa dos menores, com a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas de sa\u00fade sexual e reprodutiva. Mas, bastou a \u201ccanetada\u201d da governadora em exerc\u00edcio, Mailza Assis (PP), para que a lei fosse engavetada. Uma pol\u00edtica que poderia corroborar com a\u00e7\u00f5es j\u00e1 realizadas, foi vetada.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vice-governadora demonstra que faz de tudo para n\u00e3o enfurecer seu eleitorado, de maioria evang\u00e9lica. Uma personagem contradit\u00f3ria, mas habilidosa no jogo pol\u00edtico. Uma semana depois do veto, realizou uma caminhada com centenas de pessoas nas ruas, com todas as pompas que o dinheiro p\u00fablico \u00e9 capaz de pagar. Segundo a assessoria, o ato foi exclusivamente para promover a conscientiza\u00e7\u00e3o no Dia Nacional de Combate ao Abuso e \u00e0 Explora\u00e7\u00e3o Sexual de Crian\u00e7as e Adolescentes. Na oportunidade, houve muitos <em>flashs<\/em> e, infelizmente, poucas a\u00e7\u00f5es.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, projetos s\u00e3o lan\u00e7ados, campanhas veiculadas, palestras ministradas, por\u00e9m, nada de modo integrado e duradouro. Atualmente, no Acre, a Coordenadoria da Inf\u00e2ncia e Juventude (CIJ), do Tribunal de Justi\u00e7a do Acre (TJAC), realiza a\u00e7\u00f5es e projetos para prevenir e coibir o abuso e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o sexual de menores. O mais duradouro deles \u00e9 o Eca na Comunidade, criado em 2011, que est\u00e1 na d\u00e9cima edi\u00e7\u00e3o, e promove debates divulgando informa\u00e7\u00f5es para os jovens e suas fam\u00edlias. A\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel, todavia, pouco para dimens\u00e3o do problema.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 parte da solu\u00e7\u00e3o <\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sexualidade faz parte de todo e qualquer indiv\u00edduo. N\u00e3o falar ou evitar, n\u00e3o faz nossa juventude mais segura, mas, sim, desinformada. A educa\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 sempre tratada com muito alvoro\u00e7o. Tolice. Trabalhar esse tema nas escolas assegura o autoconhecimento de nossas crian\u00e7as e adolescentes, e oferece a eles a capacidade de identificar e buscar apoio em qualquer situa\u00e7\u00e3o vexat\u00f3ria ou abusiva.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, a ignor\u00e2ncia diante do tema e da err\u00f4nea rela\u00e7\u00e3o de sexualidade exclusivamente ao sexo, nutre parte dos educadores, pais, respons\u00e1veis e algumas institui\u00e7\u00f5es a terem uma vis\u00e3o deturpada do assunto, o que dificulta profundamente a promo\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o integral da sexualidade.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, os n\u00fameros assustadores de viol\u00eancia sexual contra menores n\u00e3o parece mobilizar os governantes a executar reformas significativas nas diretrizes curriculares de seus estados, j\u00e1 que apenas tr\u00eas no Brasil orientam suas escolas a tratarem sobre sexualidade. Assim, resiste nas salas de aula, entre os alunos, d\u00favidas, questionamentos e afli\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem ser sanadas adequadamente. Levando-os a buscar informa\u00e7\u00f5es em espa\u00e7os inadequados e perigosos, principalmente em aplicativos e bate-papos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ambiente cibern\u00e9tico tem sido amplamente usado para praticar diversos tipos de delitos sexuais, como atentado violento ao pudor, coa\u00e7\u00e3o sexual, chantagem, ass\u00e9dio, corrup\u00e7\u00e3o de menores e pornografia infantil. Crimes que n\u00e3o s\u00e3o novidade, mas que tomam nova dimens\u00e3o com a populariza\u00e7\u00e3o da internet e das redes sociais.&nbsp; Diante dessa realidade, de f\u00e1cil acesso as redes e aplicativos por nossas crian\u00e7as e adolescentes, pol\u00edticas de conscientiza\u00e7\u00e3o se fazem urgente, para coibir o estupro tamb\u00e9m virtual. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Precisamos agir. Apoiar a discuss\u00e3o e a implementa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o sexual nas escolas \u00e9 fortalecer que nossas crian\u00e7as e adolescentes tenham a capacidade de identificar e comunicar qualquer viol\u00eancia sofrida. \u00c9 sonhar para eles um final feliz como os dos contos de fadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Denuncie \u2013 disque 100 ou ligue 190 <\/strong>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A juventude brasileira, em especial a amaz\u00f4nida, est\u00e1 vulner\u00e1vel \u00e0 viol\u00eancia sexual; educa\u00e7\u00e3o pode ser uma op\u00e7\u00e3o para proteg\u00ea-las &nbsp;Por William Liberato &nbsp;&nbsp; Quem n\u00e3o conhece o lobo mau? Horror das hist\u00f3rias infantis. Criatura astuta e trai\u00e7oeira, faz sempre maldades contra nossos queridos her\u00f3is. 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