{"id":2065,"date":"2021-12-03T14:58:47","date_gmt":"2021-12-03T19:58:47","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=2065"},"modified":"2021-12-03T20:08:40","modified_gmt":"2021-12-04T01:08:40","slug":"filhos-do-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=2065","title":{"rendered":"Filhos do Sol"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Aspectos sociais da imigra\u00e7\u00e3o venezuelana no Acre&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Hellen Lirtez<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A temperatura na capital acreana (Rio Branco) tem uma m\u00e9dia de 32\u00b0C, 30\u00b0C na sombra. J\u00e1 na capital venezuelana (Caracas) varia de 28\u00b0C a 21\u00b0C, o que pode ser considerado um clima agrad\u00e1vel. O sol \u00e9 o elemento que sempre esteve presente na imigra\u00e7\u00e3o venezuelana, isso os direcionou at\u00e9 terras brasileiras como sendo a \u00fanica luz guia nos caminhos de um povo que teve de aprender a conviver com o escuro.<\/p>\n\n\n\n<p>A luz solar \u00e9 algo t\u00e3o comum na jornada dessas pessoas que seus rostos apresentam vermelhid\u00e3o, rachaduras, manchas e algumas vezes queimaduras devido a alta exposi\u00e7\u00e3o. No Brasil, o c\u00e2ncer de pele corresponde a 33% de todos os diagn\u00f3sticos, e o&nbsp;Instituto Nacional do C\u00e2ncer (INCA) registra, a cada ano, cerca de 185 mil novos casos. Infelizmente, a radia\u00e7\u00e3o solar e seus malef\u00edcios s\u00e3o a menor das preocupa\u00e7\u00f5es de um venezuelano que est\u00e1 buscando ajuda nos sem\u00e1foros.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A avenida Cear\u00e1 pode ser considerada uma das ou se n\u00e3o a avenida mais conhecida do estado, ela \u00e9 a rota central para bairros como esta\u00e7\u00e3o, floresta, Manoel Juli\u00e3o etc. Atualmente, h\u00e1 mais de 3 anos e meio ela se tornou uma vitrine que \u00e9 assistida atrav\u00e9s da janela quadriculada de um autom\u00f3vel. o sinal obriga os carros a pararem e durante um minuto e meio&nbsp; no palco de asfalto e ilumina\u00e7\u00e3o de sol pino, eles s\u00e3o vistos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cena 1 &#8211; De uma crise para outra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Todos os pa\u00edses latino-americanos foram colonizados, ou seguem at\u00e9 hoje nos meandros da colonialidade. A Venezuela e o Brasil partilham mem\u00f3rias muito familiares em suas hist\u00f3rias. Governos corruptos, autorit\u00e1rios, altas taxas de desemprego, brigas irracionais entre ideologias, crises pol\u00edticas e sociais moldam a desordem e o caos no qual os dois pa\u00edses se encontram atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para eles, tudo come\u00e7ou a piorar em meados de 2013, quando a Venezuela enfrentava uma crise pol\u00edtica em raz\u00e3o da disputa causada pela posse interina de Nicol\u00e1s Maduro, logo ap\u00f3s o afastamento de Hugo Ch\u00e1vez, que mais tarde morreu. Maduro assumiu oficialmente e nos anos que se passaram a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds se agravou ainda mais, deixando milhares de pessoas em condi\u00e7\u00f5es subumanas: sem comida ou renda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o ano de 2016, por exemplo, a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Infla%C3%A7%C3%A3o\">infla\u00e7\u00e3o<\/a> foi de 800%. Em 2018, Nicol\u00e1s Maduro se reelegeu, mesmo com altos \u00edndices de rejei\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro era eleito. Os dois presidentes s\u00e3o pol\u00eamicos e por vezes abusam do poder que t\u00eam nas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Venezuela as carnes s\u00e3o consideradas produtos de luxo devido ao seu valor. Em alguns estados, o valor do frango supera os 3 milh\u00f5es de bol\u00edvares, aproximadamente 155 reais. O mesmo frango \u00e9 uma das carnes mais consumidas pelos brasileiros atualmente devido ao dr\u00e1stico aumento da carne bovina. A cesta b\u00e1sica no Brasil tem um valor m\u00e9dio de 600 reais, o n\u00famero de desempregados beira 14 milh\u00f5es e cerca de 40 milh\u00f5es de brasileiros vivem na mis\u00e9ria, com renda de at\u00e9 R$ 89. Afinal, quantos <em>Brasis<\/em> cabem em cada brasileiro?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estes n\u00fameros contribuem ainda mais para o aumento da criminalidade e agravamento de doen\u00e7as, principalmente durante a pandemia da Covid-19. Mesmo que o Brasil aparentemente n\u00e3o passe por uma instabilidade t\u00e3o severa quanto a Venezuela, ele n\u00e3o \u00e9 o melhor pa\u00eds para pessoas que est\u00e3o fugindo de uma crise, j\u00e1 que aqui tamb\u00e9m vivemos uma crise pol\u00edtica, econ\u00f4mica e de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/4uMwLd1uXkA0zq4Fc9k0w5HyBJ0oQV9czjLfl1RT4WXNhPo6QTBFMu9I9cZlmF__2vXivr6FHLhbEhymutmcjFq7akm6xbOzpCF-8_hyOAx59Nd5bpm33q3195ER5w\" alt=\"\"\/><figcaption>Crian\u00e7a ind\u00edgena, Warao, abrigo da base, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Cena&nbsp; &#8211; Os ind\u00edgenas Warao<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira vez que o vi foi em agosto de 2019. Neste dia, houve um acidente no centro da cidade e o tr\u00e2nsito estava congestionado, n\u00e3o ia nem para frente, nem para tr\u00e1s. Era exatamente 13h, hor\u00e1rio de almo\u00e7o e de pico no centro rio-branquense. Eu estava atrasada para chegar ao trabalho, quando notei um casal e duas crian\u00e7as subindo uma ladeira.&nbsp; O homem andava \u00e0 frente, seguido por uma mulher gr\u00e1vida, que com uma de suas m\u00e3os segurava a barriga imensa e com a outra guiava duas crian\u00e7as, que tamb\u00e9m estavam de m\u00e3os dadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles carregavam consigo bolsas feitas de panos coloridos que mais pareciam retalhos costurados um sobre o outro. Elas estavam muito bem amarradas ao redor do t\u00f3rax. Essa postura de amarrar e manter tudo pr\u00f3ximo a si me pareceu ser um reflexo de quem j\u00e1 perdeu muito. Dentro das bolsas notei que haviam placas de papel\u00e3o e que provavelmente eles estavam vindo de outro lugar, talvez de mudan\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto eles subiam a ladeira, o homem, que possivelmente seria o pai das crian\u00e7as e marido da mulher, paralisa um pouco em frente a um restaurante. Ele observa as pessoas almo\u00e7ando, as crian\u00e7as alegram-se. A mulher gr\u00e1vida evita olhar, mas o pai os incentiva a continuar andando. Seus p\u00e9s, j\u00e1 cansados por atravessar fronteiras, atravessavam tamb\u00e9m o caminho da fome. Mesmo assim, parecia ser preciso n\u00e3o parar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia, eles subiram a ladeira a um ponto em que eu n\u00e3o conseguia mais acompanhar de dentro do \u00f4nibus. Naquele instante olhei para os passageiros, para o motorista, para o tr\u00e2nsito em volta e parecia que apenas eu tinha visto a cena. Presenciei aquilo em plena luz do dia.&nbsp; Sim, esse retrato \u00e9 muito comum, mas \u00e9 justamente isso que causa espanto. Desde ent\u00e3o, observo e documento cenas como essa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cena 3 &#8211; O abrigo no bairro da Base&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 18 de julho de 2020 j\u00e1 completavam cinco meses de pandemia. Acompanhei a professora Fl\u00e1via Pinheiro em uma a\u00e7\u00e3o conjunta, a qual ela havia elaborado com outras educadoras e o Moto Club Abutres. Um caldeir\u00e3o de sopa encheu mais de 200 copos de sopa, que acompanhavam alguns sacos de p\u00e3o. O momento era cr\u00edtico, mas havia chegado ao conhecimento da educadora a situa\u00e7\u00e3o de um abrigo venezuelano localizado no bairro da Base.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/FiwZl0XZmLzbI9WEXquJiCZG3eFoUhHlmsrbPd1jccDkXHEFsrRu8lg1QrgCuHEP4_UsBLjuKLQP3exMc_Dkj7h2KbkEDgNU8EQsQ3fXTOWTee0F7iSvUBBuhIiFHw\" alt=\"\"\/><figcaption>Professora Fl\u00e1via Pinheiro, 2020, abrigo do bairro da Base. <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em comboio, Fl\u00e1via foi at\u00e9 o local. A professora entende bem o que \u00e9 estar ao relento. Na inf\u00e2ncia ela passou por situa\u00e7\u00f5es parecidas quando ainda morava nas periferias de Cuiab\u00e1. Para ela, eles vieram para a capital tentar uma vida melhor, assim como ela fez, por isso merecem toda ajuda necess\u00e1ria. Assim que chegaram l\u00e1, todos os ind\u00edgenas venezuelanos que estavam no abrigo se amontoaram e esperaram em grupo, como se isso fosse uma esp\u00e9cie de defesa grupal, estarem juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegaram l\u00e1 havia dias em que n\u00e3o comiam direito, sobreviviam pedindo nas casas e sinais, mas devido \u00e0 pandemia n\u00e3o conseguiam o suficiente. A casa abandonada n\u00e3o tinha portas nem janelas, seu reboco estava desgastado pelo tempo. Entretanto, era um teto que passava uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a para aquelas pessoas. Era imposs\u00edvel contar um a um e todos estavam sem m\u00e1scaras. As crian\u00e7as estavam bastante sujas e os pais muito tristes. Uma lona preta cobria a parte da frente, fazendo papel de telhado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A casa possu\u00eda em torno de cinco c\u00f4modos, n\u00e3o havia colch\u00e3o no ch\u00e3o, mas sim panos e mais panos marcando o local onde as pessoas dormiam. As crian\u00e7as fizeram fila para receber o p\u00e3o e a sopa. \u00c9 t\u00e3o violento pensar que as crian\u00e7as exercem isso de uma maneira n\u00e3o natural. Chega a ser surpreendente como as crian\u00e7as reagem em situa\u00e7\u00f5es como essas. Crian\u00e7as ind\u00edgenas venezuelanas brincavam e dividiam o p\u00e3o juntas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/fx_iCquDRfrOzcL0I37qXAVKM0rq50oKao95j40xoRuT6trKZ7yPopd-gJJDPqHREPFHrKZzVZTCdYa8v0-OQoIwEUVly2KoenLkHFuF8EDMwo_cZI0I6z0zp3JUGw\" alt=\"\"\/><figcaption>Crian\u00e7as ind\u00edgena, Warao, abrigo da base, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os Warao s\u00e3o conhecidos como povo navegante e possuem costumes comunit\u00e1rios. Percebi isso presencialmente no dia em que visitei o abrigo. Uma garrafa de refrigerante doada por um vizinho foi compartilhada por todas as crian\u00e7as, de boca em boca at\u00e9 o \u00faltimo gole.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/7gLM7hk7iPeNz_WwrvMk7KBvKjdt41mbN0gb5B0ECHhZwSbLk7GG-iECxTShy_xMUBFELIubvucKa7t6SGHeCA4Togb0iIn8fLbsVpo9m7w5G1mrXv-A4WkOjjdOkw\" alt=\"\"\/><figcaption>Crian\u00e7as ind\u00edgena, Warao, abrigo da base, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A senhora de vestido verde que segura um p\u00e3o \u00e9 Dolores Zapata. Essa foi a primeira vez que estive pr\u00f3xima dela, mas, n\u00e3o era a primeira vez que a vi de fato. Ao chegar l\u00e1, essa senhora de pele queimada e cabelo longo caiu aos prantos e fez um sinal de agradecimento a Deus. Fazia muito tempo que ela e o grupo de ind\u00edgenas Warao estavam com fome. A senhora pouco falava, quando recebeu o alimento procurou se preocupar apenas com este momento.&nbsp; Expressava uma enorme felicidade pela a\u00e7\u00e3o da professora Fl\u00e1via, mas carregava em seu olhar muitas outras coisas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/fNWP9e65cz78jgCWIsQewBmsSZgyKLxbiqe657RPc7wtNW0gbU5U23LHiN3tip0DWXjkgvQSIt668J9O0hDvQ7tl1XeqpYWR20iUJkxPcs1w6S5K5jBzh2BzX1OODA\" alt=\"\"\/><figcaption>Dolores Zapata, mulher ind\u00edgena Warao, 2020.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Dentre as pr\u00e1ticas e costumes do povo Warao est\u00e3o a pesca, ca\u00e7a, agricultura, artesanato e carpintaria. Talvez por isso tenham se identificado tanto com a Amaz\u00f4nia brasileira. Os antepassados Warao eram muito pr\u00f3speros, todo o tempo trabalhavam e levavam alimentos para suas casas. Por\u00e9m, devido aos \u201cavan\u00e7os\u201d capitalistas no ano de 1965, o Governo da Venezuela construiu um dique que obstruiu o Rio Manamo. Esse projeto afetou diretamente a vida dos Warao, por ter causado saliniza\u00e7\u00e3o s\u00fabita da \u00e1gua do rio, al\u00e9m de impactar os ecossistemas animais e vegetais. Desde ent\u00e3o eles vivem como n\u00f4mades passando de cidade em cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A jornada dos Warao at\u00e9 o Acre foi longa, eles sa\u00edram da cidade de Tucupita, capital de Delta Amacuro, que est\u00e1 localizado no nordeste da Venezuela. Atravessaram sete cidades para chegar na fronteira com o Brasil, no munic\u00edpio de Pacaraima, no estado de Roraima. Nesse deslocamento foram 930 km percorridos. De Pacaraima at\u00e9 Boa Vista, foram mais 215 km, e chegando na capital roraimense vivenciaram uma situa\u00e7\u00e3o de aglomera\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o venezuelana imigrante. Eles continuaram sua mobilidade para Manaus, at\u00e9 l\u00e1 foram mais 749 km de estrada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 se depararam com a mesma situa\u00e7\u00e3o de Boa Vista, muitos imigrantes buscando ref\u00fagio. Optaram por ir para Porto Velho, deslocaram-se pela rodovia BR 319, percorrendo mais 888 km at\u00e9 chegarem na capital rondoniense. Infelizmente, assim como em Manaus e Pacaraima, as condi\u00e7\u00f5es eram as mesmas e assim preferiram vir para Rio Branco-AC, que fica h\u00e1 511 km de Porto Velho. O deslocamento total, da origem at\u00e9 Rio Branco, foi de 3.293 km.&nbsp; Tudo isso por um recome\u00e7o. Nem todas as fam\u00edlias Warao tiveram a mesma oportunidade de chegar direto at\u00e9 a fronteira, pois algumas precisaram fazer viagens em escalas, de povoado em povoado.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, os Warao sobrevivem de doa\u00e7\u00f5es e apoio provenientes, em especial, da sociedade civil, n\u00e3o do Governo, ainda que em alguns estados j\u00e1 existam abrigos e as fam\u00edlias recebam algum tipo de assist\u00eancia. Os que n\u00e3o contam com assist\u00eancia social pedem ajuda nas ruas para conseguir pagar os alugu\u00e9is e ter acesso a alimentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/E6rMcKDaX74PgO-PtH8NWpUi-Adw1Pq8X7481XY60fd1ncApjpMgE5oeVhKx_bi2DQzlxaYahDUyrotesXiBmarAXPrJ0IkEnVArhGYwuB1kJt6e7jzSAcm1fgc-8g\" alt=\"\"\/><figcaption>Crian\u00e7a ind\u00edgena, Warao, abrigo da base, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os venezuelanos ind\u00edgenas Warao sofrem as mesmas dificuldades de diversos imigrantes quando chegam no Brasil e principalmente no estado do Acre, ao procurar atendimento na rede de sa\u00fade, no CRAS, no terminal rodovi\u00e1rio. Essas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o preparadas para atender esse p\u00fablico. Os venezuelanos alocados atualmente no Acre se dividem entre ind\u00edgenas Warao, localizados em sua maioria no bairro Cidade do Povo, e n\u00e3o-ind\u00edgenas, abrigados no bairro Tancredo Neves.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tr\u00eas mulheres, tr\u00eas sinais: Mulheres ind\u00edgenas Warao<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Heloisa, J\u00e9ssica e Dolores est\u00e3o nos sem\u00e1foros h\u00e1 dois anos. A primeira vez que as vi foi em meados de 2019. Sempre naquele 1 minuto do sinal, para mim tempo que me atrasava para chegar no trabalho ou na faculdade, mas que para elas era muito pouco. Heloisa \u00e9 m\u00e3e de J\u00e9ssica e filha de Dolores, uma fam\u00edlia de mulheres ind\u00edgenas Warao.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As tr\u00eas costumam se dividir em pontos de muita movimenta\u00e7\u00e3o. Heloisa fica entre a avenida Cear\u00e1 e a rua Pernambuco, em frente a uma concession\u00e1ria de ve\u00edculos, J\u00e9ssica fica no mesmo local, por\u00e9m um pouco mais a frente. Dolores sempre fica no cruzamento da avenida Cear\u00e1 com a Floriano Peixoto que possui quatro sinais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jessica foi a primeira da fam\u00edlia Zapata que abordei. Ela estava cansada, o sol das onze estava impiedosamente forte, por isso ela estava sentada. A jovem de 19 anos tem praticamente minha idade, al\u00e9m disso, nosso tom de pele e cor de cabelo s\u00e3o bem parecidos. Ap\u00f3s sentar ao seu lado comecei a perceber que das poucas coisas que nos diferia era a nacionalidade. Visivelmente J\u00e9ssica estava ali para ajudar a m\u00e3e e a av\u00f3. Quando perguntei a ela o que ela gostaria de fazer, me respondeu de maneira seca, por\u00e9m firme: \u201cestudar\u201d. H\u00e1 dois anos ela saiu da Venezuela, um pa\u00eds onde a educa\u00e7\u00e3o hoje se encontra defasada. Ao v\u00ea-la ali mendigando por centavos me perguntei: onde estaria J\u00e9ssica agora se n\u00e3o houvesse crise na Venezuela?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/9Q_nzIq4t32GfML8b6ONHYFvWIxDRYdip9qSIS0H8TL0_Uc7tiLycNxqwkYVNzq0Z1Gn6teO4Le9Ss8zpj69kTizt2XMbgxwpkWUepgxsaQO5ZXhfAkk4LnxZFjLZA\" alt=\"\"\/><figcaption>Jessica Zapata sendo entrevistada em seu local de trabalho, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>De longe Heloisa \u00e9 s\u00f3 uma mulher tentando sobreviver, de perto ela \u00e9 uma m\u00e3e, uma filha, tentando ter o m\u00ednimo para comer em um lugar desconhecido. Heloisa \u00e9 uma mulher tomada pelo sil\u00eancio, e seu sil\u00eancio diz muito. Antes de abord\u00e1-la a observei de dentro do carro, queria saber como era vista do ponto em que ela ia buscando por ajuda. Depois de falar com J\u00e9ssica, fui at\u00e9 o meio fio em que Heloisa estava. Seu cabelo estava tran\u00e7ado, uma blusa vinho, saia amarela e nos p\u00e9s uma havaiana azul turquesa, t\u00edpica de nosso pa\u00eds. Come\u00e7amos a conversar, no entanto, todas perguntas sobre como ela veio at\u00e9 aqui ficaram sem resposta. Ela procurava palavras, mas n\u00e3o sabia o que dizer. Seu olhar estava tr\u00eamulo e parecia que a qualquer momento l\u00e1grimas iriam lavar seu rosto. Em seu pesco\u00e7o havia um colar com uma imagem colorida de Cristo ao qual ela apertava enquanto desviava seu olhar. O sil\u00eancio \u00e9 algo assustador quando se tem muito a dizer e a cobrar, quando j\u00e1 se gritou muito a ponto de perder a pr\u00f3pria voz. Quando estava dentro do carro a observando percebi que havia uma frase b\u00edblica em suas costas que contrastava com aquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cPorque as estrelas dos c\u00e9us e as suas constela\u00e7\u00f5es n\u00e3o dar\u00e3o a sua luz; o sol se escurecer\u00e1 ao nascer, e a lua n\u00e3o resplandecer\u00e1 com a sua luz.\u201d <\/em><a href=\"https:\/\/www.bibliaonline.com.br\/acf\/is\/13\/10+\"><em>Isa\u00edas 13:10<\/em><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/5pHHAKqUk545ExTrUlZoiX9xcnrCARJTW7riVOziA6UIXwsmXllbRoRYnDwlMgXl5awG82d1m2gCa8PRvd8uP5QX0U7nQqmR3wns2oVwWBwjJ3-oSwIy1v8CoQ7_MQ\" alt=\"\"\/><figcaption>Helo\u00edsa Zapata, Avenida Cear\u00e1, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Baseado nesta frase perguntei a ela se a f\u00e9 a havia trazido para o Brasil e ela me respondeu, \u201cestou aqui por causa da f\u00e9\u201d. A f\u00e9, que assim como move montanhas, moveu p\u00e9s venezuelanos para esta parte do continente latino-americano.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentre os carros desfila uma senhora de mais ou menos 65 anos. Reconheci de imediato que se tratava de Dolores Zapata. Desde a primeira vez que a vi ela usa os mesmos vestidos verdes, a cor da esperan\u00e7a. Ela n\u00e3o queria conversar, queria apenas continuar sua jornada entre os carros. Com um pote de creme cortado, a idosa passa entre as m\u00e1quinas de metal estacionadas momentaneamente, alguns d\u00e3o cinco centavos, outros, cinco reais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/Dtm1JZYAQ5bWYBAc5kENNr6OvYjtjf4rR79Xj3WrD0DFsY3tesCnlwRpjik6386tU4mOBPs9RHmXvbh3FSFdVv9JVAu2kJrd76GSrMUhgl0R6bZ3bfgN_qio1-tNtA\" alt=\"\"\/><figcaption>Dolores Zapata, Avenida Cear\u00e1, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os Warao s\u00e3o pessoas muito desconfiadas, mesmo que recebem ajuda n\u00e3o se acomodam e assim v\u00e3o para os sinais. Essa pr\u00e1tica \u00e9 denominada por eles como \u201ccoleta\u201d. Em grupos, ind\u00edgenas Warao saem da Cidade do Povo at\u00e9 o Centro da cidade bem cedo pela manh\u00e3, para conseguir dinheiro ou alimento. Essa pr\u00e1tica geralmente \u00e9 realizada pelas mulheres enquanto os homens as vigiam de longe.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/Jl3y6ccdPqu4rDNZ4PtdKNDeMo29_AMzmrDIQb8EhJTdP5ZJuOmxpxJHiWI0kaW87QVcj3qSnPcBkzouvhbuTwWOmWwmISN9ioJbUb_R1KTe3ltoEwWp_bCrSjxA2g\" alt=\"\"\/><figcaption>Crian\u00e7a ind\u00edgena, Warao, abrigo da base, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma pequena diferen\u00e7a da atua\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas Warao e venezuelanos n\u00e3o-ind\u00edgenas.&nbsp; Geralmente os Warao s\u00e3o bem diretos em suas placas \u201cajuda para comer\u201d, j\u00e1 os n\u00e3o-ind\u00edgenas al\u00e9m de pedirem ajuda e comida pedem tamb\u00e9m por trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00edngua \u00e9 um fator importante na hora de pedir dinheiro e ajuda, pois os Warao trazem aspectos pr\u00f3prios de sua etnia, apesar de se comunicarem em espanhol. O Brasil \u00e9 rodeado de pa\u00edses falantes da l\u00edngua espanhola, apesar disso, o investimento lingu\u00edstico sempre \u00e9 voltado para o ingl\u00eas. Essa prefer\u00eancia pela linguagem \u00e9 apenas uma das evid\u00eancias que ainda nos permeiam ap\u00f3s a coloniza\u00e7\u00e3o de 1500.<\/p>\n\n\n\n<p>No Acre, mesmo os Warao tendo grandes habilidades, desde a pesca at\u00e9 a confec\u00e7\u00e3o de artesanato, a \u00fanica sa\u00edda para conseguir recursos financeiros para a sua subsist\u00eancia s\u00e3o as ruas. Diferente dos brasileiros que vendem \u00e1gua de coco, doces ou p\u00e3o no sinal. Seu \u00fanico minuto de aten\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 o do sinal. Nesse curto espa\u00e7o de tempo \u00e9 preciso andar entre os carros, erguer a placa e esperar que algu\u00e9m se comova. Mas nem todos s\u00e3o comovidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A esperan\u00e7a mora em um sorriso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>11 de mar\u00e7o de 2020, quinta-feira, mais um dia de trabalho para Milagros Antuan. A mulher de 39 anos costuma chegar cedo em um dos principais sinais da Avenida Cear\u00e1. De cal\u00e7a jeans, blusa rosa de manga longa, t\u00eanis branco, chap\u00e9u e uma placa de papel\u00e3o na m\u00e3o. A m\u00e3e de tr\u00eas filhos era secret\u00e1ria executiva de uma grande empresa na Venezuela, ela sempre buscou um bom futuro profissional. Por\u00e9m, no Brasil, n\u00e3o conseguiu fazer os tr\u00e2mites necess\u00e1rios para valida\u00e7\u00e3o de seus documentos.Em contraponto a isso, foi&nbsp; orientada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico para conseguir sua cidadania brasileira, a qual ela tem muito orgulho.Milagros \u00e9 formada em engenharia de sistemas, mas como n\u00e3o conseguiu um emprego no pa\u00eds precisa se deslocar no meio fio.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/D8c3OA7X06OUczjF6N4-8CgygBVuKhl9Yz2CKaRQPiqkKcmJs92JiE1MPAwsIEATj487aAqBsqO9u-iAin8E72erDWPt2Kn0biIf1i2hBKidLrPwaPYExnv4VC8nQw\" alt=\"\"\/><figcaption>Milagros, Avenida Cear\u00e1, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Carros v\u00eam e v\u00e3o, o sol aquece, a temperatura aumenta, mas ela permanece no mesmo lugar. Ela espera o sinal fechar para andar nas vielas que se formam entre os carros, alguns carros como a Hilux da foto n\u00e3o chegam sequer a abrir o vidro, simplesmente ignoram. Por dia ela consegue arrecadar cerca de 40 reais. Parece pouco, mas isso paga o apartamento de 250 reais em que ela mora. Milagros se sente t\u00e3o grata pela ajuda que teve no pa\u00eds para obter sua cidadania, que em nenhum momento da entrevista cita a xenofobia e a rejei\u00e7\u00e3o pelas quais passa na avenida mais movimentada do estado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto eu anotava algumas informa\u00e7\u00f5es sobre Milagros, um rapaz notou que eu estava com uma c\u00e2mera no pesco\u00e7o e em seguida come\u00e7ou a fazer pose. Logo, achei divertido seu jeito descontra\u00eddo e fui falar com ele. John Azevedo j\u00e1 carrega em seu nome certa brasilidade e ele se encaixa perfeitamente no refr\u00e3o da m\u00fasica \u201cApenas um rapaz latino-americano\u201d, do cantor Belchior: <em>\u201ceu sou apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/VRjWDXT6RGyWv8yMZDWrGKbBaGtjgy5UFceuk50XOdY2oryTCmbRf9bLOJiFBNXYpihJV_zqESDTfSCE6PCaYd4yDoq-wgv2KfQpZqZlTMIcvG3DGxajzlGqRtvyWA\" alt=\"\"\/><figcaption>Jhon Azevedo, Avenida Cear\u00e1, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;<\/em>Nunca passaria pela minha cabe\u00e7a que aquele limpador de vidros seria um venezuelano. John estava \u201ccamuflado\u201d no meio de outros rapazes da sua idade que trabalham no sinal. Quando o entrevistei, havia pouco tempo que chegara de Ji-paran\u00e1 (Rond\u00f4nia). Seu objetivo em limpar carros no Acre \u00e9 conseguir uma passagem para a Bol\u00edvia e depois para o Chile.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No dia em que nos falamos ele havia conseguido apenas 6 reais, por\u00e9m estava muito feliz, aquele era o dinheiro do almo\u00e7o. John n\u00e3o veio sozinho para o Brasil, ele tinha uma companheira, por\u00e9m, ela o abandonou para ficar com sua fam\u00edlia e agora ele vaga em busca de conhecer outra mulher que o acompanhe em suas aventuras internacionais. Apesar de jovem, o rapaz j\u00e1 esteve em diversos pa\u00edses como Guiana-francesa, Argentina e Peru.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando est\u00e1 nos sinais sua abordagem \u00e9 muito nost\u00e1lgica \u201cbuenos d\u00edas se\u00f1or, buenos d\u00edas se\u00f1ora, ayuda a este pobre hombre\u201d. Ele entrava com um sorriso e saia com o outro ainda maior. De um jeito muito carism\u00e1tico ele tentava convencer as pessoas a ajud\u00e1-lo. John relatou que sofreu preconceito em outros pa\u00edses, mas no Brasil sentia que tudo era \u201cnormal\u201d. Naquele momento percebi o porqu\u00ea de ele se sentir completamente aceito em um pa\u00eds que mata diariamente jovens como ele. John n\u00e3o levava \u00edndices como esse em considera\u00e7\u00e3o, mas sim o simples fato de saber que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a f\u00edsica nos tra\u00e7os de um jovem venezuelano e um brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/awjpOIexXiu8CAyNF3SeIdnHYFR2_2LWKMp-Y1DZ3rg7y-ccbunxsFuL0jq_T47sFThSqz2ajiqzRZ9tRRcRst5C0Q5J8AFos9chZk84z7r06znpsfY3gF6le2OfTw\" alt=\"\"\/><figcaption>Jhon Azevedo, Avenida Cear\u00e1, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A caminho do Acre, John perdeu um amigo quando ainda estava em Ji-Paran\u00e1. Segundo ele, seu amigo n\u00e3o havia feito nada e trabalhava informalmente como ele, mesmo assim o mataram. Mesmo em meio a tantos problemas, o rapaz de 25 anos latino-americano v\u00ea o mundo como um lugar de explora\u00e7\u00e3o e oportunidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Milagros e John n\u00e3o se conheciam antes dos sinais acreanos, se conheceram assim, dividindo o ambiente de trabalho a c\u00e9u aberto. O que h\u00e1 de mais comum entre os dois \u00e9 a esperan\u00e7a de dias melhores. Sua maneira de ver nosso pa\u00eds chega a surpreender. Depois da entrevista, vi um vendedor de p\u00e3o cham\u00e1-los para beber \u00e1gua. Ali percebi o porqu\u00ea de eles serem t\u00e3o gratos. Ser um n\u00f4made deve ser cansativo, voc\u00ea parte antes de criar ra\u00edzes.&nbsp; No caso de John talvez ele ainda desbrave muitos lugares com o seu sorriso, j\u00e1 Milagros permanecer\u00e1 em terras acreanas sonhando com o dia em que seu curr\u00edculo ser\u00e1 traduzido e aceito.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a incerteza que encontrei na caminhada em busca dos imigrantes da Venezuela me lembra quando Alice, no pa\u00eds das maravilhas de Lewis Carroll, encontra o gato de Cheshire.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201c O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?<\/em><em><br><\/em><em>Isso depende muito de para onde voc\u00ea quer ir, respondeu o Gato.<\/em><em><br><\/em><em>N\u00e3o me importo muito para onde, retrucou Alice.<\/em><em><br><\/em><em>Ent\u00e3o n\u00e3o importa o caminho que voc\u00ea escolha, disse o Gato.<\/em><em><br><\/em><em>Contanto que d\u00ea em algum lugar, Alice completou.<\/em><em><br><\/em><em>Oh, voc\u00ea pode ter certeza que vai chegar se voc\u00ea caminhar bastante, disse o Gato.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o importa muito onde eles estavam indo ou onde desejavam ir, qualquer caminho j\u00e1 serviria. Assim como Alice, os venezuelanos, sejam ind\u00edgenas ou n\u00e3o-ind\u00edgenas, est\u00e3o buscando algu\u00e9m que lhes aponte um caminho seguro para continuar com menos medo. fato \u00e9, eles continuar\u00e3o se movimentando sempre que necess\u00e1rio, sempre para onde o sol brilha com mais for\u00e7a. Seja em terras brasileiras ou n\u00e3o, \u00e9 importante lembrarmos que somos todos filhos do mesmo sol.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/4566-vrpSbS-i8YSj5Qk6H6tFqk_x_Zp8muUQDfC0avCagvMKXboZ4EptQqG2NiYQtgkuv_KgLlUuLtjBPKk4t7cXuzftnzsvF_BxS7DJfbjz8vz4X0EAGJzZaiB7A\" alt=\"\"\/><figcaption>Jhon Azevedo e Milagros, Avenida Cear\u00e1, 2020. Foto: Hellen Lirt\u00eaz<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aspectos sociais da imigra\u00e7\u00e3o venezuelana no Acre&nbsp; Por Hellen Lirtez A temperatura na capital acreana (Rio Branco) tem uma m\u00e9dia de 32\u00b0C, 30\u00b0C na sombra. J\u00e1 na capital venezuelana (Caracas) varia de 28\u00b0C a 21\u00b0C, o que pode ser considerado um clima agrad\u00e1vel. O sol \u00e9 o elemento que sempre esteve presente na imigra\u00e7\u00e3o venezuelana, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":2070,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[3],"tags":[8],"coauthors":[],"class_list":["post-2065","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-corriqueiras","tag-destaque"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/image.jpeg?fit=1600%2C1066&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2065","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2065"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2065\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2091,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2065\/revisions\/2091"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2070"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2065"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2065"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2065"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=2065"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}