{"id":1455,"date":"2021-08-09T13:30:43","date_gmt":"2021-08-09T18:30:43","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=1455"},"modified":"2021-08-09T13:30:45","modified_gmt":"2021-08-09T18:30:45","slug":"um-seculo-de-historias-de-um-soldado-da-borracha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=1455","title":{"rendered":"Um s\u00e9culo de hist\u00f3rias de um soldado da borracha"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Foto: Arquivo da fam\u00edlia<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por Ila Caira Verus<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0A sala foi o lugar que ele escolheu para falar de sua vida. Sentado sobre uma cadeira de balan\u00e7o feita de cip\u00f3, bem aconchegante, que Z\u00e9 Gaud\u00eancio, como \u00e9 chamado por todos, estava a se embalar. O c\u00f4modo pintado harmoniosamente na cor creme era espa\u00e7oso e bem iluminado, mesmo \u00e0s seis horas da tarde, hor\u00e1rio que o aposentado todos os dias se senta em sua cadeira na frente da tv para assistir o jornal. Tudo parecia estar calculadamente no lugar, assim como a rotina de Seu Gaud\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jos\u00e9 Vaz da Silva \u00e9 um nordestino de 99 anos de idade, que completa 100 anos em outubro. Um senhor de estatura mediana, de barba por fazer, quase que totalmente branca. O idoso de rosto amig\u00e1vel parecia apreciar nossa conversa, pois a cada lembran\u00e7a, uma risada que n\u00e3o era nem um pouco contida. Vestindo uma camisa 3\/4 azul de bot\u00e3o, bermuda de flanela listrada e toalhinha de rosto no ombro, Seu Gaud\u00eancio parecia embalar sua cadeira em sintonia com o racioc\u00ednio que, com a idade j\u00e1 avan\u00e7ada, segue um pouco lento, mas ainda l\u00facido. Respondia minhas perguntas com coer\u00eancia, de forma que at\u00e9 emociona pela sagacidade e vigor pela vida. Em alguns momentos parava suas palavras e ficava olhando para um lugar fixo, como se estivesse vendo a cena que contava, demonstrando saudades de um tempo que n\u00e3o volta mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O nordestino de quase um s\u00e9culo de idade contou as dificuldades que enfrentou para chegar at\u00e9 o Acre. Vindo de navio do Rio Grande do Norte, relata que a viagem durou mais ou menos um ano, dias e mais dias em que somente avistavam \u00e1gua. Quando perguntei o que acontecia quando ficavam doentes, o senhor de cabelos ainda grisalhos, se calou pela primeira vez. Parecia procurar as palavras. Emocionado, o idoso rompe o sil\u00eancio e fala que quando algu\u00e9m adoecia, geralmente n\u00e3o resistia e morria, sendo jogado na \u00e1gua pela tripula\u00e7\u00e3o. Conta com pesar que viu muitos amigos morrerem: \u201ceu sentia muito por n\u00e3o poderem ter um enterro adequado. E a cada morte o medo parecia aumentar. \u00c0s vezes me sentia mal por estar vivo e bem\u201d. Me senti culpada por tirar seu sorriso, que deu lugar a pequenas l\u00e1grimas que escorriam em seu rosto, mas que logo foram enxugadas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O simp\u00e1tico senhor \u00e9 um verdadeiro contador de hist\u00f3rias. Quando indagado sobre sua inf\u00e2ncia, ele deu um sorriso de orelha a orelha, daqueles sinceros que chegam at\u00e9 os olhos. Por alguns segundos me perdi naquela risada t\u00e3o leve e contagiante. Seu Gaud\u00eancio relembra sua \u00e9poca de escola e diz que n\u00e3o gostava de estudar, que apenas ia para escola para brincar com os amigos e ver as garotas. Ah, as garotas\u2026 ele novamente soltou uma risada marota. E esclareceu que na escola sempre levava castigo da professora, pois tinha o h\u00e1bito de levantar a saia das colegas, motivo pelo qual levava palmat\u00f3ria. Vindo de uma fam\u00edlia tradicional nordestina, relata que seu pai trabalhava em uma grande fazenda e que viviam confortavelmente. Conta que adorava a\u00e7\u00facar mascavo e os queijos que eram feitos em casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O nordestino de quase um s\u00e9culo, que conheceu o rei do canga\u00e7o : \u201cLampi\u00e3o, somente matava quem fazia mal \u00e0s pessoas, n\u00e3o matava quem era inocente\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"987\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG-4025.jpg?resize=740%2C987&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-1456\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG-4025-scaled.jpg?resize=768%2C1024&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG-4025-scaled.jpg?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG-4025-scaled.jpg?resize=1152%2C1536&amp;ssl=1 1152w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG-4025-scaled.jpg?resize=1536%2C2048&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG-4025-scaled.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG-4025-scaled.jpg?w=1480&amp;ssl=1 1480w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><figcaption>Foto: Arquivo da fam\u00edlia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele conta que conheceu Lampi\u00e3o aos nove anos de idade. Na \u00e9poca, ele dormiu em sua casa, juntamente com seu bando. E no amanhecer do dia seguinte, depois de um caf\u00e9 preto feito pela sua m\u00e3e Primitiva, foi embora. Jos\u00e9 lembra que, ao se despedir, o cangaceiro acariciou seu cabelo e partiu de cavalo, sem olhar para tr\u00e1s, deixando o pequeno garoto parado, o vendo desaparecer de cavalo na imensid\u00e3o do sert\u00e3o nordestino. Para ele, o rei do canga\u00e7o era um homem justo no Nordeste, \u201csomente matava quem fazia mal \u00e0s pessoas, n\u00e3o matava quem era inocente. As pessoas n\u00e3o sabem como a hist\u00f3ria foi constru\u00edda\u201d, completa Seu Gaud\u00eancio, lembrando das cenas de quando era apenas uma crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Residente no munic\u00edpio de Brasil\u00e9ia, ele fala das dificuldades que enfrentou quando chegou no Acre. O nordestino saiu de sua cidade natal em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, na inten\u00e7\u00e3o de trabalhar na extra\u00e7\u00e3o da borracha, que na \u00e9poca estava no auge. Mas logo que chegou, enfrentou a realidade, sem conhecer ningu\u00e9m, apenas com a cara e a coragem. Ele conta que trabalhou na extra\u00e7\u00e3o borracha em um seringal que ajudou a abrir, que passou muita fome. Mas apesar dos grandes desafios que enfrentou, agradece, pois hoje \u00e9 aposentado como soldado da borracha.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu Gaud\u00eancio \u00e9 pai de sete filhos, a mulher morreu h\u00e1 cerca de quinze anos. Atualmente, Jos\u00e9 Vaz da Silva mora com o neto que criou como filho. Quando indagado sobre o segredo de viver tanto com sa\u00fade e lucidez, o senhor de olhar brilhante apenas sorri e diz: \u201csempre fui uma pessoa boa, que acredita na bondade\u201d. E esclarece que quando jovem plantou coisas boas, afirmando assim que \u00e9 inevit\u00e1vel a colheita de bons frutos. \u201cUma pessoa que planta feij\u00e3o n\u00e3o tem como ela colher arroz\u201d. E finalizou, dizendo: \u201cseja uma pessoa do bem e seja boa com as pessoas, um dia isso volta para voc\u00ea. E sorria sempre, pois sorrir engrandece a alma e alivia as dores\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Arquivo da fam\u00edlia Por Ila Caira Verus \u00a0A sala foi o lugar que ele escolheu para falar de sua vida. Sentado sobre uma cadeira de balan\u00e7o feita de cip\u00f3, bem aconchegante, que Z\u00e9 Gaud\u00eancio, como \u00e9 chamado por todos, estava a se embalar. 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