{"id":1316,"date":"2021-08-24T17:04:00","date_gmt":"2021-08-24T22:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=1316"},"modified":"2021-09-14T20:56:47","modified_gmt":"2021-09-15T01:56:47","slug":"olhares-sobre-a-transgeneridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acatraia.ufac.br\/?p=1316","title":{"rendered":"Olhares sobre a transgeneridade"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"font-size:12px\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/B9<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Guadalupe de Souza Pereira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das pessoas transg\u00eanero mais conhecidas do Brasil, Roberta Close \u2013 atriz, modelo e cantora \u2013 passou 15 anos tentando ter seu nome Roberta em seus documentos, mesmo ap\u00f3s passar por uma cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o genital e por dezenas de exames biol\u00f3gicos e laudos m\u00e9dicos. Roberta, \u00e0 \u00e9poca, descobriu ser uma pessoa intersexual \u2013 que biologicamente n\u00e3o responde ao masculino ou ao feminino.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que pessoas trans e travestis podem alterar o nome e g\u00eanero no registro civil sem se submeterem a provas ou a uma cirurgia. Se antes era uma quest\u00e3o sexual em diversos n\u00edveis, atualmente se trata do direito \u00e0 identidade de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>A separa\u00e7\u00e3o do sexo e do g\u00eanero, ou mesmo o questionamento ao que realmente \u00e9 considerado sexo, \u00e9 encontrado em diversas literaturas. No Conto Roxo: A Hist\u00f3ria da Minha Transexualidade, do livro Bricolagem Travesti, a autora Maria L\u00e9o Araruna relata: &#8220;nasci com uma marca de formato cil\u00edndrico. Era algo largo e que ficava solto no corpo. Disseram-me para me orgulhar desse objeto natural. As pessoas chamavam isso de homem, mas sempre achei que se tratava apenas de um p\u00eanis. Ele n\u00e3o interferia em nada. (&#8230;) O homem colocado em mim n\u00e3o existe&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A observa\u00e7\u00e3o de Maria corresponde \u00e0s discuss\u00f5es atuais sobre os estudos de sexualidade, que colocam a transgeneridade como uma dissid\u00eancia a um sistema sexual vigente que imp\u00f5e sexos bin\u00e1rios e heterossexuais. Estudiosos como Thomas Laqueur, que escreveu o livro Inventando o Sexo, consideram o sexo humano como um conceito insustent\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente o que se discute em termos de ativismo e de legisla\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m do que se entende biologicamente como sexo, se solidificando na identidade e na dignidade das pessoas. Entre outras mudan\u00e7as de percep\u00e7\u00e3o sobre o tema, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) <a href=\"https:\/\/site.cfp.org.br\/transexualidade-nao-e-transtorno-mental-oficializa-oms\/\">oficializou em 2019 a retirada da classifica\u00e7\u00e3o da transexualidade como transtorno mental<\/a> da 11\u00ba vers\u00e3o da Classifica\u00e7\u00e3o Estat\u00edstica Internacional de Doen\u00e7as e Problemas de Sa\u00fade (CID).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conceitos e termos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em <a href=\"https:\/\/issuu.com\/jaquelinejesus\/docs\/orienta__es_popula__o_trans\">\u201cOrienta\u00e7\u00f5es sobre identidade de g\u00eanero: conceitos e termos\u201d<\/a>, Jaqueline Gomes de Jesus, ativista trans, aponta que \u00e9 necess\u00e1rio diferenciar a identidade de g\u00eanero do que ela indica como funcionalidade de g\u00eanero. Portanto, dentro da identidade de g\u00eanero est\u00e1 a viv\u00eancia cisg\u00eanero, de quem se identifica com o g\u00eanero que lhe foi atribu\u00eddo no nascimento, e a viv\u00eancia transg\u00eanero, quando n\u00e3o h\u00e1 conformidade com o que lhe foi imposto. Esta \u00faltima engloba a viv\u00eancia transexual\/transg\u00eanero e tamb\u00e9m a travesti, que \u00e9 um termo popular no Brasil e se refere geralmente a uma identidade transfeminina marginalizada. Atualmente as travestis requisitam um tratamento mais respeitoso e associam esta identidade a uma hist\u00f3ria de luta e de orgulho. Pessoas n\u00e3o bin\u00e1rias ou ag\u00eaneras, que n\u00e3o se veem nem como homens tampouco como mulheres, tamb\u00e9m est\u00e3o englobadas como pessoas trans.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 funcionalidade de g\u00eanero, Jaqueline Gomes descreve que s\u00e3o apropria\u00e7\u00f5es de pap\u00e9is de g\u00eanero apenas por raz\u00f5es pr\u00e1ticas (trabalho, recrea\u00e7\u00e3o, arte, etc) e n\u00e3o por identidade. <em>Drag queens, drag kings<\/em> e transformistas s\u00e3o exemplos de express\u00f5es de g\u00eanero que ocorrem sobretudo por motivos art\u00edsticos. Uma pessoa que performa uma <em>drag queen<\/em> n\u00e3o necessariamente \u00e9 uma pessoa trans. <em>Crossdressers<\/em> s\u00e3o tamb\u00e9m exemplos, sendo estes, em geral, homens cis heterossexuais que usam roupas, maquiagens ou pe\u00e7as ditas femininas em momentos pontuais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante n\u00e3o confundir a identidade de g\u00eanero de uma pessoa com a sua sexualidade. Esta diz respeito \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o sexual, isto \u00e9 por qual g\u00eanero a pessoa se sente atra\u00edda, como heterossexual, bissexual, homossexual, assexual, panssexual. O transfeminismo busca, inclusive, que as orienta\u00e7\u00f5es sexuais respeitem \u00e0 identidade de g\u00eanero, fazendo com que, por exemplo, um relacionamento entre duas mulheres, cis e trans, seja respeitado como l\u00e9sbico, independente da genit\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Realidade trans no Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No boletim <a href=\"https:\/\/antrabrasil.org\/assassinatos\/\">&#8220;Assassinatos contra Travestis e Transexuais em 2021&#8221;<\/a>, a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) relata que &#8220;dados&nbsp; parciais&nbsp; de&nbsp; 2021&nbsp; indicam&nbsp; que&nbsp; assassinatos&nbsp; contra&nbsp; pessoas&nbsp; trans&nbsp; est\u00e3o acontecendo mais precocemente, contra v\u00edtimas cada vez mais jovens e com maior viol\u00eancia,&nbsp; e seguem&nbsp; com&nbsp; n\u00fameros&nbsp; altos&nbsp; apesar&nbsp; da pandemia&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O texto, assinado por Bruna Benevides e Sayonara Nogueira, avan\u00e7a descrevendo os casos mapeados pela Antra no Brasil: &#8220;Em&nbsp; 2020, a&nbsp; ANTRA&nbsp; encontrou um&nbsp; n\u00famero&nbsp; recorde&nbsp; de assassinatos contra travestis&nbsp; e&nbsp; mulheres&nbsp; trans. Um&nbsp; total&nbsp; de 175 casos foram mapeados contra&nbsp; 44&nbsp; nos Estados Unidos. J\u00e1 em 2021, nos quatro primeiros meses, enquanto nos EUA foram 19 pessoas trans assassinadas, no Brasil chegamos \u00e0 triste marca de 56 assassinatos \u2013 sendo 54 mulheres trans ou travestis e 2 homens trans ou transmasculinos. S\u00e3o in\u00fameros os casos&nbsp; que&nbsp; apresentaram&nbsp; requintes&nbsp; de&nbsp; crueldade&nbsp; e&nbsp; uso excessivo&nbsp; de&nbsp; for\u00e7a,&nbsp; e espancamentos &#8211; indicativos de se tratarem de crimes de \u00f3dio. Tendo sido encontrados ainda&nbsp; 5&nbsp; casos&nbsp; de&nbsp; suic\u00eddio,&nbsp; 17&nbsp; tentativas&nbsp; de&nbsp; assassinatos&nbsp; e&nbsp; 18&nbsp; viola\u00e7\u00f5es&nbsp; de&nbsp; direitos humanos contra pessoas trans, no mesmo per\u00edodo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O boletim tamb\u00e9m alerta para a dificuldade em catalogar tais casos, pois boa parte s\u00e3o subnotificados ou as pessoas trans n\u00e3o t\u00eam sua identidade respeitada pelos registros policiais. Mesmo assim, o mapeamento da Antra j\u00e1 \u00e9 alarmante. O ano de 2020 superou a m\u00e9dia anual de 122,5. Os n\u00fameros, por\u00e9m, tamb\u00e9m retratam o racismo no Brasil, visto que 80% das pessoas trans e travestis assassinadas em 2020 eram pretas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/CVLvRyb_JQ-nrQElnrEt0pzHLQUE2CUvqPMMkQLfDGu5umQpGGMjnagvrn6fmMB47E0ZgDZmoUhsVwSAOVGZl9Fuwb86pzkiqR_YiS2Ez35UiFKwDZde3-vGSQuDaCGp2i05phHC\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Essa violenta realidade d\u00e1 ao Brasil o t\u00edtulo de pa\u00eds onde mais matam transexuais no mundo, de acordo com dados do <em>Trans Murder Monitoring<\/em> (Observat\u00f3rio de Assassinatos Trans). O topo desse infeliz ranking \u00e9 ocupado pelo Brasil h\u00e1 12 anos consecutivos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A ditadura militar e a transgeneridade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muitos apontam a Ditadura Militar que tomou o Brasil por 25 anos (1964-1985) como um regime que aumentou o estigma sobre a popula\u00e7\u00e3o trans e travesti. Al\u00e9m da influ\u00eancia conservadora sobre os meios de comunica\u00e7\u00e3o da \u00e9poca, o per\u00edodo tamb\u00e9m intensificou as pol\u00edticas de repress\u00e3o contra pessoas trans. &#8220;Foi durante o Regime Militar que a pol\u00edcia iniciou uma pesquisa criminol\u00f3gica para justificar a pris\u00e3o de pessoas LGBT por &#8216;vadiagem&#8217;. A partir disso o delegado Guido Fonseca definiu ent\u00e3o o &#8216;alto grau de periculosidade travesti&#8221;, denuncia a comunicadora e historiadora Giovanna Heliodoro, conhecida na internet como Trans Preta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela diz que a \u201camea\u00e7a travesti&#8221; contou com apoio da sociedade civil e foi a justificativa legal para a persegui\u00e7\u00e3o de pessoas trans e travestis. Giovanna ressalta: &#8220;precisamos lembrar da Ditadura para n\u00e3o esquecer da nossa hist\u00f3ria e a de muitas travestis que foram assassinadas e presas para que estejamos aqui hoje&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O <a href=\"http:\/\/memoriasdaditadura.org.br\/lgbt\/\">acervo LGBT do projeto Mem\u00f3rias da Ditadura<\/a>, realizado pelo Instituto Vladimir Herzog, registra diversas opera\u00e7\u00f5es policiais em S\u00e3o Paulo, que se iniciaram em 1968, coincidindo com a instaura\u00e7\u00e3o do AI-5, e que se estenderam de maneira sistematizada a partir de 1975.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><\/p>\n\n\n\n<p>O delegado Wilson Richetti \u00e9 citado tamb\u00e9m no <a href=\"http:\/\/comissaodaverdade.al.sp.gov.br\/relatorio\/tomo-i\/parte-ii-cap7.html\">Dossi\u00ea da Ditadura, da Comiss\u00e3o da Verdade do Estado de S\u00e3o Paulo<\/a>. O Dossi\u00ea relata que &#8220;a ideologia dominante continha claramente uma perspectiva homof\u00f3bica, que relacionava a homossexualidade \u00e0s esquerdas e \u00e0 subvers\u00e3o&#8221;. \u00c0 \u00e9poca, as transexuais eram costumeiramente tratadas no masculino e confundidas com homossexuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de confirmar as den\u00fancias de Giovanna Heliodoro e o acervo do Instituto Vladimir Herzog, a Comiss\u00e3o da Verdade relacionou a efetividade das a\u00e7\u00f5es policiais aos governantes da \u00e9poca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-center is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>&#8220;Famosos nessa \u00e9poca, o delegado Jos\u00e9 Wilson Richetti e seus policiais promoviam verdadeiros arrast\u00f5es pelas ruas centrais. Estes resultavam em deten\u00e7\u00f5es violentas, justificadas por abaixo-assinados de comerciantes e trabalhadores da regi\u00e3o, em prol da moralidade defendida pelo regime, muitas vezes incentivados pelo pr\u00f3prio delegado. Estima-se que durante os finais de semana, entre 300 e 500 pessoas eram detidas, arbitrariamente, por noite em S\u00e3o Paulo. Dentre estas, muitas eram extorquidas e algumas foram torturadas.&#8221; <\/strong><\/p><cite><strong>(acervo LGBT do projeto Mem\u00f3rias da Ditadura, Instituto Vladimir Herzog)&#8221;<\/strong><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00eddia da \u00e9poca repercutia todas essas a\u00e7\u00f5es perpetuando a discrimina\u00e7\u00e3o e o estigma sobre as pessoas trans e travestis, como tamb\u00e9m aos negros, aos homossexuais e \u00e0s l\u00e9sbicas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Houve tamb\u00e9m a ic\u00f4nica manifesta\u00e7\u00e3o em 14 de junho de 1980, na escadaria do Theatro Municipal de S\u00e3o Paulo, tida como o primeiro ato p\u00fablico do movimento LGBTI+ no Brasil, que exigia esclarecimentos de Richetti e do secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica da \u00e9poca, Octavio Junior, em raz\u00e3o das persegui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"369\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/WhatsApp-Image-2021-07-30-at-16.51.08.jpeg?resize=740%2C369&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-1346\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/WhatsApp-Image-2021-07-30-at-16.51.08.jpeg?w=741&amp;ssl=1 741w, https:\/\/i0.wp.com\/acatraia.ufac.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/WhatsApp-Image-2021-07-30-at-16.51.08.jpeg?resize=300%2C149&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><figcaption>Como figura central na imagem, de terno, o delegado Jos\u00e9 Wilson Richetti, durante a\u00e7\u00e3o contra travestis, prostitutas e homossexuais. \u00c0 direita, uma transexual algemada pelos policiais. (Juca Martins \/ Olhar Imagens)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/b3LHB_pghrwVZLa4xHLB4Z0EJ1rFtzkxNEIwkPo7j_sGYFns0RqnUDktQJrqDjCa_0Tzv9C1WBc5lrL72bYK2zzu0C8N0xQdTUnMz8m4qR58BDp7Vk3uQoamTd3OuNW5l-uX2ctI\" alt=\"\" width=\"739\" height=\"324\"\/><figcaption>O jornal Lampi\u00e3o era um folheto alternativo feito pela comunidade LGBTI+ da \u00e9poca que se esfor\u00e7ou em denunciar as persegui\u00e7\u00f5es. (Imagem com fonte desconhecida)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/JyOYISCh8x8CeQlOu4tVLelJ_irnap4HDEfFv2hRXcgcOl63Z0NUuLr2m1zBIEhXUOabBY8QUwvXZfgzwX4mctRkNwXus09SdlaF_GwUCIyf9eaXBsdbMRSTmyS6sDOVVo3rn08G\" alt=\"\" width=\"758\" height=\"862\"\/><figcaption>O Estado de S\u00e3o Paulo repercute a imagem de travestis associadas ao crime (Imagem: Disponibilizada por Giovanna Heliodoro)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/FWHxM-g5wSq_9bTykpXTTKXa7kDPk1-SZrFSHYlTKMWyDwXZTFZE1HMLzyW7ioJDd8haoI7fJ-PIHGOzyRsVhb9d2pD8aTPIUsgQPbLurQVOP-3PzfW_O5m1EMzLASHrQBLIyPJR\" alt=\"\" width=\"642\" height=\"436\"\/><figcaption>Passeata contra a repress\u00e3o policial do delegado Jos\u00e9 Wilson Richetti, evento lembrado como a primeira mobiliza\u00e7\u00e3o p\u00fablica do movimento LGBT no Brasil, em 14 de junho de 1980. (Imagem: Comiss\u00e3o da Verdade do Estado de S\u00e3o Paulo)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Onde est\u00e3o as pessoas trans hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica brasileira \u00e9 um espa\u00e7o que tem sido ocupado pelas pessoas trans. S\u00f3 em 2020, nas elei\u00e7\u00f5es municipais, foram eleitas, segundo a Antra, 2 homens trans e 28 travestis e mulheres trans em todo o Brasil, sendo 7 delas com a candidatura mais votada em suas cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Erika Hilton (Psol-SP), eleita na capital paulista, \u00e9 a primeira mulher negra e transexual eleita vereadora na capital paulista \u2013 e com 50.508 votos, o que a faz a mulher mais votada do Brasil nas elei\u00e7\u00f5es de 2020. &#8220;Estamos sedentas de direitos humanos e equidade. N\u00f3s criaremos muitas fissuras nessas estruturas de poder e domina\u00e7\u00e3o&#8221;, disse ela, rec\u00e9m-eleita, ao jornal G1.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/ivjtnK8Orx3DLZH9RNMj9XL8gccPvvDifOWtey4r-EL4ghMB2lMqgwXuf5C2We-pzU14s52yDhV8gkKvOQ9WE0ZmeOvvPaNZYgMoy_CU8EzKPR1eQ1cs09EXAkEr0pSKqcx-AH7A\" alt=\"\"\/><figcaption>Duda Salabert (PDT-MG) em Belo Horizonte, Benny Brioli (PSOL-RJ) em Niter\u00f3i, Carolina Iara (PSOL-SP) em S\u00e3o Paulo, Linda Brasil (PSOL-SE) em Aracaju, Erika Hilton (PSOL-SP) em S\u00e3o Paulo e Thammy Miranda (PL-SP) em S\u00e3o Paulo. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram\/Arquivo de Socialismo Criativo.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No entanto, apesar dos dados imprecisos, a Antra estima que 90% da popula\u00e7\u00e3o trans e travesti no Brasil se prostituem, principalmente pela dificuldade de acesso ao mercado de trabalho e por sa\u00edrem muito cedo de casa \u2013 geralmente s\u00e3o expulsas. \u00c9 evidente a dificuldade em inserir esta popula\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho ou mesmo de terem seu nome e g\u00eanero reconhecidos legalmente. <a href=\"https:\/\/www.prefeitura.sp.gov.br\/cidade\/secretarias\/upload\/direitos_humanos\/LGBT\/AnexoB_Relatorio_Final_Mapeamento_Pessoas_Trans_Fase1.pdf\">Um estudo da Prefeitura Municipal de S\u00e3o Paulo, organizado pelo Centro de Estudos de Cultura Contempor\u00e2nea (CEDEC)<\/a>, indica que 75% das pessoas entrevistadas deixaram de morar com a fam\u00edlia precocemente. Quase a metade (46%) das travestis, segundo o estudo, s\u00e3o profissionais do sexo, enquanto 34% das que se identificam enquanto mulheres trans atuam profissionalmente da mesma forma. Pelo menos 18% dos homens trans s\u00e3o atendentes de telemarketing ou vendedores de lojas e lanchonetes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/J3iD0T1YgEF1DyjXHa9g6i7GHu_XjKbSbx6o3qj6-vy_m2weoOwFtswYUPeZm4ic3_Rsgc7DK5Xx7OVP9C0tlw2S_B3JcsqvqC3k-MBnYSIhJSjdIAyQAYkDm0M_UQHIvin67oS0\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/V2k4pAzFOX2XdPYj7GHI2RT6389Je51Z4oylNeib4oHwL61qpxSpFDMudqLsK_T_jisM3qoetzW1hQEXWH8ze1h-heT100DwrM75D_wIBp70pfQyD4XUBZgNugEflRDO3m0iQJJm\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Representatividade nas artes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com uma realidade adversa, as pessoas trans e travestis t\u00eam se destacado no mundo art\u00edstico. Ao lado de pessoas trans como a cantora Liniker Barros, a artista Ver\u00f3nica Valenttino, as cantoras Urias e Danna Lisboa, a rapper Ceci Dellacroix e a maquiadora Mag\u00f4 Tonhon participam da produ\u00e7\u00e3o da m\u00fasica e do v\u00eddeo-clipe de Ora\u00e7\u00e3o, na qual Linn da Quebrada levanta uma discuss\u00e3o sobre a aus\u00eancia de afeto com a popula\u00e7\u00e3o trans e travesti, mas tamb\u00e9m indica uma unida cena brasileira de artistas e personalidades transg\u00eaneros.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/JOKyPd4yX4q7Y8yOCbuBsMUupbdLeHf-XbNGth54SF9i2NKYHV_aOFvE4_QPnte3nyRHYc5kNkMc6Lwubo7L8nFQ_oztGxD8EO42YeGy7zka2ad87x1roDrTqoUgYtPIg-CJVzG6\" alt=\"\"\/><figcaption>Linn da Quebrada e coral de mulheres trans na can\u00e7\u00e3o Ora\u00e7\u00e3o. A letra diz: &#8220;N\u00e3o queimem as bruxas, mas que amem as bixas, mas que amem. Que amem, clamem. Que am\u00e9m. Que amem as travas tamb\u00e9m!&#8221;.&nbsp;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=y5rY2N1XuLI\" target=\"_blank\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=y5rY2N1XuLI<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A artista Liniker, cantora de soul e black music, tamb\u00e9m \u00e9 a estrela da recente s\u00e9rie da Amazon Prime Music chamada Manh\u00e3s de Setembro. A s\u00e9rie conta a hist\u00f3ria de Cassandra, uma mulher trans, que descobre ter um filho de 10 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra s\u00e9rie que tem enriquecido o universo LGBTI+ \u00e9 a americana Pose (FX), com o maior elenco trans da hist\u00f3ria da televis\u00e3o. O roteiro apresenta a cultura ballroom entre as d\u00e9cadas 80 e 90 em New York. Mj Rodriguez, Dominique Jackson e Indya Moore s\u00e3o atrizes trans que d\u00e3o vida a personagens marcantes da s\u00e9rie de televis\u00e3o. Fora do contexto americano, a vida de Cristina Ortiz Rodrigues, uma mulher trans conhecida na Espanha, ganhou uma s\u00e9rie biogr\u00e1fica chamada La Veneno (HBO Max), seu famoso apelido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cada vez mais, surgem tamb\u00e9m produ\u00e7\u00f5es audiovisuais que apresentam viv\u00eancias trans fora de estere\u00f3tipos de agressividade ou de humor. Por exemplo, Euphoria (HBO) e Sense8 (Netflix, dirigida pelas irm\u00e3s Wachowski, duas mulheres transg\u00eanero), entre outras que documentam hist\u00f3rias e lutas da comunidade, como A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson (Netflix) e Revela\u00e7\u00e3o (Netflix). Revela\u00e7\u00e3o (em ingl\u00eas Trans Lives on Screen) analisa, com an\u00e1lises&nbsp; cineastas e estudiosos transg\u00eaneros, o amplo aumento de obras audiovisuais com narrativas trans e o seus impactos sobre a popula\u00e7\u00e3o trans e travesti.<\/p>\n\n\n\n<p>A representatividade nas m\u00eddias e em demais espa\u00e7os de poder s\u00e3o fontes de inspira\u00e7\u00e3o para as novas gera\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m de esperan\u00e7a para esta comunidade t\u00e3o estigmatizada e violentada no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os efeitos da ocupa\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os s\u00e3o incalcul\u00e1veis e imprevis\u00edveis, mas com certeza formam exemplos que despertam orgulho e uma luta cada vez mais forte em defesa dos direitos das pessoas transg\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Existe um prov\u00e9rbio africano que eu gosto muito que fala: enquanto os le\u00f5es n\u00e3o contarem a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, os ca\u00e7adores continuar\u00e3o sendo os her\u00f3is. \u00c9 sobre isso que estamos falando: enquanto n\u00f3s n\u00e3o contarmos as nossas pr\u00f3prias hist\u00f3rias e n\u00e3o construirmos essa hist\u00f3ria, o fascismo, o \u00f3dio, a \u2018cis-hetero-norma\u2019 continuar\u00e1 a ser heroica&#8221;, arremata Erika Hilton, a vereadora mais votada do Brasil, surpreendentemente uma mulher trans, negra e perif\u00e9rica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o\/B9 Por Guadalupe de Souza Pereira Uma das pessoas transg\u00eanero mais conhecidas do Brasil, Roberta Close \u2013 atriz, modelo e cantora \u2013 passou 15 anos tentando ter seu nome Roberta em seus documentos, mesmo ap\u00f3s passar por uma cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o genital e por dezenas de exames biol\u00f3gicos e laudos m\u00e9dicos. 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