O sustento que nasceu da terra

A rotina de quem vive da feira e com trabalho diário garante uma vida melhor para a família. 

Por Maria Lídia Souza e Patrícia Barros

Às três da manhã, quando a maior parte da cidade de Rio Branco ainda dorme, Maria José Silva já está de pé, colhendo hortaliças e organizando os produtos que serão levados para a feira. Da zona rural até a banca, a rotina que se repete há mais de duas décadas revela uma história de trabalho, perseverança e superação.

Foi na venda de verduras que ela encontrou o sustento da família. Com esse trabalho, criou os filhos e realizou um dos maiores sonhos da vida: ver a filha formada na faculdade.

Durante cerca de 20 anos, Maria trabalhou no Mercado Municipal Elias Mansour, no centro de Rio Branco, onde conquistou clientes e construiu uma relação de confiança com quem frequentava a feira.

Com a demolição do mercado para a construção de um novo espaço cultural e artístico, ela e os demais comerciantes foram transferidos para um local provisório. A adaptação, no entanto, não tem sido fácil. Segundo Maria, desde a mudança as vendas diminuíram e os clientes enfrentam dificuldades para localizar o novo espaço, o que tornou a rotina ainda mais desafiadora.

Uma escolha pela família 

A venda de hortaliças começou em um período delicado da vida. Separada do marido, grávida e com os filhos pequenos, Maria deixou o trabalho como empregada doméstica para ficar mais próxima das crianças.

Foi na feira que encontrou a oportunidade de reconstruir a vida e garantir o sustento da família. “Quando eu trabalhava como doméstica, passava o dia todo fora. Meus filhos eram pequenos e eu precisava ficar perto deles. Foi aí que escolhi vender verduras”, conta.

Ao longo dos anos, a banca tornou-se mais do que um local de trabalho. Foi dela que saiu a renda para criar os filhos e pagar a graduação da filha em Enfermagem. Embora o sonho da jovem fosse cursar Direito, as condições financeiras da família não permitiam.

“Eu não tinha como pagar Direito. Fiz o que estava ao meu alcance. Hoje ela mora fora do Estado, está se especializando e eu tenho muito orgulho dela.

O trabalho por trás da banca

Para cada hortaliça vendida existe um trabalho que, muitas vezes, passa despercebido pelos consumidores. Para Maria José, o cultivo, a colheita, o transporte e a comercialização dos produtos exigem esforço diário e longas jornadas.

“As pessoas acham caro um maço de cheiro-verde, mas não sabem quantas horas de trabalho a gente passa para trazer esse produto até aqui”.

Além dos desafios da produção, a feirante passou a enfrentar dificuldades após a mudança para o mercado provisório. Segundo ela, a estrutura do local, o calor excessivo, a pouca circulação de clientes e a dificuldade de localização das bancas reduziram o movimento e afetaram as vendas.

“As vendas caíram muito. Tem gente que nem sabe onde a gente está”.

Orgulho de quem planta

Mesmo diante das dificuldades, Maria José faz questão de afirmar que sente orgulho da profissão que construiu ao longo da vida.

“Eu tenho orgulho de dizer que sou produtora rural”.

Foi na feira que ela criou os filhos, garantiu o sustento da família e conseguiu realizar o sonho de ver uma filha formada. Enquanto aguarda a conclusão do novo mercado, segue acreditando que o trabalho cultivado ao longo de mais de duas décadas continuará rendendo frutos e verduras!

Redação

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