Por Maria Lídia Souza e Patrícia Barros
Integrantes contam histórias de vida entrelaçadas com a quadrilha vencedora do 24º Concurso Estadual de Quadrilhas Juninas do Acre, no Arraial Cultural 2026.
Fundada em 2001, a Sassaricano na Roça ocupa um lugar de destaque nas festas juninas acreanas, acumulando títulos, inovando em seus espetáculos e conquistando reconhecimento dentro e fora do Acre. Mas, por trás dos figurinos, coreografias e apresentações que encantam o público, existem histórias construídas por pessoas que transformam constantemente o grupo com acolhimento e superação. Para quem faz parte dessa trajetória, o maior patrimônio nunca foram os títulos, mas as pessoas.
Da arquibancada para o coração da quadrilha
Antes de vestir o figurino da Sassaricano, Helena Nascimento, de 31 anos, conhecia o grupo apenas da arquibancada. Ela começou a acompanhar o movimento junino em 2010, via apresentações de diferentes quadrilhas até perceber que havia algo especial naquele grupo.
Ainda na universidade, decidiu transformar essa admiração em pesquisa. Escolheu a Sassaricano como tema da monografia e passou a conhecer de perto a história da quadrilha, entrevistando antigos coordenadores e acompanhando os bastidores da preparação dos espetáculos. O trabalho acadêmico, no entanto, acabou mudando os rumos da própria vida. “Eu resolvi trabalhar com a Sassaricano. Então eu uni o útil ao agradável. Já que era meu objeto de estudo, eu fui pra lá. Na prática e na teoria, eu fui ver como é que funcionava.”
A pesquisa deu lugar ao pertencimento. Helena passou a integrar a quadrilha como brincante e, posteriormente, assumiu funções na coordenação. Durante esse período, precisou conciliar trabalho, faculdade, ensaios e a monografia. “Foi uma loucura, mas deu certo.”

Quem vive a rotina das quadrilhas, percebe que o espetáculo visto pelo público representa apenas uma pequena parte do trabalho realizado ao longo do ano. Por trás dos minutos na arena estão meses de ensaios, planejamento e uma intensa mobilização para que cada apresentação aconteça.
Segundo Helena, um dos maiores desafios enfrentados pela quadrilha é a falta de recursos financeiros. Sem um apoio integral do poder público, o grupo recebe auxílio em alguns serviços, como estrutura para eventos e depende da aprovação de projetos em editais. Ainda assim, o dinheiro arrecadado está longe de cobrir os custos de um espetáculo. Figurinos, cenários, tecidos, efeitos especiais e transporte exigem investimentos altos, fazendo com que coordenadores e brincantes organizem arraiais e, muitas vezes, utilizem recursos do próprio bolso para manter as atividades.
“A gente sobrevive pelos editais, mas não é suficiente. O prêmio que a gente ganha não paga nem o figurino. Tem coordenador que tira dinheiro do próprio bolso e os brincantes também ajudam para que o espetáculo aconteça”, ressalta.
Para ela, a quadrilha representa muito mais do que uma competição, se tornou um porto seguro, é onde muitas pessoas encontram apoio para enfrentar os desafios do dia a dia. A afirmação revela uma dimensão pouco conhecida do movimento junino: uma rede de relações marcada pela amizade, pelo respeito e pelo sentimento de pertencimento.
“Eu digo que a maioria que tá no grupo não é nem pela disputa, mas pelo amor, pelo refúgio que as pessoas têm ali. Tem brincantes que enfrentam problemas dentro de casa e buscam a quadrilha como refúgio. Não é terapia, mas é terapêutico.”
De mãe a filha: tradição, amor e legado
Tudo começou com a dança, por diversão, mas Kedna Nascimento, com o passar dos anos foi compreendendo o verdadeiro significado do São João. Ali ela viu sua vida ser intercalada junto ao grupo, fez amizades, formou família e hoje exerce a função de vice-presidente.
Kedna entrou na quadrilha em 2003. Embora tenha passado um tempo distanciada das apresentações, voltou motivada pelo amor que sempre teve pela cultura junina de quadrilha.
“Nesse ambiente de quadrilha junina que conheci meu ex marido e passamos uns anos casados. Constituímos nossa família dentro da quadrilha junina e tivemos uma filha. Ela é uma sassariqueira nata da roça. Eu nem consigo explicar o tamanho desse amor”, afirma, emocionada.
Além de dançar, Kedna assumiu a função de liderança. Ela se tornou vice-presidente por necessidade da própria organização. “Isso só reforçou meu comprometimento e responsabilidade que sempre tive com o grupo.”

Na diretoria, as decisões são tomadas de forma conjunta. Para escolher o tema de cada temporada junina, são abertas inscrições para que os integrantes apresentem suas ideias. A coordenação organiza a seleção e a proposta mais votada é escolhida. Segundo Kedna, o trabalho dentro da quadrilha é compartilhado, com todos os integrantes contribuindo em diferentes funções e dividindo a responsabilidade pelo resultado final, que não depende apenas da liderança, mas de todo o grupo.
Kariele Damasceno, filha de Kedna, relata o quanto o movimento junino é rico em cultura, responsabilidade, trabalho em equipe, confiança, aprendizado, respeito e resiliência, “São ensinamentos que levo pra minha vida”. Para ela, cada apresentação é única, o nervosismo surge, mas rapidamente é substituído pela performance e emoção. ”Ao entrar no palco, vale muito a pena os ensaios, o cansaço e as noites mal dormidas.”

“Gostaria que as pessoas se permitissem conhecer o movimento junino além do palco de nossas apresentações. Quem está fora vê apenas o espetáculo, mas quem vive sabe que é um horizonte de estudo, dedicação e acima de tudo muito amor”, recomenda Kariele.
Um pouco da história
A trajetória da quadrilha começou de forma simples. Antes de receber o nome Sassaricano na Roça, o grupo já foi JPC na Roça e Caipiras Nova Esperança. Os primeiros ensaios aconteciam em uma igreja e, depois, em uma escola do bairro. Com o crescimento, vieram também os desafios. Faltavam recursos, espaço para ensaiar e, muitas vezes, apoio da própria comunidade. Uma vez, vizinhos chegaram a jogar pedras contra o grupo durante os ensaios.
Mas a quadrilha resistiu. O espaço improvisado deu lugar a um lugar fixo, os espetáculos cresceram e a Sassaricano conquistou reconhecimento. Atualmente ela é Tetra Campeã Municipal e Bi Campeã Estadual.
A quadrilha Sassaricano na Roça é uma explosão de sucesso, que só tem crescido ao longo dos anos. Com a premiação de 2026, vai representar o Acre no Arraial Brasil, disputa nacional de quadrilhas juninas, que acontece em Goiânia, no início de agosto. A participação será com grande expectativa: em 2009, quando representou o estado, foi vice-campeã brasileira e o casal de noivos foi eleito o melhor do país.





