Entre centenas de sítios arqueológicos, o estado reúne 462 geoglifos registrados pelo Iphan e um mistério ancestral inusitado
Por Matheus Miranda
O Acre é hoje o estado brasileiro que apresenta o maior percentual já registrado de geoglifos na Amazônia. São mais de mil registros até o momento, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), consolidando-se como destaque na arqueologia brasileira.
Na porção oeste e sul do estado encontra-se o Peru, país conhecido mundialmente pelo turismo sobre achados arqueológicos de populações pré-colombianas. O país vizinho concentra cerca de 700 geoglifos catalogados. Os geoglifos são uma descoberta arqueológica, um tipo de escavação na terra com formatos geométricos. Em muitos dos casos, apresentam formatos circulares, quadrados e retângulos, triângulos ou até mesmo a sobreposição de dois formatos. Estão comumente relacionados a civilizações antigas que construíram esses monumentos como pontos de geolocalização, para usos em rituais religiosos ou manifestações culturais.
A superintendente do Iphan/Acre, Antônia Barbosa, informa que ainda estamos em processo de descobrimento, apesar da enorme quantia já identificada. “Esse número continua crescendo à medida que avançam as pesquisas, o sensoriamento remoto, a análise de imagens de satélites, levantamento com drones e LiDAR”, diz.
O arqueólogo acreano Fernando Ferreira, pesquisador de geoglifos e Coordenador de Área no Acre do projeto Amazônia Revelada, explica que o LiDAR (Light Detection and Ranging) é uma tecnologia de mapeamento remoto que utiliza pulsos de laser para medir a superfície com alta precisão. Na Amazônia, ele consegue atravessar a copa das árvores em áreas cobertas pela floresta, possibilitando enxergar o relevo e produzir modelos mais detalhados de terrenos
“É quase como se esse modelo digital retirasse a vegetação e mostrasse os caminhos criados pelos geoglifos dentro da floresta como valas, mosaicos e as estruturas geométricas gigantescas”, explica o arqueólogo.

Construções complexas
Em contradição com a história comumente partilhada sobre a inexistência das ocupações humanas antigas no Acre e o isolamento da região, a enorme quantidade desses sítios arqueológicos identificados mostram, hoje, justamente o contrário.
Para o arqueólogo Fernando Ferreira, as pesquisas revelam que “está começando a aparecer uma paisagem muito mais rica do que aquela velha imagem da Amazônia vazia ou praticamente intocada pela ação humana”.
Antônia Barbosa diz que os geoglifos revelam uma realidade complexa, mostrando que os construtores tinham técnicas e conhecimento. “Obras dessa dimensão pressupõem planejamento, organização do trabalho e conhecimento da paisagem”, destaca a superintendente do Iphan.
“Estamos encontrando estruturas monumentais; são redes de caminhos que integram áreas de ocupação em diferentes formas de transformação dessa paisagem, mostrando para nós que as populações indígenas ocuparam este território por muito tempo e tinham um conhecimento profundo desses ambientes e tecnologias”, completa o pesquisador Fernando Ferreira.
.Os geoglifos não podem e nem devem ser compreendidos isoladamente, pois cada um integra a paisagem e o meio que estão inseridos de maneira mais ampla. Essas construções nos impedem de ignorar o passado e a tecnologia social e instrumental que caracterizaram a história do Acre.
Revelando o Acre
Fernando Ferreira é um dos arqueólogos responsáveis pelo projeto de mapeamento de geoglifos no Acre, denominado Amazônia Revelada. Rio-branquense crescido em Sena Madureira, é formado em História Bacharelado pela Universidade Federal do Acre (Ufac) e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Diversidade Sociocultural (, vinculado ao Museu Paraense Emílio Goeldi. Atualmente cursa Doutorado em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP).
Fernando recorda que o seu primeiro contato com a arqueologia foi através de uma visita da escola ao museu de Sena Madureira, hoje infelizmente fechado, onde conheceu as urnas Shiburemas. “Eu lembro de olhar aqueles artefatos e perceber que existia uma história muito mais antiga naquele lugar onde eu estava, e eu sequer conhecia”, diz o arqueólogo.
Em 2011, quando ingressou na universidade, Fernando relata que o curso não possuía estrutura na área. Porém, não imaginava a guinada que a sua vida teria, influenciado pelos geoglifos.
“Naquele momento, a arqueologia não tinha espaço na formação acadêmica. Não tinha professores de arqueologia. No curso de História se falava pouco. Então, na minha cabeça, a arqueologia tinha virado coisa de Indiana Jones, do cinema, da TV”, diz.
A entrada na arqueologia o fez enxergar o caminho da investigação sobre o patrimônio de uma história acreana quase desconhecida. Ele começou a participar das pesquisas no sítio arqueológico Sol de Campinas, um projeto de “sítio-escola” que levou estudantes de História e Geografia da Universidade Federal do Acre (Ufac) para participar dos estudos arqueológicos conduzidos pela USP em parceria com o Iphan e a Ufac.
“Passei cerca de um mês tendo contato direto com a arqueologia, no campo, aprendendo técnicas de escavação, registros, convivendo com escavadores, estudantes de outros locais do Brasil e foi quando conheci o professor Eduardo Góes Neves do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP”.
Atualmente o arqueólogo Fernando Ferreira, à convite do professor Eduardo Neves, coordena as ações de pesquisa e monitoramento de novos sítios arqueológicos no Acre, pelo projeto Amazônia Revelada.
Tapando a história
Em contrapartida a este cenário de riqueza histórica, os impactos atuais provenientes da agropecuária mudam a paisagem. Muitas alterações acontecem devido ao desmatamento ou ao plantio por máquinas pesadas nessas regiões, que seguem tapando as valas e valetas de geoglifos.
Para o arqueólogo Fernando, essas estruturas centenárias que resistiram a fenômenos da natureza, hoje estão sendo profundamente alteradas pela ação humana em um tempo recorde.
A implementação das novas tecnologias como drone e o sistema LiDARseguem como as alternativas mais rápidas e seguras para identificar e buscar proteger os ecossistemas da Amazônia, todavia não substituem a profissionalização humana na operação dos sítios, segundo Fernando.
Além das novas tecnologias, Fernando ressalta o papel das comunidades durante estas operações:“A gente faz isso consultando a comunidade, conversando sempre e visitando aquelas pessoas a fim de explicar o que está sendo feito, sobre os pedidos de autorização tanto para entrada a pé como no levantamento de drones”.
A preservação do sítios requer consciência social da população, especialmente para quem reside nestes espaços, que guardam a história de um povo que habitava a Amazônia pré-colombiana. E compreensão, por parte dos profissionais, uma vez que as ações de pesquisa dentro do geoglifos integram a rotina desses moradores.
Para o arqueólogo acreano, “preservar os geoglifos não é preservar apenas a vala ou um desenho geométrico no chão. É preservar a informação, a memória e a história, pois cada sítio representa parte da história do Acre que talvez nunca mais conseguiremos recuperar”.
Futuro do turismo no Acre
A ocorrência dos geoglifos gera debates e teorias diversas em todo o mundo. A arqueologia busca compreender o que motivava essas civilizações a criarem esses monumentos gigantescos. Seriam pontos de encontro? Moradias?
O desenvolvimento do Arqueoturismo no Acre surge como estratégia na construção de uma nova rota turística, seguindo um movimento de interesse da ciência e dos entusiastas da arqueologia na Amazônia.
A guia de turismo peruana Carmen Rojas realiza atividades de acompanhamento em sítios arqueológicos tanto no Acre quanto em cidades próximas, no Perú. Para ela, os geoglifos possuem o potencial de movimentar a economia do Acre beneficiando diretamente as comunidades locais e municípios como Capixaba, Senador Guiomard e Plácido de Castro.
“Pequenos produtores e moradores dos ramais passam a faturar diretamente com as pousadas domiciliares, restaurantes de comidas típicas, venda de artesanato e frutas da região”, diz a guia.
O investimento no turismo ecológico integrado ao arqueoturismo desenvolve uma cadeia que conecta diversas alas do turismo, como o Turismo de Base Comunitária e o Agroturismo, por exemplo, criando oportunidades importantes na geração de empregos, e, sobretudo na internacionalização do Acre.
“Os geoglifos são a oportunidade que temos para as comunidades no entorno dos geoglifos mais conhecidos; que estes estabelecimentos sejam protagonistas e beneficiários do turismo internacional feito no Acre”, reflete Carmen Rojas.
A falta de estrutura encabeça o principal desafio no desenvolvimento desse setor, seguido pela necessidade de regulação adequada e incentivo privado. Por fim, a ausência das parcerias com Estado, de operadores do Turismo Receptivo e da adesão de agências especializadas.
Carmen explica que não existem centros de visitantes, passarelas de observação ou sinalizações na maioria dos sítios. O básico falta.
“O sítio arqueológico Jacó de Sá, localizado às margens da BR-317, Rio Branco, Acre, possui uma estrutura básica de proteção pelo Iphan, mas não é um receptivo turístico ativo com banheiros, lanchonetes, ou guias de plantão”, diz a guia Carmen.
Por fim, reconhecer a relevância deste passado é apresentado como o novo passo na geração de valor, inovação e desenvolvimento do Acre.
Curiosidade
Um dos geoglifos mais antigos no mundo hoje é o Las Playas, que fica no estado do Arizona (EUA) e remete a uma figura de um peixe com aproximadamente 83 metros de comprimento. O monumento, considerado sagrado pelos povos nativos da região, foi redescoberto por arqueólogos norte-americanos em 1979 e possui datação de cerca de 7.500 anos, segundo publicação da The SAA Archaeological Record, em setembro de 2026. O monumento entrou no centro do debate da arqueologia mundial devido à construção de um muro na divisa do estado, sob ordens do presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump.