Vanessa Sousa e Jamile Romano
Disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina contra o HPV ainda enfrenta desafios para ampliar a cobertura vacinal entre crianças e adolescentes no Acre. Segundo dados do Ministério da Saúde em 2026, o estado registra 57,44% de cobertura vacinal entre crianças e adolescentes de 9 a 14 anos. O índice permanece abaixo da meta de 90% estabelecida pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI).
Embora a cobertura vacinal tenha aumentado nos últimos anos, o estado ainda enfrenta desafios para alcançar a meta. De acordo com Ariane Farias, chefe do Núcleo do Programa Saúde na Escola da Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre), as equipes de Atenção Primária lidam diariamente com dificuldades que incluem a circulação de informações falsas sobre as vacinas.
“Existem inúmeros desafios que as equipes da Atenção Primária enfrentam para melhorar as metas vacinais, desde barreiras geográficas até barreiras de informação. Apesar disso, já houve um aumento considerável da cobertura quando comparado aos anos anteriores”, afirma.
| Coortes Vacinais – Papilomavírus Humano (HPV)Cobertura 9 de 14 Anos – Evolução 2014-2026 por sexo – Acre |
| Coortes Vacinais – Papilomavírus Humano (HPV)Cobertura 9 de 14 Anos – Nascidos entre 2012 e 2017 – Acre | |
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Dados do painel de vacinação contra o HPV do Ministério da Saúde, atualizados em 07/10/2026 Fonte: Ministério da Saúde
Segundo Ariane, a baixa cobertura não é um problema exclusivo da vacina contra o HPV. Ela explica que campanhas como as da Influenza e da Covid-19 também sofreram impactos provocados pela desinformação.
No caso do HPV, a gestora destaca a influência negativa de um episódio ocorrido em 2017. Na ocasião, adolescentes apresentaram sintomas neurológicos que foram associados a uma possível reação à vacina que tomaram em escolas acreanas. Uma extensa investigação científica realizada por médicos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP comprovou que os sintomas não tinham causa biológica ligada aos componentes da vacina.
Apesar das conclusões da pesquisa da USP, grupos locais e páginas de redes sociais, com apoio de movimentos anti-vacina, continuaram disseminando vídeos e depoimentos falsos que atribuíam as convulsões aos imunizantes. A repercussão contribuiu para a disseminação de informações falsas e para o aumento da insegurança da população.
“As famílias de adolescentes que estão na faixa etária da vacinação, infelizmente, muitas vezes preferem acreditar no que ouvem de vizinhos, amigos ou parentes, em vez de buscar orientação junto aos profissionais de saúde do seu território”, ressalta.
Para Ariane Farias, combater a desinformação continua sendo um dos principais caminhos para aumentar a cobertura vacinal no estado.
“Antes de acreditarem em qualquer informação, pais e responsáveis devem buscar esclarecimentos com os profissionais de saúde. É fundamental que as equipes fortaleçam as ações de promoção da saúde nas comunidades e nas escolas, apresentando informações corretas e os benefícios da vacinação. A informação de qualidade é uma das nossas principais aliadas para proteger crianças e adolescentes.”
Embora a vacinação seja executada pelos municípios, a Sesacre atua no apoio às secretarias municipais por meio da capacitação de profissionais, orientações técnicas e incentivo às ações de educação em saúde. Entre as estratégias estão atividades do Programa Saúde na Escola, visitas domiciliares, ações nas unidades de saúde, reuniões comunitárias e projetos educativos voltados à conscientização da população.
A vacina contra o HPV protege contra infecções causadas pelo Papilomavírus Humano, vírus responsável por praticamente todos os casos de câncer do colo do útero e associado também aos cânceres de vulva, vagina, pênis, ânus e orofaringe. A imunização é recomendada para meninas e meninos de 9 a 14 anos, faixa etária em que apresenta maior eficácia.
Confiança na informação levou pai a vacinar o filho
Quando Benjamin tinha 10 anos, Luiz Gardel decidiu levá-lo para receber a vacina contra o HPV. Hoje, aos 12 anos, o adolescente já está imunizado, e o pai afirma que a decisão foi tomada por acreditar que a vacina, assim como as demais previstas no calendário vacinal, é fundamental para proteger a saúde.
Luiz conta que teve um pequeno receio no início da campanha de vacinação, quando surgiram boatos sobre adolescentes que tiveram reações ao imunizante. No entanto, afirma que a preocupação foi superada depois que os órgãos de saúde esclareceram que os casos não tinham relação com a vacina.
Segundo ele, a vacinação ocorreu de forma tranquila, sem qualquer reação adversa ou desconforto físico.
Luiz entende que a vacina tem papel fundamental na prevenção de alguns tipos de câncer. Ele também orienta outros pais e responsáveis a buscarem informações apenas em fontes confiáveis.”É essencial se informar por meio de órgãos de saúde e profissionais qualificados. São eles que têm as informações corretas e seguras para orientar os pais.”
O receio que adiou a vacinação
Mãe de um menino de 11 anos, Rosilene Cavalcante decidiu não vacinar o filho contra o HPV. Segundo ela, a decisão foi influenciada por informações que encontrou ao longo dos anos e por relatos de pessoas sobre reações após a aplicação da vacina.
Rosilene conta que ouviu comentários negativos sobre o imunizante e entre as informações que mais chamaram sua atenção estão relatos de pessoas que afirmam ter sentido tontura, fraqueza, dor de cabeça, dormência temporária nas pernas e episódios de desmaio após a vacinação. Ela também menciona supostos casos que tiveram repercussão no Brasil, em Bertioga (SP) e no Acre.
Apesar de já ter conversado com um profissional de saúde, que recomendou a vacinação do filho, Rosilene afirma que ainda não se sente segura para mudar de ideia. “Neste momento, os relatos que conheço são suficientes para que eu não mude minha decisão”, afirma.
Para Ariane Farias, é justamente diante desse cenário que o acesso à informação de qualidade se torna essencial. Ela orienta que pais e responsáveis procurem esclarecimentos com profissionais de saúde antes de tomar uma decisão baseada em informações compartilhadas sem comprovação científica.

