El Niño acende alerta para transmissão de arboviroses e intensifica sintomas respiratórios no Acre

Com temperaturas extremas, estiagem e fumaça das queimadas, população acreana sofre com o agravamento de doenças crônicas 

Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz

O fenômeno climático El Niño tem atingido o Brasil com grande intensidade, mas no Acre o cenário tem sido ainda mais grave. Entre oscilações de temperaturas, estiagem e a fumaça resultante das queimadas, a população do estado vivencia os reflexos diretos do clima na saúde pública. Longe de ser apenas um desconforto passageiro, as alterações ambientais têm potencializado o sofrimento de pessoas com doenças crônicas e facilitado a proliferação de vetores de infecções graves.

Para quem já convive com problemas respiratórios, o período seco e de queimadas transforma a rotina em um teste de resistência. É o caso de Ana Flávia Brito, que relata uma piora drástica em seus sintomas de rinite e sinusite a partir do mês de julho.

“Quando entra em época de queimada, as minhas crises são bem mais constantes. Em outros meses tenho crise uma vez por semana, mas nessa época passo a semana quase toda com congestão nasal, dor no rosto e coceira”, conta.

A jovem relata  uma piora drástica em seus sintomas de rinite e sinusite. Imagem cedida

A solução encontrada por ela durante esses períodos tem sido a compra de antialérgicos em farmácias.

A dor de cabeça, o cansaço constante e a irritação nos olhos também fazem parte da rotina de Herilandia da Silva. Ela faz tratamento para asma, no entanto, a combinação de fumaça com as mudanças repentinas de temperatura é determinante para o esgotamento físico e exacerba sintomas e dificulta a resposta terapêutica

“As mudanças dificultam a respiração e nos deixam mais cansados. Nos últimos anos dá para perceber que esses episódios ficaram bem mais frequentes e intensos”, desabafa. 

Mais viroses 

Se por um lado o ar seco e poluído agride as vias respiratórias, por outro, o cenário epidemiológico do estado exige atenção dobrada para infecções transmitidas por mosquitos. O médico infectologista e professor universitário, Dr. Igor Leão, faz um alerta fundamental: em períodos de transição climática, a população costuma associar qualquer sintoma febril a infecções respiratórias, ignorando doenças transmitidas por mosquitos.

“As arboviroses continuam sendo muito importantes, especialmente Dengue, Chikungunya, Zika, Oropouche e Mayaro. O período de maior transmissão dessas doenças está mais relacionado às condições ambientais e à presença dos vetores do que propriamente à friagem. No Acre, por exemplo, houve situação de emergência em saúde pública recente relacionada ao aumento de arboviroses”, destaca o professor universitário.

A jovem relata  uma piora drástica em seus sintomas de rinite e sinusite. Imagem cedida

Segundo o infectologista, o autodiagnóstico em casa pode retardar a busca por um tratamento médico adequado. 

“Uma pessoa com febre, dor no corpo e mal-estar durante uma alteração de clima não deve automaticamente assumir que está gripada. Dependendo do cenário epidemiológico, dengue e outras infecções precisam entrar no diagnóstico diferencial”, explica o médico.

A exposição contínua ao ar seco e às mudanças de temperatura provoca vasoconstrição na mucosa respiratória e reduz a resposta imune local. Isso torna idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas com doenças cardiopulmonares e metabólicas (como diabetes) ainda mais vulneráveis a complicações gerais de saúde.

O médico alerta que a população costuma associar qualquer sintoma febril a infecções respiratórias. Imagem: reprodução 

Cobrança por políticas públicas e ações de prevenção

Diante do agravamento anual dos episódios climáticos, as entrevistadas cobram uma resposta mais firme e estruturada do poder público. Ana Flávia defende a aplicação de sanções mais severas: “Faltam medidas públicas que visem diminuir as queimadas, com penalidades de fato para quem queima e desmata”.

Herilandia reforça a necessidade de assistência direta na ponta do sistema de saúde. “Sinto falta de ações mais intensas de prevenção, campanhas de orientação, divulgação contínua da qualidade do ar e maior oferta de atendimento e remédios nas unidades de saúde nos períodos mais críticos. É preciso proteger principalmente as crianças e os idosos”, conclui.

Sinais de alerta: quando buscar atendimento médico urgente

O Dr. Igor Leão reforça que qualquer mudança no padrão dos sintomas exige avaliação profissional imediata. Fique atento aos sinais:

  • Sinais respiratórios e gerais graves: Falta de ar ou respiração muito rápida, dor ou pressão no peito, lábios e extremidades arroxeadas, febre persistente e confusão mental.
  • Alerta específico para dengue grave: Febre associada a dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramentos (gengiva ou nariz), tonturas, desmaios ou dificuldade respiratória – especialmente durante a fase em que a febre começa a baixar.

Recomendações práticas para os períodos de seca e poluição

  • Hidratação e umidificação: Mantenha a ingestão frequente de líquidos e utilize umidificadores ou bacias de água em ambientes fechados. 
  • Combate a vetores: Elimine focos de água parada ao redor de casa para conter a proliferação de mosquitos transmissores da dengue e do Oropouche.
  • Proteção de mucosas e mãos: Evite exposição direta à fumaça nos horários mais secos, mantenha a higiene frequente das mãos e evite tocar olhos e nariz.
  • Vacinação em dia: Priorize a atualização das vacinas contra a influenza e pneumocócica (vacina contra o principal agente causador da pneumonia), essenciais para reduzir complicações em grupos prioritários.

Redação

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