Para além da sala de aula: entre o acolhimento e a política dos Centros Acadêmicos

Mais do que representar estudantes, os CAs criam espaços de convivência, organizam demandas e estimulam a participação na universidade

Por Maria Lídia Souza

Entre uma aula e outra, os Centros Acadêmicos (CAs) podem ser mais do que um espaço de representação estudantil. Para quem passa horas na universidade, os espaços também se transforma em ponto de descanso, convivência e integração. E por trás das conversas, dos eventos e das salas ocupadas pelos estudantes, existe outra função: a de organizar demandas, cobrar respostas e fazer com que os alunos tenham participação nas decisões que atravessam a vida universitária.

Para muitos estudantes, a aproximação com um Centro Acadêmico acontece antes mesmo de entender completamente o que ele representa. O presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Acre (DCE/Ufac), Rublisclei de Abreu, conta que chegou à universidade sem saber exatamente qual era a função de um CA. “No ano seguinte eu estava presidindo no meu curso”.

Rublisclei de Abreu. Foto cedida

A experiência também mostrou que a atuação dessas entidades pode começar em questões aparentemente simples. Em seu curso, por exemplo, não havia sequer um grupo de WhatsApp para reunir os estudantes. A criação do canal passou a facilitar a circulação de informações sobre estágios e empregos, aproximando oportunidades dos alunos que tinham pouco acesso a esse tipo de informação.

Uma preocupação aparece quando as demandas ultrapassam a comunicação entre estudantes. Segundo o presidente do DCE, muitos Centros Acadêmicos não possuem impressoras.“A situação revela uma dificuldade que vai além da estrutura física.É falta de estrutura de apoio”, afirma.

Na prática, a falta de recursos faz com que parte das iniciativas dependa da própria disposição dos estudantes. O presidente do DCE relata que algumas atividades são realizadas mesmo sem uma estrutura garantida pela universidade.

“A universidade tem que dar mais estrutura para a gente, só que a gente sabe, na nossa realidade, que ou faz querendo ou vai ficar sempre esperando alguém vir dar”, afirma.

A fala evidencia uma das contradições presentes na atuação dos CAs: ao mesmo tempo em que representam os estudantes e reivindicam melhorias, muitas vezes também precisam criar alternativas para que as atividades aconteçam.

Quando reivindicar faz parte da rotina

Para Joás, presidente do Centro Acadêmico de Jornalismo Elson Martins da Universidade Federal do Acre (Caem), parte importante da representação estudantil está justamente na cobrança e na mediação com a universidade. 

Segundo ele, algumas demandas exigem insistência para avançar. “As coisas aqui na universidade demoram. Tem que ficar no pé, mandar ofício”, relata.

Essa atuação coloca os estudantes diante de uma dimensão mais política da vida universitária. Não necessariamente pela ligação política-partidária, mas pela organização coletiva em torno de demandas concretas.

O presidente do DCE define essa função de maneira direta: o Centro Acadêmico, segundo ele, “ é um elo político muito forte”.

Essa dimensão aparece também em mobilizações. Durante um protesto relacionado ao transporte público, ele relata que uma parcela dos Centros Acadêmicos participou da mobilização, enquanto grande parte dos participantes era formada por estudantes organizados em forças políticas.

A representação estudantil, para Joás, precisa manter espaço para diferentes formas de participação. Ele afirma que as organizações político-partidárias fazem parte do movimento estudantil, mas defende que os CAs também possam atuar de maneira independente.

Um espaço para permanecer

Se a política aparece nas reivindicações, a vida cotidiana aparece nos corredores, nas salas e nos momentos de pausa. Para estudantes que trabalham durante o dia e frequentam cursos noturnos, o CA também pode representar um dos poucos lugares disponíveis para permanecer na universidade entre uma atividade e outra.

O presidente do DCE lembra que, durante sua graduação, a sala do Centro Acadêmico servia como espaço de descanso e estudo. Com a biblioteca frequentemente cheia, o CA acabava sendo uma alternativa para quem precisava permanecer na universidade por mais tempo.

No Caem, a lógica também se relaciona ao acolhimento. Joás destaca que o espaço reúne estudantes de diferentes períodos e acaba aproximando pessoas que dificilmente teriam contato se apenas dentro da sala de aula. Para ele, manter esse ambiente ativo e receber bem quem está chegando está entre as principais tarefas da gestão.

A convivência também passa pelas atividades culturais. Festas, eventos e outros momentos de descontração criam pausas dentro de uma rotina marcada por cobranças, trabalhos e avaliações. Para os que participam, essas experiências fazem parte da própria formação universitária.

Redação

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