Retrospectiva dedicada ao estilista britânico é retirada da programação de 2027 após críticas ao seu passado de declarações antissemitas e racistas; quinze anos depois da condenação que interrompeu sua carreira, o caso reacende o debate sobre redenção, responsabilidade e os limites da celebração artística
Por Peps Delmiro e Camila Lobaton*
John Galliano estava prestes a receber uma das maiores homenagens que um estilista vivo pode alcançar. Em maio de 2027, o Metropolitan Museum of Art, em Nova York, apresentaria John Galliano: Horizons, retrospectiva dedicada a quatro décadas de sua carreira. A exposição acompanharia sua trajetória desde a coleção de formatura na Central Saint Martins, em 1984, passando por Givenchy e Dior, até os anos à frente da Maison Margiela. Seria apenas a terceira vez que o Costume Institute dedicaria uma retrospectiva a um designer vivo. A primeira foi Yves Saint Laurent, em 1983; a segunda, Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, em 2017. A homenagem, porém, não acontecerá.
Em 31 de agosto de 2026, Met e Galliano anunciaram conjuntamente que Horizons não seguiria conforme planejado. O museu informou que há uma nova exposição para a primavera de 2027 e os detalhes do Met Gala daquele ano serão anunciados posteriormente. Em declaração divulgada pelo estilista, Galliano afirmou que, depois de refletir e conversar com o museu e outras pessoas envolvidas, considerou melhor que a exposição não acontecesse naquele momento.
A decisão encerra, ao menos por enquanto, uma tentativa de colocar no centro de uma das instituições culturais mais importantes do mundo um nome cuja trajetória é inseparável de um dos episódios mais graves da moda contemporânea. O passado de Galliano não é apenas uma controvérsia da imprensa.
Em 2011, um vídeo gravado em um bar de Paris mostrou o estilista proferindo insultos antissemitas. O episódio provocou uma reação imediata da indústria e levou a Dior a demiti-lo. Meses depois, o Tribunal Correctionnel de Paris, responsável pelo julgamento criminal na capital francesa, o considerou culpado por insultos públicos de caráter antissemita e determinou uma multa de 6 mil euros, com suspensão. A condenação estava relacionada a dois episódios ocorridos em Paris, em outubro de 2010 e fevereiro de 2011. A decisão também registrou que Galliano apresentava problemas relacionados ao uso de álcool, medicamentos e outras substâncias, mas que, segundo o tribunal, estava consciente de seus atos.

A condenação marcou uma ruptura. Galliano perdeu o posto na Dior, viu sua reputação desmoronar e se afastou do centro da moda. Para alguém que havia construído uma carreira baseada justamente na força de sua presença criativa, o desaparecimento dos grandes holofotes representava mais do que uma mudança profissional. Mas o afastamento não seria definitivo.
Galliano passou por tratamento e começou, aos poucos, a reconstruir sua relação com a indústria. Em 2013, colaborou com Oscar de la Renta. No ano seguinte, foi escolhido como diretor criativo da Maison Margiela, retornando a uma posição de liderança em uma grande casa de moda apenas três anos depois da condenação. Durante dez anos, Galliano permaneceu na Maison Margiela. Em 2024, deixou a direção artística da marca. A própria empresa reconheceu sua contribuição para o futuro da casa, enquanto o estilista afirmou que continuaria em processo de expiação e que Renzo Rosso, fundador do grupo OTB, havia lhe dado a oportunidade de reencontrar sua voz criativa.
O retorno não apagou o episódio de 2011, mas mostrou uma característica recorrente da indústria cultural: a capacidade de reconstruir carreiras mesmo depois de rupturas profundas. É possível reconhecer sua importância para a moda sem ignorar o que aconteceu. Da mesma forma, é possível reconhecer a gravidade de suas declarações sem fingir que os anos posteriores de sua carreira não existiram. Uma coisa não precisa eliminar a outra.
A própria ideia da retrospectiva do Met aparentava partir dessa contradição. A exposição pretendia apresentar a trajetória completa do estilista, incluindo sua queda na Dior e sua reinvenção posterior. O problema passou a ser outro: colocar essa trajetória dentro de uma instituição dedicada à preservação e à celebração da história da moda significaria também conferir a Galliano uma espécie de reconhecimento público?
A pergunta ganhou força depois que o calendário da exposição foi associado ao Met Gala de 2027. A mostra estava prevista para abrir em maio, período que coincidiria com o Yom HaShoah, o Dia da Memória do Holocausto. Para críticos da homenagem, a proximidade entre a celebração e uma data dedicada à memória das vítimas do Holocausto tornava a escolha ainda mais dolorosa.
Entre os críticos estava Julie Menin, presidente do Conselho Municipal de Nova York. Filha de uma sobrevivente do Holocausto e primeira mulher judia a ocupar a presidência do órgão, ela manifestou publicamente sua preocupação com a exposição e afirmou que a decisão de questioná-la tinha um caráter pessoal para ela e para a comunidade judaica. A pressão não vinha, portanto, apenas de pessoas que rejeitavam Galliano por seu comportamento passado. O caso passou a envolver a própria responsabilidade de uma instituição cultural diante da escolha de quem será colocado em evidência.
Para Denise Green, da Cornell University, essa discussão merece ser ampliada. Em análise publicada pela instituição em 1º de setembro de 2026, Green afirma que as declarações antissemitas e racistas de Galliano foram graves e que seu talento artístico não as justifica. Ao mesmo tempo, ela questiona se o estilista não estaria se tornando um alvo conveniente para uma discussão que deveria também examinar as escolhas e os incentivos das próprias instituições culturais.
Museus não são apenas depósitos de roupas, pinturas, esculturas ou documentos. Ao organizar uma retrospectiva, eles ajudam a estabelecer quais artistas ocuparão determinado lugar na memória coletiva. A escolha de uma instituição como o Met possui peso simbólico porque transforma uma trajetória individual em patrimônio cultural apresentado ao público. Isso não significa que museus devam exibir apenas artistas considerados moralmente irrepreensíveis. Se esse fosse o critério, uma parcela considerável da história da arte precisaria desaparecer das galerias.
O desafio está em outra parte: como apresentar uma obra importante sem transformar a importância da obra em absolvição do autor?
Sua carreira posterior demonstra que houve espaço para mudança. Ele reconheceu o que fez, passou por tratamento, voltou ao trabalho e construiu uma nova etapa profissional. A Reuters, ao noticiar sua saída da Maison Margiela em 2024, registrou justamente essa trajetória de reconstrução iniciada depois de sua demissão da Dior. Mas uma segunda chance não significa necessariamente esquecimento.
Em sua declaração sobre o cancelamento da exposição, Galliano reconheceu que suas palavras do passado continuam causando dor, especialmente às comunidades judaica e asiática. Também afirmou compreender que uma exposição dedicada ao seu trabalho poderia ser dolorosa para algumas pessoas e que não queria que a discussão sobre sua trajetória colocasse o Met em uma posição difícil ou desviasse a atenção do trabalho do Costume Institute. Galliano mudou sua vida profissional. O debate, agora, é se essa mudança deveria culminar em uma homenagem institucional dessa dimensão.
O Met decidiu que não.
Há o criador de desfiles extravagantes, responsável por algumas das imagens mais marcantes da moda das últimas décadas. Há também o homem que, em um momento de sua vida, dirigiu ofensas antissemitas e racistas contra outras pessoas e acabou condenado judicialmente por isso. Entre esses dois personagens existe uma carreira inteira. É essa carreira que o Met pretendia colocar em exposição. E é essa mesma carreira que acabou levando a instituição a recuar.
O caso deixa uma questão que ultrapassa as passarelas: quando uma obra pertence à história, até onde vai o direito de preservá-la e onde começa a responsabilidade de decidir como e quando seu autor deve ser celebrado? Não há uma resposta simples.
No caso de Galliano, a exposição não chegou às vitrines. Antes que os vestidos ocupassem as salas do Met, foi o passado que voltou a ocupar o centro da discussão. E, desta vez, não foi possível deixá-lo do lado de fora.
*Atividade desenvolvida pelos alunos da disciplina Redação Jornalística 2 (2026.1), sob a orientação da professora Pâmela Rocha