Por que imprimir uma foto se tornou a melhor forma de não esquecer o passado?

Em meio ao excesso de imagens, fotografia impressa resgata o valor das lembranças

Por Victor Hugo Santos e Isabelle Magalhães

Vivemos a era  digital, onde tudo precisa ser registrado, basta tirar o celular do bolso para capturar dezenas de imagens em questão de segundos. No entanto, o que deveria ser a garantia de que não esqueceríamos o passado tornou-se, muitas vezes, um acúmulo de milhares de fotos que perdem seu significado, esquecidas no armazenamento do smartphone ou nas redes sociais. Porém, e indo na contramão dessa saturação que o movimento do resgate da fotografia impressa ganha força.

Para muitas pessoas, revelar uma foto deixou de ser apenas uma forma de guardar uma imagem e passou a representar uma escolha afetiva.  Essa necessidade de materializar a memória é o que motiva a estudante de administração Rafaela Souza. Para ela, a diferença entre a tela e o papel dita o valor daquele momento, servindo como uma ponte direta para a própria história.

“Eu vejo minha vida nesses momentos. Não tenho nada contra as fotos por telefone, jamais. Mas quando eu tiro um tempo, pego em um álbum e vejo fotos da minha avó, da minha irmã que já faleceu, eu estou viajando naqueles momentos, entende? Eu penso: poxa, que dia incrível. Às vezes eu vou a momentos em que eu nem existia, mas vejo que existe uma vida, que existe amor, carinho e que, por causa de tudo aquilo, hoje eu estou aqui. É essa a sensação.”

Longe de ser apenas uma nostalgia passageira, esse fenômeno é sustentado por números de mercado. Gigantes da indústria da imagem, como a Fujifilm, viram sua linha de câmeras instantâneas e produtos analógicos se tornarem fenômenos mundiais de vendas na última década. O movimento revela que a impressão não tornou-se obsoleta, pelo contrário, ganhou novo status diante de um público que busca ir além das telas digitais.

Para Rafaela, o critério para tirar uma imagem da galeria e passá-la para o papel é o desejo de proximidade no cotidiano. “Eu amei tanto esse momento, as pessoas que estão comigo, ou aquilo que eu estava fazendo, que eu quero que aquilo esteja sempre presente comigo, seja na capinha do meu celular ou em um porta-retrato do lado da cama. Eu quero que aquela memória componha o meu dia”, explica.

Valorização emocional no toque

A sensação descrita por Rafaela atinge diretamente o que pesquisas sobre cognição chamam de psicologia da tangibilidade. Estudos mostram que o ato físico de tocar e segurar um objeto gera o efeito de propriedade psicológica, acionando redes neurais de pertencimento e valorização emocional muito mais profundas do que a simples observação de uma tela bidimensional.

Mais do que um objeto decorativo, a fotografia impressa pode mudar a forma como uma pessoa se relaciona com determinada lembrança. Para a psicóloga clínica Maynara Valieri, o contato físico com a fotografia contribui para tornar aquele momento mais presente no cotidiano. 

“Vivemos em uma época em que vemos milhares de imagens todos os dias. Passamos por elas, na maioria das vezes, rapidamente, quase sem perceber, devido aos inúmeros estímulos. Uma foto impressa faz o oposto: ela nos convida a parar”, analisa a psicóloga. “Quando seguramos uma fotografia nas mãos, muitas vezes não estamos olhando apenas para uma imagem, estamos reencontrando um momento da nossa vida. Quem éramos naquela época, quem estava ao nosso lado e como nos sentíamos.”

Maynara ressalta que o ato de imprimir é, em si, uma declaração de importância que ajuda a integrar a memória à narrativa pessoal. “As fotografias guardam muito mais do que rostos. Elas preservam vínculos, momentos de pertencimento, de despedidas, reencontros e experiências que ajudaram a construir nossa identidade. Na psicologia, entendemos que nossa saúde emocional também depende de conseguirmos dar sentido à nossa história”, afirma.

Mercado de imagens

O resgate da fotografia física também abriu espaço para novas formas de empreendedorismo em Rio Branco. Hoje o mercado se reinventa no ambiente digital para entregar afeto no mundo físico.

Fotografias no estilo Polaroid ganham espaço entre consumidores de Rio Branco. Foto: Victor Santos. 

Pequenas lojas virtuais e iniciativas locais surgem como uma conexão entre as galerias lotadas do celular e a materialidade do papel.

É o caso da Singulari, loja virtual é comandada pela policial e empreendedora Vanessa Silva Soares, que atua no negócio há sete anos. Apostando em formatos estéticos, como fotos impressas no estilo Polaroid, o negócio atende majoritariamente mulheres entre 25 e 40 anos. A empreendedora observa de perto o contraste entre o acúmulo digital e o valor do físico em sua clientela.

“Hoje, é tão fácil fazer um clique, que acabamos acumulando milhares de fotos no celular, muitas delas esquecidas. A gente registra tudo, mas quase nunca imprime, e também nunca volta para ver”, reflete Vanessa. “Talvez seja por isso que uma foto no papel emociona tanto. Ela sai da tela e ganha um lugar na nossa vida. Pode ser colocada na geladeira, dentro de um álbum ou na mesa de cabeceira. Ela pode ser tocada, presenteada e compartilhada.”

A fotografia impressa ganha espaço no dia a dia. Foto: Victor Santos

No fim, a fotografia impressa prova que a inovação pode até facilitar o registro, mas a necessidade humana de tocar e sentir a própria história continua imune ao tempo. Em uma sociedade que consome imagens de forma descartável, escolher imprimir uma foto é declarar que aquele momento merece ser lembrado de verdade.

Redação

Sair da versão mobile