Por Beatriz Ohana e Rosely Cabral
Uma das medicinas mais antigas utilizadas pelos povos indígenas amazônicos é o rapé, que tem como base o tabaco e cinzas de algumas árvores. Soprado nas narinas, o propósito é limpar a mente, promover foco e realizar curas espirituais. O sopro é feito com ajuda de kuripes (autoplicador) ou tipis (de uma pessoa para outra) que podem ser feitos de bambu, ossos ou madeiras.
Em Rio Branco, no Novo Mercado Velho, a Casa Lessa se destaca na comercialização do produto. O estabelecimento mantém parcerias comerciais diretamente com os povos Huni Kuin e Apurinã, garantindo a procedência e fortalecendo a produção dessas comunidades.No entrato, há uma certa diferença nas produções de acordo com cada povo originário: os Huni Kuin usam tabaco junto com outras plantas e ervas, enquanto os Apurinã utilizam somente plantas, tendo como diferencial sua coloração natural esverdeada.
Uma das representantes da casa de ervas, Aldione Lessa, reforça a importância de preservar as raízes e os métodos tradicionais de preparo, mesmo diante de pedidos específicos e personalizados por parte dos clientes
“Eu tenho um pilão em casa, então, quando algum cliente quer um rapé com mistura de ervas, como por exemplo, de cumaru, cravo, ou até mesmo canela, nós fazemos essa mistura”, explica Aldione Lessa.
Embora a fabricação caseira e as misturas personalizadas com especiarias ou óleos essenciais tenham se popularizado, o mercado viveu um período de forte expansão comercial.
“O hype do rapé foi por volta de 2017 e 2018, vendíamos muito, muito mesmo, até para fora.” A comerciante explica que a loja continua vendendo rapé pronto, mas tem vários clientes que buscam produtos para fazer suas próprias composições. “Tem muita gente que compra só a cinza da gente, tem outras que compram só o tabaco”.
Mesmo com a descentralização do preparo, Aldione enfatiza o compromisso de não transformar o produto em uma mercadoria comum, mas de honrar sua ancestralidade.”Eu nasci aqui, meu pai também, ele é do Seringal, tem a cultura. Respeitamos muito”, finaliza.

Atualmente, o perfil do público de clientes da casa de ervas que mais consome a substância na capital acreana é majoritariamente masculino, com faixa etária concentrada entre os 20 e 50 anos. No cotidiano urbano, o uso se divide entre medicinal, espiritual e recreativo.
Uma medicina ancestral
No aspecto medicinal, ele é amplamente utilizado para o tratamento de vias aéreas, como sinusite e descongestionamento nasal. No âmbito da espiritualidade, a concentração com o rapé serve para combater o “panema”, quando a pessoa está ruim ou cansada, além de tratar males populares como “espinhaça caída” e “peito aberto”. No uso corriqueiro ou recreativo, muitas vezes é associado a momentos de bebida, em que se passa o rapé, afirma a comerciante.
Denominado dume deshke (ou rume reshke) na língua Hãtxa Kuin, do povo Huni Kuin, o rapé é utilizado de forma ancestral pelo povo indígena como uma medicina de cura e de profunda conexão com a natureza.
O professor e liderança indígena Keã Huni Kui, no português Antônio, explica que a substância atua como um canalizador entre a espiritualidade e o indivíduo, onde o elemento central para o tratamento de males contemporâneos, como a ansiedade e a depressão, é o poder da fé.
“O que funciona mais é a fé humana, o tabaco não tem espírito, o que tem espírito é a cinza, que é o corpo da floresta. Ali, a pessoa pensa na cura que quer fazer e faz um voto, acredita que aquela medicina vai fazer a cura. Então, coloca aquela fé, usa o rapé e ali é curada”, explica Keã.
Além da dimensão individual da fé, a utilização da medicina conecta o indivíduo diretamente à vida e às forças da mata, exigindo um estado de respeito e reverência durante os rituais. O professor ressalta que o composto sagrado é preparado para atrair energias positivas e harmonizar as relações humanas por meio da espiritualidade da floresta.
“A cinza é o corpo da floresta, e a floresta nunca faz mal a ninguém a não ser ajudar. A árvore serve para fazer amizade, e quando coloca aquele espírito, também vem a humanidade fazer amizade, a pessoa coloca aquele espírito para colocar o espírito da floresta, que é viva”, afirma.
Natural da Aldeia Yawanawá, o artesão e comerciante Edmundo Shane, que atualmente reside em Rio Branco, destaca o caráter sagrado do rapé na tradição indígena. Segundo ele, vai além da medicina tradicional e integra rituais religiosos que exigem resguardo rigoroso dos participantes.
Em alguns ritos, a pessoa entra em uma espécie de reclusão: não pode ingerir bebida alcoólica nem ter relações sexuais até a conclusão do processo”, explica. Ele pontua ainda que o composto preparado sem fumo não causa dependência química e ressalta a importância da responsabilidade no uso. “É preciso ter consciência e respeito, pois não se trata apenas de uma medicina, mas de um ato espiritual”, afirma.
Entre diferentes culturas, na capital acreana o rapé caminha entre a tradição da floresta e o dia a dia na cidade urbana. O grande desafio hoje é fazer com que o comércio não apague o lado sagrado e o respeito à cultura indígena. No fim, o que importa é garantir que esse saber antigo continue vivo e sendo respeitado.