Correspondências, ata de rendição das forças bolivianas, Hino do Acre e registros relacionados à morte do líder da Revolução Acreana estão entre os documentos encontrados em um cofre em São Gabriel (RS)
Por Ranelly Yasmim Pinheiro e Danniely Silva
José Plácido de Castro foi o principal líder da Revolução Acreana e teve papel central na disputa pelo território no início do século XX. Militar e agrimensor (profissional especializado em mapear e delimitar territórios), ele comandou as forças que enfrentavam os bolivianos na região e liderou a tomada de Puerto Alonso, atual Porto Acre. Sua atuação está diretamente ligada ao processo que posteriormente resultou na incorporação do Acre ao território brasileiro.
Foi em 6 de agosto de 1902 que a campanha liderada por Plácido de Castro entrou em uma de suas etapas decisivas. Enquanto a Bolívia celebrava o aniversário de sua independência, o líder gaúcho chegava a Xapuri, então chamada de Vila Mariscal Sucre, acompanhado por seringueiros. A movimentação ocorreu durante a madrugada e, naquele primeiro momento, sem confronto armado.

Mais de um século depois dos acontecimentos, documentos relacionados à trajetória de Plácido de Castro e à Revolução Acreana foram localizados em um cofre, lacrado desde 2006 em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. A descoberta chegou ao conhecimento do Governo do Acre em 2023, quando o Arquivo Público do Estado, vinculado à Secretaria de Estado de Administração (Sead), realizava pesquisas para localizar documentos históricos relacionados à formação do Estado.
A busca levou o Arquivo Público a uma publicação do Ministério Público do Rio Grande do Sul sobre a existência de um conjunto documental chamado “Acervo descoberto por Promotoria revela história do Acre”. A partir da informação, foram iniciados contatos para identificar, localizar e conhecer o material.
Entre os documentos recuperados estão correspondências trocadas entre Plácido de Castro e Rosendo Rojas, comandante das forças bolivianas; a ata de rendição das tropas comandadas por Rojas; o Hino do Acre; além de cópias de um inquérito policial relacionado à investigação da morte de Plácido de Castro, que morreu em 9 de agosto de 1908, em decorrência de ferimentos sofridos em uma emboscada ocorrida no dia anterior.
A maior parte da documentação é de 1902 e 1903, período diretamente relacionado à Revolução Acreana. Também foram identificados mapas de 1907.
Os documentos integram o acervo de João Pedro Nunes, comerciante que teria recebido o material do próprio Plácido de Castro. Os documentos foram mantidos por gerações até chegarem à guarda do Museu Gaúcho da Força Expedicionária Brasileira, no município de São Gabriel.
Para a chefe do Arquivo Público do Acre, Cleilda Dias, a descoberta representa uma oportunidade de ampliar as fontes disponíveis para o estudo da história acreana.
“Todos os documentos encontrados possuem grande relevância para a história do Acre, especialmente por se tratar de documentação original ou relacionada diretamente a acontecimentos e personagens fundamentais da formação histórica do Estado”, afirmou.
Articulação para acesso ao acervo
A abertura do cofre e o acesso à documentação envolveram uma articulação entre instituições do Acre e do Rio Grande do Sul. O Arquivo Público do Acre, com apoio da Secretaria de Administração, utilizou a Rede de Arquivos Públicos Estaduais e do Distrito Federal para estabelecer contatos com instituições e autoridades de São Gabriel.
A Prefeitura de São Gabriel também participou das tratativas. Segundo Cleilda, o secretário-geral de Governo do município, Marlon Maciel, teve participação importante no apoio às iniciativas para a abertura do cofre e no acesso ao material histórico.
O secretário de Estado de Administração do Acre, Paulo Roberto Correia, afirma que a operação teve origem em uma demanda da própria Sead, formalizada com a Prefeitura de São Gabriel e conduzida pelo Arquivo Público do Acre.
Para ele, o acesso ao material representa uma oportunidade de preservar fontes que contribuem para compreender a formação do Estado.
“Mais do que ter acesso a documentos antigos, estamos falando de preservar fontes que ajudam a contar a nossa própria história”, destacou.
Acre receberá reprodução dos documentos
Os documentos originais permanecem em São Gabriel enquanto seguem as tratativas institucionais sobre a definição da guarda permanente do acervo.
Como forma de garantir que o Acre tenha acesso ao conteúdo, o Estado receberá um fac-símile, reprodução fiel do conjunto documental. A cópia deverá permitir que o Arquivo Público utilize o material para pesquisa, preservação, divulgação e acesso público, sem comprometer a integridade dos documentos originais.
Segundo o secretário, o fac-símile será importante para garantir que o conteúdo histórico também esteja disponível no Acre.
“Neste momento, ainda estamos nas tratativas institucionais, mas o nosso estado receberá um fac-símile, que é basicamente uma reprodução fiel desse conjunto documental”, explicou.
A reprodução também permitirá que pesquisadores e estudantes tenham contato com documentos relacionados diretamente aos acontecimentos da Revolução Acreana.
Preservação e acesso público
O governo pretende organizar e preservar o material recebido e, quando houver condições técnicas, reproduzi-lo também em formato digital. A intenção é ampliar o acesso aos documentos para estudantes, pesquisadores, historiadores e para a sociedade.
“A preservação da documentação histórica também está entre as prioridades do Governo do Estado para a nova sede do Arquivo Público do Acre, que contará com estrutura adequada para as atividades de conservação e preservação documental, incluindo um laboratório destinado a esse trabalho”, explicou Cleilda.
Comitiva responsável pela assinatura do Tratado de Petrópolis entre o Brasil e a Bolívia. Foto: Arquivo Público do Estado do Acre.
O resgate do acervo amplia as possibilidades de pesquisa sobre a Revolução Acreana e sobre a atuação de Plácido de Castro. A reprodução do material permitirá que documentos relacionados a esse período da história do Acre sejam preservados e estudados também no próprio Estado.
Como destaca Cleilda, “o objetivo é garantir que esse patrimônio possa ser conhecido, estudado e utilizado pelas gerações atuais e futuras”.
Como um conflito transformou o Acre em Brasil
A disputa pelo território que hoje corresponde ao Acre ganhou força no final do século XIX, durante o auge do Ciclo da Borracha. Embora a região pertencesse à Bolívia pelo Tratado de Ayacucho, de 1867, a presença de uma população majoritariamente brasileira criou tensões na região. A tentativa do governo boliviano de arrendar o território para o consórcio anglo-americano The Bolivian Syndicate aumentou a insatisfação entre seringueiros e proprietários de seringais.
O conflito passou por diferentes momentos. Entre 1899 e 1900, Luis Gálvez Rodríguez de Arias proclamou o Estado Independente do Acre, movimento posteriormente desfeito pelo governo brasileiro. No mesmo período, uma segunda tentativa de resistência, conhecida como “Expediente dos Poetas”, também foi derrotada pelas forças bolivianas.
A terceira e decisiva fase começou em 1902, sob a liderança de José Plácido de Castro. Em 6 de agosto daquele ano, ele assumiu o comando das forças de seringueiros e passou a organizar a resistência contra as guarnições bolivianas. A campanha resultou na conquista de pontos estratégicos, como Xapuri e Porto Acre, então Puerto Alonso.
A vitória militar abriu caminho para as negociações diplomáticas conduzidas pelo Barão do Rio Branco. Em 17 de novembro de 1903, Brasil e Bolívia assinaram o Tratado de Petrópolis, que estabeleceu a incorporação do Acre ao Brasil. O acordo também envolveu o pagamento de 2 milhões de libras esterlinas à Bolívia e o compromisso brasileiro de construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré para garantir uma rota de escoamento boliviana até o Oceano Atlântico.
O Acre foi incorporado ao Brasil inicialmente como Território Federal e, em 1962, passou à condição de estado.