Por trás das garrafas térmicas: conheça as histórias dos cafés de rua

Bancas alimentam trabalhadores, geram o sustento de famílias e boas amizades

Por Beatriz Ohana e Rosely Cabral

Todos os dias, antes mesmo do nascer do sol, as calçadas de Rio Branco estão movimentadas. As pequenas bancas de café da manhã fazem parte da rotina de quem sai cedo para trabalhar, estudar ou simplesmente procura uma refeição antes de começar o dia. Por trás de garrafas térmicas, pães e bolos, estão histórias de pessoas que encontraram nesse lugar uma alternativa para a busca por autonomia financeira e o sustento do lar.

No dia 3 de setembro de 2019, nasceu o Café da Rotatória, quando Marilene Gomes do Nascimento decidiu abrir sua própria banca na rua. Ex-cozinheira, ela enfrentava uma rotina de trabalho que a mantinha fora de casa, muitas vezes das 5h às 17h. Mãe solo de quatro filhos, o custo de pagar alguém para cuidar das crianças no período de trabalho inviabilizava seu orçamento.

“A vontade de trabalhar e ser independente veio porque eu sou mãe solo, crio meus filhos sozinha. Em 2019, eles eram muito pequenos. Para trabalhar para os outros, eu tinha que pagar alguém para ficar com eles. A ideia surgiu porque eu queria ter mais tempo com eles”, relata.

A banca funciona de segunda a sábado, das 6h40 às 10h30, na rotatória da entrada do bairro Habitasa. No cardápio, a comerciante oferece itens tradicionais da culinária local como baixaria, tapioca, misto-quente, sanduíche natural, banana frita, bolo de macaxeira, bolo de milho e pão de milho no leite da castanha e outras opções.

Do tradicional ao regional. Foto: Beatriz Ohrana

O negócio tornou-se a única fonte de renda da casa e paga a faculdade de Medicina do filho mais velho, que cursa a graduação na Bolívia. No dia a dia, Marilene conta com a ajuda dos filhos. André Nascimento, um dos filhos que a auxilia diariamente, recorda com carinho o início difícil e a evolução da família.

“No começo era meio chato, a gente trazia tudo a pé. Não tinha a estrutura de hoje, o carrinho que a gente chama de ‘tanque de guerra’. Eu não tinha força para carregar as coisas. Fui crescendo, ganhando força e tamo aí até hoje. É gratificante ver o crescimento”.

A permanência no mesmo ponto ao longo de quase sete anos criou uma clientela fixa, tanto para quem come no local, quanto para quem pede para entrega. Marilene compartilha sua relação com Tânia, uma cliente que virou amiga.

“Ela frequenta aqui diariamente, me auxilia no atendimento, recebe pagamento e entrega o pedido pronto pros outros clientes durante os horários mais movimentados”.

No bairro próximo dali, a história aconteceu no Café da Rosinha. Há quase seis anos, Rosa de Aragão vivia o desânimo de um emprego em uma clínica particular e a incerteza de ver o marido afastado do trabalho por conta de um acidente.

Sem saber por onde começar, mas com a convicção de que o café da manhã era a refeição mais importante do dia, Rosa fez uma oração à noite. No dia seguinte, a ideia estava clara. Com a caracoragem e um orçamento extremamente enxuto, ela deu o primeiro passo.

“Na época, eu tinha 700 reais e um sonho. Fui num ponto onde já tinha visto outra moça trabalhar, perguntei se estava vago e montei. Hoje, olhando para trás, foi a melhor escolha que fiz”, conta.

Rosinha e seu marido Alexandre são felizes com a banca de café. Foto: Beatriz Ohrana

Hoje, a banca é a única fonte de renda da família, operada por ela e pelo marido das 5h às 10h, na rua Quintino Bocaiúva, no bairro Bosque. Apesar dos altos custos de aluguel na região impedirem momentaneamente a transição para um ponto comercial fixo, Rosinha expandiu sua atuação, faz entregas em bairros distantes e aceita encomendas.

No cardápio, o grande diferencial é o X-Caboquinho, um sanduíche tradicional amazonense à base de tucumã e queijo coalho, uma raridade na capital acreana que conquistou o paladar local.

Diversas opções para o café da manhã. Foto: Beatriz Ohrana

Mas o que realmente segura os clientes, além do sabor da comida, é o calor humano. Samara Machado, cliente assídua, resume o sentimento de quem para na banca da Rosinha logo cedo.

“Conheci por acaso, passando na rua. Hoje, praticamente todos os dias estou aqui. Conforme você vai vindo, cria um vínculo de afeto muito bonito. A Rosinha e o Alexandre viraram meus amigos de sair. São anjos de Deus. O dia que não venho, sinto falta; no outro já tô aqui pra gente se abraçar, comer e conversar”, comenta.

Amizades que nascem do encontro diário. Foto: Beatriz Ohrana

Entre o aroma do café fresco e os salgados típicos, as bancas de rua vão além de alimentar quem tem pressa para começar a jornada. Elas garantem renda e transformam caminhos para tantas famílias de Rio Branco, cultivando além de clientes, amigos. Por trás de cada garrafa térmica, resiste a força de trabalhadores que acolhem cidadãos logo cedo com afeto e sabor.

Redação

Sair da versão mobile