Na 7ª edição do Festival Jovens do Futuro, o legado de Chico Mendes se encontra com os sonhos de uma nova geração para pensar território, clima e cultura
Por Joás Linhares
Há sonhos que não terminam quando quem os sonhou parte. Alguns atravessam o tempo, encontram novos rostos e continuam sendo construídos por outras pessoas que resolveram escutar.
É assim que o legado de Chico Mendes chega à juventude acreana. Sete edições depois de nascer em meio à pandemia, o Festival Jovens do Futuro continua reunindo quem vive a Amazônia e acredita que pensar o futuro da região também exige lembrar de quem lutou para que ela pudesse existir e resistir.
Nos dias 5 e 6 de setembro, em Rio Branco, jovens, artistas, comunicadores, ativistas e lideranças se encontraram para a sétima edição do festival, promovido pelo Comitê Chico Mendes e pelo Movimento Jovens do Futuro. Neste ano, o convite é também um chamado: “Pertencer para Proteger”.
A escolha do tema nasceu de uma oficina realizada pela organização, a partir de uma reflexão sobre as edições anteriores e, principalmente, sobre aquilo que o festival precisava dizer em um ano considerado decisivo para a juventude e para a Amazônia. Foi nas conversas entre os integrantes do movimento que uma ideia ganhou força: antes de proteger um território, é preciso reconhecê-lo como parte importante de si.
“De todas as conversas, a gente percebeu que precisamos falar de pertencimento porque a gente só protege aquilo que ama, que sente que faz parte”, explica Huana Anastácio, diretora de comunidades do Comitê Chico Mendes e uma das apresentadoras do festival.“Essa terra é nossa, somos parte da floresta e ela é nossa casa. A gente precisa proteger o nosso lar”, afirma. E uma pergunta que atravessa o festival: que futuro existe para quem quer continuar vivendo no próprio território?
Pertencer também é poder ficar
Se pertencer a um território envolve reconhecê-lo como casa, a possibilidade de permanecer nele também depende das condições encontradas para construir uma carreira e uma vida.
É nesse ponto que a pesquisa “Juventudes, Clima e Economia”, desenvolvida pelo núcleo de pesquisas do Comitê Chico Mendes, encontra o tema desta edição do festival.
A investigação surgiu de uma inquietação observada entre jovens acreanos: o desejo de deixar o estado diante da dificuldade de encontrar oportunidades de emprego, formação e qualidade de vida.
Segundo Gleiciane Pismel, coordenadora de pesquisas do Comitê, a equipe buscou compreender melhor esses desafios e investigar o conhecimento e o interesse da juventude por economias de baixo carbono, além de perceber se esses setores poderiam representar novas possibilidades de trabalho no Acre.
Um dos principais resultados acabou confirmando uma hipótese que já vinha sendo percebida pela equipe do Comitê: a falta de oportunidades aparece como um dos grandes obstáculos para a juventude. “Esse grande desafio da juventude é a falta de oportunidades, tanto de empregos quanto de estudo”, explica Gleiciane.
A crise climática também aparece nesse cenário. De acordo com a pesquisa, seus efeitos já interferem na situação econômica dos jovens e são percebidos por parte deles como um fator que contribui para o aumento do custo de vida.
Ao mesmo tempo, os dados revelam uma disposição para pensar alternativas. A maioria dos entrevistados acredita que é possível conciliar crescimento econômico e preservação ambiental. Mais de 60% também consideram positivo que o Acre invista em atividades que emitem menos carbono. O interesse existe, mas ainda há uma distância entre o desejo e as oportunidades disponíveis.
“Essa juventude até tem desejo de permanecer no território, mas acaba que esse território não dá as oportunidades que essa juventude necessita”, explica Gleiciane.
A ausência de determinados cursos universitários, as dificuldades de inserção no mercado de trabalho e a busca por acesso à cultura, ao lazer e à arte fazem parte desse conjunto de fatores. Para muitos jovens, deixar o Acre acaba sendo uma alternativa para encontrar aquilo que não conseguem construir no próprio estado.
A pesquisa, nesse sentido, acrescenta uma dimensão importante à discussão sobre pertencimento: amar o território e desejar permanecer nele não são suficientes quando faltam condições para construir um projeto de vida.
É justamente para aproximar essa discussão da juventude que os resultados da pesquisa foram apresentados antes da programação principal.
No dia 5 de setembro, das 14h às 17h, o Anfiteatro Garibaldi Brasil, na Universidade Federal do Acre (Ufac), recebeu o 3º painel Crias de Chico, encontro que antecedeu a programação principal do festival.
O tema deste ano é “A Amazônia no centro das decisões”, com debates sobre carreiras verdes, engajamento político, transição ecológica justa e agroecologia. A programação também reuniu apresentações de MAG, 21 MC e Kaemizê, além do lançamento da pesquisa sobre juventudes, clima e economia.
Para Gleiciane, o público formado especialmente por estudantes do ensino médio torna o momento ainda mais significativo.
“É um momento muito importante para que esses jovens percebam que os desafios agora estão revelados através de dados e que existem também soluções”, afirma.
A programação foi pensada também para aproximar os números de trajetórias concretas. Jovens profissionais que já atuam em áreas relacionadas ao meio ambiente participarão de um painel para apresentar experiências e possibilidades de carreira. A intenção é mostrar que, mesmo diante das dificuldades apontadas pela pesquisa, existem caminhos sendo construídos dentro do próprio estado.
“É justamente para inspirar quem vai estar presente, para eles entenderem que, apesar dos desafios, existem sim oportunidades no nosso estado e é possível crescer nos nossos territórios”, explica Gleiciane.

Quando proteger também significa decidir
A discussão sobre permanência não termina nas oportunidades de trabalho. Ela se amplia para o direito de participar das decisões sobre o território e para a forma como diferentes juventudes ocupam esse debate. A programação do festival reúne questões como justiça climática, transição ecológica justa, agroecologia, cultura e alternativas econômicas para a Amazônia.
A edição deste ano também integra a campanha “Cultura de floresta é caminho de futuro”, que busca aproximar experiências da floresta e das periferias urbanas. São espaços diferentes, mas que carregam dificuldades históricas de acesso a políticas públicas e oportunidades.
Para Huana, aproximar essas realidades é uma forma de reconhecer que a defesa da Amazônia não diz respeito somente a quem vive em áreas de floresta.
A necessidade de discutir essas questões se torna ainda mais evidente diante do cenário climático vivido pela região. Em 2024, a intensa presença de fumaça em Rio Branco fez com que a organização precisasse repensar a realização do festival. Agora, novas preocupações relacionadas às mudanças climáticas voltam a atravessar os debates.
“Quando a gente fala de proteger a floresta, a gente também fala das pessoas que vivem nela. Isso inclui todo mundo: da cidade, das reservas, das aldeias”, afirma Huana.
A crise climática, portanto, aparece também como uma questão de saúde, economia, território e permanência. Para quem vive na Amazônia, discutir esses assuntos significa participar das decisões sobre o lugar onde se vive e reivindicar o direito de construir os caminhos para o futuro.
É nesse debate que também se insere uma voz indígena. Yaka Shanenawa, comunicadora indígena, coordenadora da Rede de Comunicadores Indígenas do Acre (RCIA) e uma das apresentadoras desta edição, vê o pertencimento como algo diretamente ligado ao território e à identidade.
“Pertencer é territorial. Significa que é onde a gente está fortalecendo as nossas comunidades, nossos territórios, nossa floresta”, afirma.
A presença de uma comunicadora indígena no palco também carrega um significado particular. Yaka fala sobre a importância de mostrar para outras jovens indígenas que esses espaços podem ser ocupados por elas e que suas histórias também têm lugar nos grandes encontros da juventude amazônica.
“Como uma comunicadora indígena, jovem, mãe, me sinto muito honrada de estar naquele local e mostrar também para a juventude indígena que a gente também é capaz de subir em um palco, representar”, conta.
Sua trajetória encontra a de Chico Mendes pela memória da luta em defesa da Amazônia. Para Yaka, a história deixada pelo seringueiro continua chegando às novas gerações, inclusive aos povos indígenas. “A nossa luta ainda continua. Foi onde o Chico Mendes batalhou pela gente, e hoje ele deixou uma história também para a gente, nós indígenas.”
A comunicação aparece, para ela, como uma das possibilidades de continuidade dessa história. Ao ocupar o palco e falar diretamente com outros jovens, Yaka também leva consigo a defesa de que a juventude não abandone seus sonhos e encontre na comunicação um caminho possível.
“Que a juventude leve experiência, que não desista do seu sonho de comunicação, que comunicação também tem futuro. Comunicação é tudo.”
A música e a arte ocupam o mesmo espaço nessa construção. As apresentações de artistas locais acontecem ao lado dos debates, criando um encontro em que a reflexão sobre o território encontra as expressões culturais de quem vive nele.
Para Huana, essa dimensão faz parte da própria maneira como o Comitê Chico Mendes e o Movimento Jovens do Futuro trabalham com a juventude.
“É muito importante proteger a juventude e apresentar caminhos possíveis através da cultura, do artivismo”, afirma.
Nesse encontro entre arte, comunicação e mobilização, o festival procura mostrar que discutir o futuro da Amazônia não precisa acontecer distante daquilo que produz identidade. A cultura também conta histórias sobre o território e ajuda a criar vínculos com ele.
Um futuro que não esquece o passado
O Festival Jovens do Futuro nasceu em 2020, durante a pandemia, inspirado no legado de Chico Mendes e na carta-testamento deixada pelo seringueiro em 1988. Desde então, tornou-se um espaço de encontro entre diferentes juventudes do Acre e de discussão sobre os caminhos que a região pode construir para o futuro. A cada edição, a proposta se transforma, mas a memória que sustenta o movimento permanece. É justamente nessa continuidade que Huana encontra uma das maiores forças do festival.
“O festival continua sendo tão importante porque ele celebra um futuro que não esquece de jeito nenhum do passado”, diz.
A frase ajuda a compreender a relação entre a juventude que organiza o evento e a história que o inspira. Os jovens ocupam o centro da discussão, mas não começam essa história do zero. Há uma memória anterior a eles, construída por quem enfrentou conflitos, defendeu a floresta e imaginou possibilidades para um território que ainda hoje enfrenta desigualdades.
Para Huana, a mensagem deixada por Chico Mendes transformou-se em uma espécie de missão para as novas gerações. “É justamente a juventude que toma a frente desse festival, sem esquecer do passado e daqueles que lutaram nele.”
Mais do que preservar uma memória, porém, o movimento tenta transformá-la em ação. Para Huana, uma das maiores lições deixadas pelo seringueiro está justamente na confiança depositada nas novas gerações.
“Acho que uma das grandes lições que o Chico deixa é acreditar na juventude. Confiar em nós mesmos e na revolução que a gente pode fazer.”
Uma juventude que escolhe continuar sonhando
O Festival Jovens do Futuro acontece alguns meses antes da Semana Chico Mendes, realizada anualmente em dezembro entre Xapuri e Rio Branco para preservar a memória e o legado do seringueiro acreano.
A proximidade entre as duas iniciativas cria uma espécie de preparação para esse período de celebração da memória de Chico, especialmente porque o festival também retoma questões que atravessam sua trajetória: juventude, território, defesa da floresta e participação coletiva.
Mais de três décadas depois de sua morte, a história do seringueiro continua sendo contada por pessoas que sequer haviam nascido quando ele foi assassinado. O que poderia ter ficado restrito à memória transformou-se em inspiração para novas formas de organização, comunicação e defesa do território. Para Huana, essa permanência está ligada ao caráter coletivo do sonho.
“O sonho continua vivo porque ele é coletivo”, afirma.
É a partir desse sonho compartilhado que a juventude se reúne para discutir os próprios caminhos. A pesquisa apresentada no festival revela as dificuldades que muitos enfrentam para estudar, trabalhar e permanecer no Acre, mas também mostra que existe interesse em construir alternativas econômicas e ambientais dentro do próprio território.
Entre os palcos, as pesquisas, os debates e as manifestações culturais, o Festival Jovens do Futuro encontra uma juventude que ainda quer participar das decisões sobre o lugar onde vive. Uma juventude que carrega a memória de quem veio antes, mas que também procura escrever a própria história.
Talvez seja essa a continuidade mais bonita do legado de Chico Mendes: não a repetição de um sonho antigo, mas a possibilidade de que cada geração encontre novas maneiras de sonhá-lo.