Negócios da floresta são destaque nacional 

A transformação de insumos amazônicos em produtos impulsiona a economia local, embora ainda pouco conhecida pela população. 

Por Matheus Miranda e Liz Melo 

 O Acre possui 87% de seu território coberto pela floresta e detém a quarta maior cobertura florestal da Amazônia Legal, segundo dados do Fundo Amazônia. Esse patrimônio natural sustenta diversas cadeias produtivas que transformam insumos da floresta em produtos destinados às cidades. 

Café, sorvetes, ração animal, fármacos, biojoias, bolsas e calçados são produzidos a partir de insumos cultivados na floresta, todavia seguem tendo a sua origem de fabricação desconhecida por grande parte dos acreanos, segundo o relatório econômico “Feito no Acre: A Percepção do Consumidor”, publicado em 2026 pelo Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento do Acre e Sebrae. 

Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE/Acre). Imagem: Marcos Vicentti.

A capital Rio Branco é frequentemente abastecida com um alto volume de matérias-primas cujo manejo têm origem em plantios familiares ou de comunidades extrativistas que operam a partir da preservação das florestas e fortalecem o setor da bioeconomia no estado. 

Do preparo de comidas típicas comercializadas na famosa Feira de Economia Solidária de Rio Branco à produção de cosméticos, bolsas e acessórios, a indústria local possui cravadas as raízes da floresta em sua economia. 

Iranice Lanes. Imagem cedida.

Integrante permanente e co-fundadora do Ateliê Florescer, primeiro coletivo acreano de mulheres extrativistas, Iranilce Lanes, de 36 anos, é uma das artesãs responsáveis pela fabricação de um catálogo de artigos de moda que já somam prestígio nacional em campanhas de grandes varejistas do país. 

“O nosso primeiro trabalho foi com a Sintecal, Apex Brasil e Arezzo. Foi desenvolvido um livro e um documentário sobre os produtos de várias regiões do Acre, e está lá, junto, o nosso trabalho” relata Iranilce, com orgulho. 

Ateliê Florescer realiza curso integrado de capacitação. Imagem cedida. 

São sementes, fibras de plantas, madeira, cascas de árvores e pedras alguns dos ítens recolhidos e usados na confecção das peças, transformando um material residual da floresta em bens de alto valor de consumo e apreço fashionista.

“Nós mesmos fazemos todo o processo na comunidade. A gente coleta, às vezes vai eu, meu esposo, as minhas filhas, às vezes a tia e a mulher do primo, né. A gente vai assim, em poucos grupos.” 

Além da geração de renda, Iranilce destaca o impacto ambiental e social da atividade. “É um serviço ambiental, porque a gente coleta essas sementes de árvores que estão em pé. A gente empodera mulheres financeiramente quando dá a oportunidade dessa mulher fazer a peça dela, que vai levar o nome dela, a história dela. E por seu trabalho irá também receber”

Gravação de produção Ateliê Florescer. Imagem cedida.

Criado para fortalecer mulheres em situação de vulnerabilidade e promover autonomia financeira, o Ateliê Florescer tornou-se referência de um modelo de negócio que alia conservação da floresta, inclusão social e desenvolvimento econômico. 

Farmácia natural

De origem acreana, a Manipulare é referência na categoria de fármacos manipulados em Rio Branco, que não abre mão de “um toque acreano” em seus artigos de beleza e cuidados corporais, de acordo com a proprietária Larissa Botelho. 

Drª Larissa Botelho, empreendedora e presidente do Conselho Regional de Farmácia do Acre. Imagem cedida.

“Os nossos insumos vêm de diversos lugares do mundo e do Brasil, mas também de cidades como Cruzeiro do Sul e outras regiões do interior do Acre”, diz a empresária. 

Manteiga hidratante da linha Amazônia produzida com murumuru. Imagem cedida. 

Óleo da copaíba, seiva de jatobá, manteiga de murumuru são algumas das matérias-primas utilizadas. “Os produtos são indispensáveis em nossa farmácia, e fazemos questão de manter também, bem viva a regionalidade”, diz Larissa Botelho. 

Seiva de jatobá. Imagem da internet.

Apesar da qualidade dos bionsumos acreanos, dos diversos testes e aperfeiçoamentos em laboratório realizados em sua linha de hidratação corporal, Larissa revela que o consumidor acreano segue resistente. “O principal desafio é passar confiança em relação aos bons resultados que o produto tem a oferecer ao consumidor final”. 

Em contrapartida, a empresária revela um outro fato: “por incrível que pareça, nossa linha artesanal à base de manteigas e óleos regionais são  mais procuradas por pessoas de fora do estado do que por pessoas da nossa região”. 

Para o coordenador da Câmara Técnica de Bioeconomia do Fórum Empresarial, Jefferson Barroso, o Acre avançou na consolidação de políticas voltadas à preservação da floresta, mas ainda precisa transformar esse patrimônio ambiental em desenvolvimento econômico capaz de beneficiar toda a cadeia produtiva.

Jefferson Barroso. Arquivo pessoal. 

Segundo ele, a bioeconomia deve ir além da conservação ambiental e promover prosperidade tanto para comunidades tradicionais quanto para pequenos e grandes empreendedores. 

“A bioeconomia precisa ser conciliatória. Ela deve permitir que pequenos produtores, comunidades tradicionais e grandes empresários compartilhem os benefícios econômicos da floresta em pé, mantendo os indicadores ambientais positivos e transformando os recursos naturais em oportunidades de desenvolvimento”, afirma. 

Jefferson Barroso realizando a abertura da 1ª Câmara Técnica de Bioeconomia do Fórum Empresarial do Acre, em 2026. Arquivo pessoal.

Barroso explica que outro desafio histórico é a baixa agregação de valor aos produtos da floresta. Durante décadas, matérias-primas acreanas foram processadas e comercializadas em outras regiões do país, deixando o estado sem industrialização. 

“A castanha, por exemplo, muitas vezes ganha outros rótulos e alcança mercados sem ser identificada como um produto acreano. O mesmo acontece com a farinha, o açaí e outros produtos de grande qualidade”, explica.

Para ele, fortalecer a indústria local significa fazer com que esses produtos sejam processados, embalados e rotulados no Acre, agregando valor e ampliando sua competitividade nos mercados nacional e internacional. 

Redação

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