Ouro Branco e a memória de um Acre construído pela borracha

Vozes de diferentes gerações revelam como o ciclo da borracha moldou a história, a economia e a identidade do Acre

Por José Henrique Nascimento e Miguel Ferreira

No início do século XX, atraído pela promessa de riqueza impulsionada pelo primeiro ciclo da borracha, João Bezerra da Silva deixou o Ceará rumo ao Acre. Como milhares de nordestinos, atravessou o território nacional em busca do chamado “ouro branco”, sem imaginar que sua decisão ajudaria a construir a história de um estado inteiro.

A grande concentração de seringueiras nativas na Amazônia e a demanda internacional pelo látex transformaram a região, atraindo trabalhadores e comerciantes e dando origem a comunidades que, mais tarde, se tornaram cidades. Segundo o historiador Marcus Vinícius Neves, a migração impulsionada pela borracha foi determinante para a ocupação do território acreano e para a formação da sociedade local.

“A história do Acre está profundamente ligada à economia da borracha. A chegada dos migrantes, especialmente dos nordestinos, contribuiu para a formação das comunidades, das relações de trabalho e da própria identidade cultural acreana”, explica.

Tradição passada de geração em geração

Décadas depois da chegada de João Bezerra da Silva ao Acre, seu neto, Pedro Ribeiro da Silva, de 79 anos, nascido em Rio Branco, cresceu entre as estradas de seringa e deu continuidade ao trabalho da família nos seringais amazônicos. Ainda criança, aprendeu a preparar as ferramentas de corte e a percorrer longas distâncias para coletar o látex.

“A gente comprava a cabrita, fazia a lâmina da faca e amolava, depois roçava as estradas e fazia os cortes. Quando fechava o corte, por volta de 11 horas ou meio-dia, botava o leite para aquecer. Dependendo da quantidade de seringa, demorava mais”, relembra.

A rotina começava antes do amanhecer. Após percorrer as estradas e recolher o látex, os trabalhadores iniciavam a defumação, processo que transformava a matéria-prima em bolas de borracha.

O irmão mais novo de Pedro, José Campelo da Silva, de 58 anos, também passou a trabalhar nos seringais ainda na infância. Assim como o irmão, saía de madrugada para percorrer as estradas de seringa, recolher o látex e participar da defumação da borracha.

Da exploração à adaptação

A família vivenciou o sistema de aviamento, modelo econômico que predominou nos seringais amazônicos. Nesse sistema, os trabalhadores recebiam mercadorias dos patrões e pagavam com a própria produção, com exclusividade na comercialização, acumulando frequentemente dívidas que limitavam sua autonomia.

“Naquele tempo você não podia pegar um produto e vender. Quando vendia, era escondido do patrão”, recorda José. Apesar das limitações e dificuldades, ele guarda boas lembranças da vida nos seringais. Segundo ele, o trabalho na floresta fazia parte da rotina da família e ajudou a construir uma relação de proximidade com a natureza desde a infância.

Para ele, a seringueira nativa possui um valor que vai além da geração de renda. José acredita que a borracha produzida a partir das árvores da floresta carrega uma importância histórica, ambiental e cultural para o Acre, além de representar o modo de vida de milhares de famílias que viveram do extrativismo ao longo das décadas.

Foto: José Henrique Nascimento

Hoje, os dois irmãos vivem em Rio Branco. Pedro permaneceu ligado à atividade seringueira até a aposentadoria e mora em uma chácara, mantendo a proximidade com a natureza que marcou sua trajetória. Já José seguiu outros caminhos: trabalhou na quebra da castanha e atualmente atua como mecânico na capital acreana.

Uma herança cultural

Para Marcus Vinícius Neves, a história da borracha não pode ser compreendida apenas pelos números da produção ou pelas exportações. Segundo o pesquisador, o ciclo da borracha ajudou a moldar a formação social do Acre, influenciando hábitos, costumes, formas de ocupação do território e modos de vida que permanecem presentes até hoje.

“A borracha ajudou a construir o Acre. Ela influenciou a formação das comunidades, das relações sociais e até aspectos culturais que permanecem vivos na identidade acreana”, afirma.

A presença dos migrantes nordestinos nos seringais deixou marcas profundas na culinária, na linguagem, nas manifestações culturais e nas tradições transmitidas entre gerações.

O legado vivo na Reserva Chico Mendes

Entre as famílias que continuam ligadas à atividade está a de Raimundo Azevedo Bardos, conhecido como Raimundão, morador da Reserva Extrativista Chico Mendes.

Rogério Mendes e seu pai “Raimundão” na Resex Chico Mendes. Foto: cedida

Durante anos, ele viveu da floresta e transmitiu aos filhos conhecimentos sobre a extração da borracha e o manejo sustentável das seringueiras. Hoje, um dos responsáveis por manter essa tradição é seu filho, Rogério Azevedo Bardos, que também atua na reserva e segue percorrendo as estradas de seringa.

Para ele, o principal ensinamento recebido do pai foi o respeito pela floresta. “Quando a seringueira vive, ela depende do seringueiro que corta, que tem o cuidado de não cortar muito profundo e não ferir a árvore. Tudo isso tem um cuidado e um legado que vem de gerações.

Rogério explica que a atividade passou por diferentes transformações ao longo das décadas. Da defumação das bolas de borracha à comercialização do látex para empresas que utilizam a matéria-prima na fabricação de calçados, o trabalho continua garantindo renda para famílias que vivem na floresta.

Atualmente, parte da produção extraída na Reserva Chico Mendes é destinada à fabricação de solados de tênis da empresa francesa Veja, conectando o trabalho dos seringueiros acreanos ao mercado internacional. “Esse é o ensinamento que meu pai me deu: viver da floresta e tirar dela o nosso sustento sem agredi-la”, concluiu Rogério.

Redação

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