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Quem segura a mãe no colo?

Imagem: Tuyuka Lara

Por: Jerfeson Gadelha

Vivian chora. Brian atravessa a sala de aula enquanto a mãe tenta terminar uma prova. Sobre a carteira, caderno, caneta e uma mochila dividem espaço com mamadeiras, fraldas e brinquedos. Por alguns segundos, Vitória Matos acredita que precisará entregar a avaliação antes de concluí-la. Não por falta de conhecimento, mas porque a filha, de apenas quatro meses, precisa de colo.

Antes que isso aconteça, uma professora se aproxima, pega a bebê nos braços e permanece com ela até o fim da prova. O gesto dura poucos minutos. Para Vitória, representa a diferença entre desistir e permanecer.

Aos 20 anos, estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (UFAC), ela vive uma rotina que não aparece nas grades curriculares. Entre aulas, trabalhos acadêmicos e leituras obrigatórias, existe outra jornada, silenciosa e ininterrupta: criar sozinha Brian, de três anos, e Vivian, de quatro meses.

“Em nenhum momento imaginei que enfrentaria a maternidade sozinha”, conta. A maternidade chegou em 2022. A criação dos filhos, praticamente sozinha, veio depois.

Com o nascimento de Brian, Vitória ainda contava com a presença da mãe. Durante a segunda gestação, tudo mudou. A depressão gestacional trouxe medo, insegurança e pensamentos que ela jamais imaginou enfrentar. “Na minha cabeça passava: como eu vou fazer faculdade com duas crianças?”

Entre todas as lembranças daquele período, uma permanece intacta. Era 14 de novembro de 2025. Brian completava três anos. Naquele dia, o menino fez apenas um pedido: “Mamãe, eu quero um bolo.” Vitória não tinha dinheiro. Nem para o bolo. Nem para os ovos.

Ela chora ao lembrar. “Eu não tinha dinheiro nem para comprar ovo para a gente comer.” Naquele instante, acreditou que talvez outra família pudesse oferecer à filha que ainda esperava aquilo que ela não conseguiria. Pensou em entregá-la para adoção. Não por falta de amor, mas porque o amor, sozinho, não compra comida.

A rotina universitária também nunca foi pensada para quem chega carregando um filho no colo. Quando não encontra alguém para cuidar das crianças, Vitória leva Brian e Vivian para a universidade. Brian conversa com os professores. Anda pela sala. Faz perguntas. Vivian precisa ser amamentada entre uma aula e outra.

Enquanto colegas estudam para as provas, Vitória calcula horários de mamadas, troca de fraldas, trabalhos acadêmicos e noites mal dormidas. “Eu não consigo estudar em casa. Eles precisam de atenção o tempo todo.” Mesmo assim, continua. Até quando isso significa perder oportunidades.

Há poucos meses, conseguiu uma entrevista de emprego. Era uma chance de melhorar a renda da família. Não foi. “Perdi a entrevista porque não tinha com quem deixar minha filha.” Não faltava vontade de trabalhar. Faltava alguém que pudesse segurá-la por algumas horas. A história de Vitória não é exceção. É retrato.

Realidade no país

Segundo o Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui mais de 10 milhões de lares chefiados por mães que vivem apenas com os filhos, sem a presença de um companheiro. Ao mesmo tempo em que as mulheres passaram a assumir quase metade da chefia das famílias brasileiras, continuam concentrando a maior parte da responsabilidade pelos cuidados com os filhos.

Para a psicóloga Dayane Araújo, especialista em avaliação psicológica, essa realidade produz uma sobrecarga que muitas vezes permanece invisível. “A maioria dessas mães acaba deixando as próprias necessidades em segundo plano para dar conta de tudo.”

Ela explica que conciliar maternidade, estudos e trabalho mantém muitas mulheres em estado constante de alerta, favorecendo ansiedade, estresse e esgotamento emocional. Mas, segundo a psicóloga, existe um problema ainda mais profundo. Para ela, mães solo não precisam ser admiradas por suportarem tudo. Precisam de condições para que não sejam obrigadas a suportar tudo.

“A sociedade romantiza a mãe forte, mas por trás dessa imagem existe uma mulher que sente medo, cansaço, tristeza e esgotamento.”

Na Universidade Federal do Acre, onde Vitória estuda, ainda não existe uma política específica voltada exclusivamente para as mães universitárias. Segundo a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Proaes), a instituição oferece o Auxílio Primeira Infância para estudantes com filhos e acompanha alunos em situação de vulnerabilidade social.

A universidade informou ainda que pretende apresentar ao Ministério da Educação uma proposta para implantação de uma “cuidadoteca”, espaço destinado ao acolhimento de crianças durante atividades acadêmicas.

Enquanto políticas públicas avançam lentamente, são pequenos gestos que mantêm muitas histórias em movimento. Como o da professora que segurou Vivian durante uma prova. Ou dos colegas que convenceram Vitória a não abandonar a graduação quando ela decidiu trancar o curso.

“Disseram que estariam comigo e que iam me ajudar.” Ela permaneceu. A luta para permanecer não termina na universidade.

Respeito, empatia e oportunidade

Amanda Dias conhece esse caminho. Mãe solo e trabalhadora com carteira assinada, ela diz que todos os dias precisa organizar a própria rotina para conseguir conciliar emprego, casa e maternidade.

“A maior dificuldade é carregar tantas responsabilidades sozinha.” Depois da separação, o medo parecia maior do que qualquer plano para o futuro. Foi a terapia, aliada ao apoio da família, que permitiu reconstruir sua autonomia. “Com muita terapia, consegui entender que eu daria conta.”

Hoje, Amanda olha para a filha e reconhece o quanto caminhou. “Mais do que julgamentos, mães solo precisam de respeito, empatia e oportunidades.”

Vitória ainda não sabe exatamente como será o dia da formatura. Mas já sabe quem espera encontrar quando atravessar o palco. Brian. Vivian. Os mesmos filhos que dividiram com ela salas de aula, provas, noites sem dormir e uma rotina que poucas pessoas enxergam.

Talvez eles ainda sejam pequenos demais para compreender tudo o que aconteceu até ali. Talvez não se lembrem das provas feitas com uma bebê no colo ou das aulas interrompidas pelo choro de uma criança. Mas haverá algo que carregarão para sempre. O exemplo de uma mãe que permaneceu.

Porque, às vezes, concluir uma graduação não significa apenas conquistar um diploma. Significa provar que, mesmo quando tudo parecia empurrá-la para trás, alguém estendeu a mão. E isso foi suficiente para que ela continuasse.

Redação

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