Lambedores e garrafadas mantêm viva a tradição dos remédios caseiros no Acre

Conhecimento herdado de avós, preservado por comerciantes e mantido dentro das famílias faz dos preparados naturais parte da identidade cultural acreana.

Uma tosse persistente ou aquela dor de garganta que aparece de repente. Antes mesmo de
pensar na farmácia, muitos acreanos ainda recorrem a um costume familiar: tomar um
lambedor caseiro. Em bancas espalhadas pelo Centro de Rio Branco, esse conhecimento
continua a circular entre vendedores, produtores e consumidores, de modo a preservar uma
tradição que atravessa gerações.
Foi justamente a memória da avó, somada aos conhecimentos que o marido trouxe do
seringal, que levou Cláudia Lessa, de 48 anos, proprietária das lojas Casa Lessa e Natural
Ervas, a transformar um costume familiar em profissão. Antes mesmo de se formar em
farmácia, ela já produzia remédios caseiros ao lado do esposo, Francisco Lessa,
pesquisando receitas, ouvindo pessoas mais velhas e reunindo saberes herdados da família
com aqueles aprendidos na floresta.
“Meu esposo é do seringal e eu fui criada pelos meus avós. Minha avó sempre fazia
remédios caseiros. E a gente foi adquirindo mais conhecimento, pesquisando, conversando
com o pessoal mais antigo. Depois eu fui atrás da faculdade para aprimorar tudo isso”,
conta.

Proprietários da “Casa Lessa”, Seu Francisco e Cláudia Lessa. Foto: Ana Luiza Pedroza.

A proprietária ainda relata que cada lambedor ou garrafada passa por um processo que
pode levar dias. As ervas são cuidadosamente selecionadas, lavadas e deixadas em
infusão antes do preparo. No caso do xarope, a produção pode durar cerca de dois dias. Já
as garrafadas levam até uma semana para atingir o ponto ideal, período necessário para
que os ingredientes “apurem”.
Ao longo dos anos, Cláudia também passou a colecionar histórias de clientes que retornam
para contar os resultados obtidos após utilizarem os remédios naturais. Desta vez, o relato
que ganhou destaque foi o da cliente que enfrentava dificuldades para engravidar.
“Agorinha eu despachei uma garrafada, Saúde da Mulher que chama, para uma senhora
que tinha cisto e não engravidava. Ela disse que tomou uma garrafada e agora está grávida.
Ela veio pegar uma para a amiga dela que também está tentando engravidar. Eu até pensei
que deveria ter gravado aquele momento.”

Remédios caseiros seguem ampliando o mercado no Acre. Foto: Wellington Vidal.

Entre tradição popular e conhecimento científico

O Brasil possui uma Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF),
iniciativa do Ministério da Saúde, que orienta ações relacionadas ao uso dessas plantas no
Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, a rede pública disponibiliza medicamentos
fitoterápicos produzidos a partir de plantas medicinais, com controle de qualidade e
regulamentação específica.
Fitoterápicos e remédios caseiros não são a mesma coisa, embora compartilhem a mesma
origem vegetal. De acordo com a cartilha da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa), o remédio caseiro é preparado de forma artesanal, sem padronização da
concentração dos princípios ativos. Já o fitoterápico é um medicamento obtido de plantas
medicinais, produzido sob controle de qualidade e registrado junto aos órgãos reguladores.
A transmissão desse conhecimento popular permanece viva e se tornou um patrimônio
cultural que merece ser preservado. O portal Fitoterapia Brasil destaca que boa parte dos
saberes sobre plantas medicinais foi construída pela tradição oral, sendo repassada entre
avós, pais, filhos, raizeiros, parteiras e benzedeiras em variadas comunidades tradicionais.

Um legado que atravessa gerações

Essa herança também faz parte da história de Ricardo Filgueira, de 43 anos, proprietário da
loja Cantinho das Ervas. O comércio começou há cerca de quatro décadas com o avô,
passou para a mãe e hoje está sob sua responsabilidade.
“Meu avô vendia esses produtos naturais junto com artigos de religiões como a umbanda.
Depois minha mãe ficou só com as ervas e os remédios caseiros e agora estou levando à
frente”, relata.

Ricardo Filgueira, proprietário do “Cantinho das Ervas”. Foto: Ana Luiza Pedroza.

Grande parte das cascas e folhas comercializadas chega de extrativistas do próprio Acre,
enquanto alguns preparados vêm de estados como Amazonas e Rondônia. Segundo
Ricardo, apesar do crescimento dos medicamentos industrializados, a procura pelos
produtos naturais continua forte, principalmente entre pessoas mais velhas.
“O nosso público é mais da idade avançada. Quando vem um mais novo aqui, geralmente é
porque veio por causa da mãe ou dos avós.”
Ao longo dos anos, ele também afirma ter acompanhado inúmeros relatos de clientes que
voltaram para contar os resultados obtidos após tratamentos com produtos naturais.
“Já ouvi muitos relatos de melhora em problemas como diabetes. Já ouvi casos de curas de
problemas no fígado, gastrite, rins e mioma também. O remédio natural é um tratamento né,
não é tomar uma vez só. Mas muita gente volta para dizer que funcionou.”

O saber que permanece dentro de casa

Para a manicure Helena da Silva, de 52 anos, o costume nunca deixou de fazer parte da
rotina. Ela relata que cresceu vendo a mãe recorrer às ervas medicinais e que hoje mantém
esse mesmo hábito com filhos, sobrinhos e até com a neta. Ela ainda conta que produtos
como óleo de copaíba e mel de abelha continuam sendo os primeiros aliados da família
diante dos sintomas mais comuns.
“Desde que eu nasci minha mãe já consumia esses remédios. Foi passando de geração
para geração. A minha sobrinha tá fazendo intercâmbio nos Estados Unidos, e ela levou a
copaíba dela. Então, é assim, quando está logo no começo, a gente acha mais eficaz os
naturais. Quando não tem mais jeito com o natural, a gente corre pra drogaria.”

Dona Helena relata que consome produtos naturais há mais de 50 anos. Foto: Ana Luiza Pedroza.

Mais do que uma alternativa de cuidado, os lambedores, garrafadas e ervas medicinais
continuam a representar um modo de viver que resiste em nossa região. Uma tradição que
permanece viva e que está ligada à identidade cultural acreana, onde a floresta, a memória
e os saberes populares caminham lado a lado.

Redação

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