Muito além dos memes: o Acre e as histórias sobre OVNIs 

Relatos antigos, pesquisas e registros na Amazônia ajudam a explicar como o Acre passou a ser associado aos fenômenos aéreos não identificados

Por Diogo José e Vitória Messias

“Foi uma das coisas mais bonitas que eu já vi”. É assim que Maria Virgínia, de 48 anos, descreve a experiência que afirma ter vivido ainda na infância, quando morava em um seringal em Feijó, no interior do Acre. Atualmente residente em Rio Branco, ela conta que cresceu cercada pela floresta e que, ao longo da vida, presenciou mais de uma ocorrência que, segundo acredita, envolvia Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs).

“Todo mundo de onde eu venho diz que já viu algo assim. Eu estava no quintal da minha casa quando vi uma luz muito forte no céu. Ela não fazia barulho, mudava de direção e parecia muito diferente de qualquer avião. Foi uma das coisas mais bonitas que eu já vi. Nunca esqueci daquela cena”, relembra.

Segundo Maria, a experiência marcou sua vida e fez com que passasse a observar o céu com mais atenção. Ela afirma que, desde então, presenciou fenômenos semelhantes em outras ocasiões.

Os relatos voltaram a ganhar força nos últimos dias após um vídeo gravado pelo influenciador Mayk Leão, de 31 anos, viralizar nas redes sociais. Morador da zona rural de Curitiba, no Paraná, ele registrou luzes sobre a propriedade onde vive e afirmou estar com dificuldades para dormir desde o episódio. As imagens rapidamente despertaram especulações sobre a possibilidade de ser um OVNI.

Vídeo de depoimento do influenciador. Fonte: Instagram/Meta

Embora o episódio tenha sido registrado no Paraná, bastou o vídeo viralizar para que um velho nome voltasse às discussões sobre OVNIs: o Acre. Entre brincadeiras na internet e relatos que atravessam gerações, o estado construiu uma reputação singular na ufologia brasileira. Parte dessa fama se deve aos registros feitos em comunidades indígenas da Amazônia, que motivaram investigações oficiais e despertaram o interesse de pesquisadores de todo o país. 

Casos que marcaram o Acre

A Aldeia Apiwtxa Ashaninka, criada em 1995, fica no oeste do Acre, na bacia do rio Juruá. Foto: Tore Ashaninka/Amazônia Latitude

Entre 2013 e 2016, lideranças indígenas da Aldeia Apiwtxa, em Marechal Thaumaturgo, relataram a presença de objetos luminosos que sobrevoavam a região e, em alguns casos, emitiam feixes de luz em direção aos moradores. As denúncias motivaram investigações da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Os documentos produzidos durante essas apurações registram depoimentos e relatos sobre os fenômenos. No entanto, nenhuma investigação oficial concluiu que os objetos observados possuíam origem extraterrestre.

Vídeos de depoimentos na Aldeia Apiwtxa. Fonte: YouTube
Vídeos de depoimentos na Aldeia Apiwtxa. Fonte: YouTube

O pesquisador e documentarista Rony Vernet, que estuda os chamados fenômenos aéreos anômalos, afirma que a repercussão nacional dos episódios registrados no Acre ocorreu porque a comunidade indígena tinha interlocução com autoridades.

“No Acre, a gente só ficou sabendo desses casos porque a família indígena daquela aldeia específica era muito influente politicamente. O governo ouviu e deu seriedade ao caso. Se fosse uma aldeia isolada, certamente a gente não teria sabido disso”, afirma.

Pesquisador Rony Vernet durante as gravações do documentário britânico Evidences of Unexplained, que aborda relatos envolvendo OVNIs e comunidades indígenas do Acre. Foto: reprodução

Segundo Vernet, os documentos obtidos por ele demonstram que houve mobilização de diferentes órgãos públicos. “Quando eu peguei esses documentos de 2014, entrei de cabeça nesse assunto. Teve um caso no Acre, aconteceram operações da Polícia Federal e do Ministério Público, mas elas foram encerradas por falta de contingente”.

Outro ponto destacado pelo pesquisador envolve os relatos de profissionais que participaram das expedições realizadas nas aldeias. “A Funai enviou pesquisadores e antropólogos para lá. Uma antropóloga filmou um objeto descendo”.

Vídeo de suposta aparição na Aldeia Apiwtxa. Fonte: YouTube

Ele cita que a profissional afirmou ter observado uma esfera luminosa dentro de uma residência durante uma das expedições. Vernet relata esse caso para sustentar que os depoimentos não partiram apenas dos indígenas no local. 

Por que o Acre ganhou fama?

Para Vernet, a reputação do Acre como um dos principais cenários da ufologia brasileira pode estar ligada a diferentes fatores. Além da grande extensão da floresta amazônica e da presença de diversas terras indígenas, a existência de documentos oficiais produzidos durante as investigações conferiu maior visibilidade aos casos. Embora esses registros confirmem denúncias, diligências e depoimentos sobre fenômenos incomuns, eles não comprovam que os objetos observados tenham origem extraterrestre.

As ocorrências também são frequentemente comparadas à Operação Prato, investigação conduzida pela Força Aérea Brasileira na década de 1970, no Pará, devido às semelhanças entre os relatos de luzes, objetos e feixes luminosos registrados na Amazônia, todas amplamente divulgadas pela UAP Brasil, projeto do qual Vernet é fundador.

Imagens sobre a Operação Prato. Imagens: reprodução

Segundo ele, a UAP Brasil (Fenômenos Anômalos Não Identificados no Brasil) é uma iniciativa independente de pesquisa e divulgação que reúne documentos, relatos e análises sobre casos de UAPs (Unidentified Anomalous Phenomena), ou Fenômenos Anômalos Não Identificados. O projeto ficou conhecido por organizar documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, entrevistar testemunhas e divulgar estudos sobre ocorrências registradas principalmente na Amazônia.

O pesquisador reitera que o Brasil ainda carece de uma estrutura permanente dedicada ao estudo desses fenômenos. “O Brasil é um dos poucos países da região que não possui um órgão permanente para investigar fenômenos aéreos anômalos”.

Enquanto respostas definitivas não surgem, histórias como a de Maria Virgínia continuam alimentando um dos maiores mistérios da Amazônia. Para ela, independentemente das explicações científicas que possam surgir no futuro, a lembrança permanece viva. “Eu nunca consegui explicar o que vi. Só sei que aquela luz ficou marcada para sempre na minha memória”, finaliza.

Redação

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