Entre a cidade e a ancestralidade

Da vida urbana ao ensino superior, os indígenas relatam a luta diária por pertencimento, respeito e permanência. 

Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz 

O Acre é um dos estados brasileiros com maior diversidade de povos indígenas. De acordo com o Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 29,1 mil indígenas vivem no estado, distribuídos entre diferentes povos e municípios.

Em Rio Branco, aproximadamente 1,8 mil indígenas vivem em contexto urbano. A cidade também concentra representantes de 51 povos indígenas e registra a presença de 25 línguas indígenas faladas, o maior número entre os municípios do estado, segundo o Censo Demográfico de 2022.

A presença indígena na cidade revela uma realidade marcada pela construção contínua da identidade em meio ao espaço urbano. Longe das aldeias, muitos deixam seus territórios de origem em busca de educação, trabalho e acesso a serviços públicos. No entanto, essa trajetória também é atravessada por desafios como o racismo, a desinformação e a dificuldade de reconhecimento social.

Entre a adaptação à vida urbana e a manutenção das tradições, a identidade indígena se constrói diariamente como uma forma de resistência.

Do acesso à permanência

Para muitos indígenas que vivem em contexto urbano, a universidade faz parte da trajetória construída longe das aldeias. A busca pelo ensino superior leva estudantes a deixarem suas comunidades ou a consolidarem a vida nas cidades, onde o acesso a uma universidade pública representa uma oportunidade de ampliar direitos e perspectivas. No entanto, ingressar na universidade não significa que os desafios terminam. Permanecer nesse espaço ainda exige enfrentar barreiras que vão desde a falta de políticas efetivas até dificuldades de acolhimento e reconhecimento.

Na Universidade Federal do Acre (Ufac), o aumento no número de ingressantes indígenas marca avanços importantes nas políticas de inclusão, ao mesmo tempo em que evidencia desigualdades que ainda persistem.

Nos últimos anos, a presença de estudantes indígenas na Ufac cresceu de forma significativa. Em 2015, apenas cinco indígenas ingressaram na instituição. Em 2025, esse número chegou a 83 estudantes. O avanço é lento, mas é resultado de políticas de acesso, como ações afirmativas e ampliação de vagas, além da consolidação de cursos voltados à formação indígena, como a Licenciatura Indígena no Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul. Apenas em 2025,  depois de 23 anos da criação do curso,  foi registrado o ingresso dos primeiros estudantes indígenas acreanos no curso de Medicina.

Apesar de os números representarem um marco importante, estudantes afirmam que o desafio da permanência ainda é uma realidade dentro da universidade.

Para o acadêmico do quinto período de Enfermagem, Tuã Victor Damasceno Brandão Shanenawa, o ingresso no ensino superior não garante, por si só, condições para a continuidade da formação.

“Eu vejo que falta muita coisa para ser melhorada. Não só dentro da universidade, mas fora dela também. Quando a gente fala de políticas públicas para estudantes indígenas, não envolve apenas o campus. Como você garante a entrada de um estudante se não garante todos os direitos que são dele?”

Segundo ele, algumas políticas institucionais existem, mas enfrentam falhas na execução e, principalmente, na divulgação, o que dificulta o acesso dos estudantes aos benefícios. Como exemplo, ele cita o auxílio para o Restaurante Universitário (RU), que garante gratuidade nas refeições para estudantes indígenas durante todo o curso.

“O edital foi pouco divulgado e mal formulado. Eu soube da existência dele por terceiros. Quando fui buscar informações na Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis, ninguém sabia responder. Era um edital da própria Pró-Reitoria, e nem eles conseguiam explicar direito. Às vezes parece que colocam um tapa-buraco para dizer que existe uma política pública”.

Acadêmico de Enfermagem Tuã Victor Damasceno Brandão Shanenawa relata as faltas de políticas públicas. Imagem: Maria Eduarda Ruiz

Tuã também destaca a importância de espaços de apoio dentro da universidade, como a Casa de Apoio ao Estudante Indígena. Para ele, embora o espaço seja pertinente, ainda há limitações na estrutura e no alcance do atendimento. “Ajuda muito, ajuda de verdade. Mas ainda falta para essa ajuda realmente alcançar quem precisa. Muitas vezes acaba sendo superficial”.

Saberes indígenas e universidade 

Entre as iniciativas que considera mais significativas, o estudante cita o Programa de Educação Tutorial (PET) Conexão de Saberes: Comunidades Indígenas, que tem contribuído para sua permanência, para criar relações e para o fortalecimento da identidade indígena dentro da universidade,

“Foi uma das coisas que mais me ajudou. Eu também conheci o PET por terceiros. Entrei no programa e hoje vejo que ele me incentiva a continuar na universidade. As atividades não são voltadas apenas para uma área específica do conhecimento, mas para a nossa cultura. O PET leva nossa cultura para outras pessoas e faz com que a gente também pesquise sobre quem somos”.

Para Tuã, um dos principais desafios enfrentados pelos estudantes indígenas dentro da universidade está no reconhecimento dos saberes tradicionais como formas legítimas de produção de conhecimento.

Segundo ele, muitas pesquisas desenvolvidas por estudantes indígenas partem de experiências e conhecimentos de suas próprias comunidades, mas nem sempre são valorizadas dentro dos critérios acadêmicos tradicionais.

“A maioria dos estudantes indígenas desenvolve projetos ligados às suas comunidades. Só que, muitas vezes, esse conhecimento não é reconhecido porque não está na bibliografia tradicional. O rigor científico acaba considerando apenas aquilo que já foi produzido dentro da academia”.

Ele defende que esse modelo precisa ser revisto para incluir outras formas de produção de conhecimento.

“Quando o estudante indígena quer pesquisar um tema da própria comunidade, um conhecimento verdadeiro para nós, ele muitas vezes não recebe o mesmo reconhecimento que outros temas considerados mais ocidentais. Isso precisa mudar”.

O estudante também defende maior presença indígena em espaços de poder dentro da universidade, incluindo a docência.

“Eu acharia o máximo ver um professor indígena no meu curso ou em qualquer outro. Isso encoraja os estudantes e mostra que nós podemos estar em todos os lugares. Muitas vezes, quando um indígena entra na universidade, ele é descredibilizado, desencorajado e deixado de lado. Aos poucos, ele acaba se afastando”.

Quando o acolhimento não chega

Entre políticas de assistência estudantil e iniciativas de inclusão, estudantes relatam que o suporte nem sempre chega de forma efetiva a quem mais precisa, especialmente nos primeiros momentos de adaptação à vida universitária.

Para a estudante de Química, Kailane da Silva Nunes Makowyto, a principal dificuldade está na falta de orientação e acompanhamento dentro da universidade, o que torna o processo de adaptação mais complexo para quem chega de comunidades mais distantes.

“Em questão do que eu não vejo aqui para os estudantes, eu acho que  precisa de mais suporte. Porque tem essa questão da dificuldade de se encontrar dentro da Ufac”.

Segundo ela, o início da vida acadêmica é marcado por insegurança e pela necessidade de aprender, na prática, como acessar os serviços e apoios disponíveis.”Principalmente os que vêm de dentro das aldeias, que vêm de longe, não estão acostumados.”

Kailane destaca que, muitas vezes, a permanência na universidade depende da iniciativa individual do estudante em buscar informações e ajuda.

“Ninguém vai chegar em você do nada e vai querer te ajudar, sabe? Você precisa de verdade perguntar, você precisa buscar. Por mais que às vezes seja difícil, a gente sofre, mas a vida é assim. A gente precisa superar essas barreiras”.

A estudante de Química relatou dificuldades no início da faculdade. Imagem: Maria Eduarda Ruiz

A fala da estudante evidencia um ponto recorrente entre os relatos de indígenas no ensino superior: o acesso à universidade representa uma conquista importante, mas não garante automaticamente condições de permanência, acolhimento e pertencimento.

Os obstáculos enfrentados dentro da universidade refletem uma realidade mais ampla. Fora do ambiente acadêmico, indígenas que vivem em contexto urbano também convivem com o desafio permanente de terem sua identidade reconhecida. 

Identidade em disputa

Os desafios enfrentados pelos estudantes indígenas na universidade refletem uma realidade que vai além do ambiente acadêmico. Em contexto urbano, a identidade dos povos originários é frequentemente colocada em dúvida, seja pela sociedade não indígena, seja, em alguns casos, dentro das próprias comunidades. Ser indígena fora da aldeia significa, muitas vezes, precisar reafirmar diariamente sua identidade e seu pertencimento. Nesse contexto, a identidade deixa de ser apenas uma vivência para se tornar algo que precisa ser cotidianamente provado. 

Para a chefe da Divisão dos Povos Originários e Tradicionais da Secretaria de Estado da Mulher (Semulher), Pâmela Manchineri Simão, viver em contexto urbano significa ocupar um espaço onde a identidade indígena é constantemente questionada.

Machineri destaca sobre a realidade de ser uma indígena não aldeada. Foto: Aniely Cordeiro

“Quando o indígena não é aldeado, ele sofre a represália tanto da sociedade como até mesmo da população indígena. Porque, para o indígena aldeado, quem vive em contexto urbano muitas vezes não é considerado tão indígena, por estar longe das suas origens. E, para a sociedade, o indígena também deixa de ser reconhecido justamente por não viver na aldeia”.

Segundo ela, essa condição faz com que indígenas urbanos enfrentem diferentes formas de discriminação, tanto dentro quanto fora de suas próprias comunidades.

“Existe discriminação pela língua que as pessoas falam, pela forma como a pessoa é. Eu, como indígena que já nasci em contexto urbano, também sofri discriminação dentro das escolas quando era criança por causa das minhas características faciais”.

Pâmela afirma que o preconceito não se limita às relações sociais, mas também se manifesta na forma como a identidade indígena é validada ou negada no cotidiano.

“Existe o racismo pelas características da pessoa, pela vestimenta, por usar uma túnica, uma bolsa indígena ou artesanatos. É uma forma de fazer o apagamento histórico que a população indígena sofreu desde a invasão do Brasil e que continua até hoje. Se você usa roupa considerada de branco, dizem que você não é indígena o suficiente. Se usa uma roupa tradicional, dizem que você está querendo aparecer. Existe sempre essa contrapartida”.

Apesar disso, ela destaca que a manutenção dos costumes dentro da própria família é uma forma de fortalecer a identidade e preservar a ancestralidade. Fazer comidas tradicionais indígenas é um hábito que ela mantém com os seus familiares na cidade.

“Gostamos de participar de eventos, ouvir músicas dos povos indígenas e fortalecer essa conexão com a nossa ancestralidade. Quando digo que sou Pâmela Manchineri, meu sobrenome também marca quem eu sou. É uma forma de demarcar a minha ancestralidade”.

Políticas públicas e enfrentamento ao preconceito

No âmbito governamental, a Secretaria de Estado da Mulher (Semulher) desenvolve ações voltadas às mulheres indígenas, incluindo materiais informativos traduzidos para línguas indígenas, orientações sobre direitos e enfrentamento à violência, além da criação de uma rede de apoio para atendimento em situações de vulnerabilidade.

As iniciativas buscam ampliar o acesso à informação e fortalecer o enfrentamento às violências que atingem mulheres indígenas tanto em contextos urbanos quanto nas comunidades tradicionais.

Cartilha da Semulher como iniciativa para enfrentar violências domésticas. Imagem: Maria Eduarda Ruiz

Apesar dos avanços conquistados nos últimos anos, Pâmela avalia que ainda há desafios para que as políticas públicas atendam, de forma efetiva, às necessidades da população indígena. Para ela, mais do que ampliar ações governamentais, é necessário garantir que indígenas ocupem espaços de decisão e participem da formulação dessas políticas.

“As políticas públicas estão crescendo, só que o certo é que nessas políticas públicas sejam pessoas indígenas para representá-las. Porque uma pessoa que não é indígena não vai entender a necessidade de uma população indígena. O que tem que melhorar é colocar mais pessoas indígenas em locais de poder e que tenham mais políticas públicas do que já temos”.

Os relatos reunidos nesta reportagem mostram que, apesar dos avanços nos últimos anos, o pertencimento e a resistência ainda é um dos principais desafios para indígenas que vivem em contexto urbano. Entre o acesso a direitos, a permanência na universidade e o reconhecimento da própria identidade, as histórias de Pâmela, Tuã e Kailane revelam que ocupar esses espaços também é uma forma de afirmar quem são e preservar a ancestralidade.

Redação

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